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«A minha alma está repleta de gratidão»: Papa revê viagem ao Iraque, entre cruz, fraternidade e esperança

Francisco reviu hoje a viagem que fez ao Iraque, entre sexta e segunda-feira, tendo sublinhado «o sentido penitencial» da peregrinação, a expetativa que testemunhou de um futuro melhor por parte da população, o encontro «inesquecível» com o aiatóla Al-Sistani, o entendimento entre cristãos e muçulmanos para a reconstrução de igrejas e mesquitas, denunciou os fabricantes de armas, expressou a comoção por ter sido o primeiro papa a deslocar-se à terra de Abraão, evocou os mártires católicos e os milhares de cristãos e yazidis forçados a abandonar as suas casas por ódio à sua religião, e pediu orações pelo país e pelo Médio Oriente.

«Nos passados dias o Senhor concedeu-me visitar o Iraque, realizando um projeto de S. João Paulo II. Nunca um papa tinha estado na terra de Abraão; a Providência quis que isso acontecesse agora, como sinal de esperança após anos de guerra e terrorismo, e durante uma dura pandemia.

Após esta visita, a minha alma está repleta de gratidão. Gratidão a Deus e a todos aqueles que a tornaram possível: ao presidente da República e ao governo do Iraque; aos patriarcas e aos bispos do país, juntamente com todos os ministros e os fiéis das respetivas Igrejas; às autoridades religiosas, a partir do grande aiatóla Al-Sistani, com quem tive um encontro inesquecível na sua residência em Najaf.



«Em Ur, estando juntos sob aquele céu luminoso, o mesmo céu no qual o nosso pai Abraão nos vê, sua descendência, pareceu-nos continuar a ressoar nos corações aquela frase: vós sois todos irmãos»



Senti fortemente o sentido penitencial desta peregrinação: não podia aproximar-me daquele povo martirizado, daquela Igreja mártir, sem tomar sobre mim, em nome da Igreja católica, a cruz que eles carregam há anos; um cruz grande, como aquela colocada à entrada de Qaraqosh. Senti-o de modo particular ao ver as feridas ainda abertas pelas destruições, e mais ainda ao encontrar e escutar os testemunhos de quem sobreviveu às violências, às perseguições, ao exílio.

E ao mesmo tempo, vi em torno a mim a alegria de acolher o mensageiro de Cristo; vi a esperança a abrir-se a um horizonte de paz e de fraternidade, resumido nas palavras de Jesus que eram o moto da visita: «Vós sois todos irmãos». Verifiquei esta esperança no discurso do presidente da República, reencontrei-a em muitas saudações e testemunhos, nos cantos e nos gestos das pessoas. Li-a nos rostos luminosos dos jovens e nos olhos vivos dos idosos. As pessoas que esperavam o papa há cinco horas, de pé... inclusive mulheres com crianças nos braços... Esperavam, e nos seus olhos estava a esperança.

O povo iraquiano tem direito a viver em paz, tem direito a reencontrar a dignidade que lhe pertence. As suas raízes religiosas e culturais são milenares: a Mesopotâmia é berço de civilização; Bagdade foi na História uma cidade de importância primoridial, que hospedou durante séculos a biblioteca mais rica do mundo. E o que a destruiu? A guerra. A guerra é sempre o monstro que, com a mutação das épocas, se transforma e continua a devorar a humanidade. Mas a resposta à guerra não é uma outra guerra, a resposta às armas não são outras armas.

E eu perguntei-me: quem vendia as armas aos terroristas? Quem vende hoje as armas aos terroristas que estão a provocar destruição noutros lugares, pensemos em África, por exemplo? É uma pergunta que eu gostaria que alguém respondesse. A resposta não é a guerra, mas a resposta é a fraternidade. Este é o desafio para o Iraque, mas não só: é o desafio para muitas regiões de conflito e, definitivamente, é o desafio para todo o mundo. Seremos capazes de fazer fraternidade entre nós, de fazer uma cultura de irmãos? Ou continuaremos com a lógica iniciada por Caim, a guerra? Irmandade, fraternidade.



«Ao pensar nos muitos iraquianos emigrados, queria dizer-lhes: deixastes tudo, como Abraão; como ele, guardais a fé e a esperança, e sois tecedores de amizade e de fraternidade onde quer que estejais»



Por isso nos encontrámos e rezámos, cristãos e muçulmanos, com representantes de outras religiões, em Ur, onde Abraão recebeu o chamamento de Deus há cerca de quatro mil anos.

Abraão é pai na fé porque escutou a voz de Deus que lhe prometia uma descendência, deixou tudo e partiu. Deus é fiel às suas promessas, e ainda hoje guia os nossos passos de paz, guia os passos de quem caminha na Terra com o olhar voltado para o Céu. E em Ur, estando juntos sob aquele céu luminoso, o mesmo céu no qual o nosso pai Abraão nos vê, sua descendência, pareceu-nos continuar a ressoar nos corações aquela frase: vós sois todos irmãos.

Uma mensagem de fraternidade chegou do encontro eclesial na catedral siro-católica de Bagdade, onde em 2010 foram mortas quarenta e oito pessoas, entre as quais dois sacerdotes, durante a celebração da missa. A Igreja no Iraque é uma Igreja mártir, e naquele templo, que tem inscrita na pedra a recordação desses mártires, ressoou a alegria do encontro: o meu espanto por estar no meio deles fundia-se com a sua alegria de ter o papa consigo.

Lançámos uma mensagem de fraternidade desde Mossul e de Qaraqosh, junto ao rio Tigre, junto das ruínas da antiga Nínive. A ocupação do Isis causou a fuga de milhares e milhares de habitantes, entre os quais muitos cristãos de diversas confissões e outras minorias perseguidas, especialmente os yazidis. Foi destruída a antiga identidade destas cidades. Agora procura-se arduamente reconstruir; os muçulmanos convidam os cristãos a regressar, e juntos restauram igrejas e mesquitas. Fraternidade, está ali.

E continuemos, por favor, a orar por estes nossos irmãos e irmãs tão provados, para que tenham a força de recomeçar. E ao pensar nos muitos iraquianos emigrados, queria dizer-lhes: deixastes tudo, como Abraão; como ele, guardais a fé e a esperança, e sois tecedores de amizade e de fraternidade onde quer que estejais. E, se puderdes, regressai.



«No Iraque, apesar do fragor da destruição e das armas, as palmas, símbolo do país e da sua esperança, continuaram a crescer e a dar fruto. Assim é para a fraternidade»



Uma mensagem de fraternidade veio das duas celebrações eucarísticas: a de Bagdade, em rito caldeu, e a de Erbil, cidade onde fui recebido pelo presidente da região e do seu primeiro-ministro, pelas autoridades - agradeço aos muitos que vieram receber-me - e também fui recebido pelo povo.

A esperança de Abraão e da sua descendência realizou-se no mistério que celebrámos. Em Jesus, o Filho que Deus Pai não poupou, mas deu para a salvação de todos: Ele, com a sua morte e ressurreição, abriu-nos a passagem para a terra prometida, para a vida nova onde as lágrimas são enxugadas, as feridas sanadas, os irmãos reconciliados.

Queridos irmãos e irmãs, louvemos Deus por esta histórica visita, e continuemos a rezar por aquela terra e pelo Médio Oriente. No Iraque, apesar do fragor da destruição e das armas, as palmas, símbolo do país e da sua esperança, continuaram a crescer e a dar fruto. Assim é para a fraternidade: como o fruto das palmeiras não faz barulho, mas é frutuosa e faz-nos crescer. Deus, que é paz, conceda um futuro de fraternidade ao Iraque, ao Médio Oriente e a todo o mundo.»

No final da audiência, Francisco pediu a graça de Deus para que «quer na juventude, quer no sofrimento, quer no amor mútuo conjugal» os católicos possam «chegar à alegria da Páscoa, corroborados pelo caminho de conversão e de penitência» da Quaresma.



Imagem Mapa da visita do papa Francisco ao Iraque | 5-8.3.2021

 

Rui Jorge Martins
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: Papa Francisco, Iraque | D.R.
Publicado em 10.03.2021 | Atualizado em 12.03.2021

 

 

 
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