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Francisco, do Vaticano ao Iraque: A grande ponte

A viagem apostólica do santo padre Francisco ao Iraque pode ser interpretada como uma grande ponte que atravessa os tempos, os espaços, dilatando-os para horizontes infinitos. É uma ponte no coração de S. João Paulo II, de quem brotou o desejo de realizar uma peregrinação a Ur dos caldeus, o lugar onde Abraão recebeu o chamamento para sair da sua terra, para sair de si mesmo, e dirigir-se, com o mapa da Palavra de Deus, para a terra que Ele lhe indicaria. Um desejo, do papa Wojtyla, que não pôde cumprir-se, mas que certamente ressoava no seu coração quando, diante do mundo e dirigindo-se aos poderosos da Terra, elevou o seu grito alto contra a ameaça de uma guerra futura, cujos resultados funestos e de desestabilização do país estão à vista de todos.



Imagem D.R.


Uma ponte espiritual que conduz à própria experiência de Abraão como o homem que se põe à escuta da voz de Deus, como o homem que é radicalmente Ouvinte da Palavra: seguindo-a, sai das suas certezas para ir ao encontro de Deus. É um tema caro ao papa Francisco, porque no fundo retoma a imagem da própria Igreja “hospital de campanha” que sai de si mesma para as estradas do mundo seguindo a voz do Senhor. A evocação de Abraão é também uma referência a todos aqueles que na fé dele reconhecem uma raiz: as religiões abraâmicas com a experiência do ser “todos irmãos” evocada pelo papa na declaração de Abu Dhabi e na encíclica. No mesmo dia da permanência em Ur, o pontífice terá um encontro com o grande aiatóla Al-Sistani, um dos guias espirituais do islão xiita: uma mão estendida, o desejo de um encontro e de uma possível frequentação.



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A história de Abraão é a do homem que deixa uma morada para fazer da promessa de Deus a sua terra prometida: o cumprimento verdadeiro foi sobretudo confiado à sua descendência. O papa Francisco sulcará com os seus passos aquela terra de Mossul e do planalto de Nínive, em Qaraqosh, que outros pés, durante uma noite, em agosto de 2014, tiveram de deixar por causa da invasão ao autodenominado Estado Islâmico: alguns refugiados voltaram a habitá-la, outros ainda estão deslocados em Erbil, muitos partiram para a Europa, EUA, Canadá ou Austrália. O pontífice verá os espaços sagrados profanados, e as casas que foram abandonadas, mas pedirá para ler todos esses acontecimentos com a fé de Abraão, que partiu, esperando contra toda a esperança, e deixando que Deus fosse a sua morada. O Senhor, porém, pede à comunidade humana para ser sinal da sua presença, através da proteção dos indefesos, a tutela dos diretos humanos fundamentais – primeiro entre todos o da liberdade religiosa –, e superando a indiferença para com aqueles que foram obrigados a partir como exilados e refugiados.


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Uma ponte, a da visita do papa Francisco, que atravessa os anos e chega até 31 de outubro de 2010, quando na catedral siro-católica de Bagdade ocorreu a morte, por um vil ato terrorista, de 50 pessoas, entre as quais dois sacerdotes e algumas crianças, no termo de uma liturgia. Esse ato sucedeu a poucos dias da conclusão do Sínodo para o Médio Oriente, que trazia dentro de si um apelo e uma profecia. O apelo à consciência de ser comunidade das origens, ou seja, testemunho da comunhão num contexto de diversidade e até fragmentação. E desta forma permanecendo profecia de unidade, e evitando que a diversidade das tradições rituais e confessionais se transforme em fragmentação e divisão. A comunhão entre nós é possível apenas se extrai força da nossa relação com o Senhor crucificado e ressuscitado, se não deixamos de ser seus discípulos, mesmo se o caminho passa por nós através dos calvários do nosso tempo.


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O martírio de sangue do Iraque está a par do testemunho da caridade: quotidiana, vivida para com os pobres. Penso nas atividades da Cáritas nas quais eu próprio participei durante uma das minhas visitas, atravessando as fronteiras de bairros xiitas e sunitas da capital, para levar a ajuda da comunidade cristã, como também nas oficinas ativadas especialmente para as mulheres e as mães. Recordo a ternura das irmãs de Madre Teresa de Calcutá para cuidar das crianças com deficiência nos espaços contíguos à catedral latina, ou no centro para os idosos privados de recursos gerido pela Igreja siro-católica em Bagdade. A fúria destruidora do Daesh teve também como alvos os tesouros da história e da cultura (pensamos na destruição, ao vivo pela televisão, de alguns monumentos): a comunidade cristã, especialmente através da obra da comunidade dos padres dominicanos, assumiu o cuidado de preservar muitos códices e textos antigos, testemunhos de um passado glorioso.


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O Tigre e o Eufrates são grandes e antigos cursos de água, que criaram aquele que aprendemos a conhecer nos livros de histórica como o “crescente fértil”: nestes anos todos nós aprendemos a conhecer e talvez também alimentar um terceiro curso de água, que fecunda e dessedenta: é a torrente da solidariedade, que o mundo soube exprimir em relação aos deslocados e exilados: é significativo que o santo padre tenha permitido que na comitiva papal fosse incluída uma representante das agências que compõem a ROACO [plataforma de agências humanitárias que apoia as Igrejas Católicas Orientais], entre as muitas realidades que continuam a garantir ajudas para a sobrevivência, mas também para a reconstrução das povoações do planalto de Nínive. A escolha recaiu sobre uma expoente da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, da sede executiva na Alemanha: um justo reconhecimento que exprime apreço pelas ações, e um encorajamento aos muitos doadores que, mesmo com pequeníssimas ofertas – como o óbolo da viúva louvado por Jesus no Evangelho – tornam possível a muitos continuar a sonhar.



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O avião que levará o papa Francisco a bordo, para chegar a Bagdade, sobrevoará os céus do Médio Oriente, esses mesmos espaços que não raro – ainda recentemente – são sulcados por aviões de guerra que semeiam destruição e morte. O santo padre, desafiando o tempo de pandemia que a todos encerrou nas suas casas e dentro das suas fronteiras, volta a visitar um país, e, como já noutras ocasiões, não começa pelos ricos e pelos poderosos, mas pelas periferias, que se desestabilizaram ainda mais por causa dos conflitos e dos interesses do “primeiro mundo”. Uma bênção e talvez um pensamento não poderá faltar sobre países como a Síria e o Líbano: o primeiro, que celebra o triste anibversário dos dez anos do início do conflito, e o “país dos cedros”, laboratório em que o ser “Fratelli tutti” é dimensão quotidiana do viver entre pertencentes a confissões e religiões diversas, mas postos de joelhos pela crise económica e pelo impasse político.

Muitos pontos evocados, de passagem entre épocas e lugares: confiamos que a viagem apostólica do papa Francisco será recordada como uma porção do arco-íris que nos primeiros dias da criação certificou a aliança do céu e da terra.












Imagem Mapa da visita do papa Francisco ao Iraque | 5-8.3.2021

 

Card. Leonardo Sandri
Prefeito da Congregação paras as Igrejas Orientais
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagens: D.R.
Publicado em 04.03.2021 | Atualizado em 06.03.2021

 

 

 
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