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Líder xiita diz que visita do papa ao Iraque não é só para os cristãos, mas para todos os que trabalham pela paz

Sayyed Jawad Mohammed Taqi Al-Khoei, cofundador do Conselho para o Diálogo Inter-religioso do Iraque, considera que a visita do papa ao país, prevista para decorrer entre sexta e segunda-feira, está convicto de que «não é só para os cristãos, mas para todos aqueles que em todo o lado trabalham pela paz».

Nascido em 1980 em Najaf, a cidade sacra do islão xiita, onde no sábado Francisco será recebido pelo grande aiatola Al-Sistani, Sayyed Jawad dirige o Instituto Al-Khoei, integrado num seminário religioso fundado há mil anos no qual se procura «formar futuros estudiosos que tenham não só um amplo conhecimento dos princípios do islão xiita, mas também uma compreensão de outras escolas de pensamento e religiões, de maneira que o diálogo inter-religioso se torne parte da sua educação».

 

Qual é o papel dos líderes religiosos na construção da paz? Como se combatem os discursos de ódeio que infelizmente atravessam ainda os sermões religiosos?

Os líderes religiosos são atores influentes em muitas partes do mundo, e a religião joga ainda um papel importante na vida quotidiana de muitas pessoas, Infelizmente, existem minorias extremistas que justificam a sua violência e o ódio em nome da religião, e é responsabilidade dos líderes religiosos oporem-se a esta tendência e educar para o conhecimento da natureza pacífica das religiões. Não devemos permitir às pessoas que desviem a nossa religião e abusem dela para os seus programas nefastos, pessoais e políticos.

 

Qual é o papel das comunidades cristãs no Médio Oriente?

Se o Médio Oriente fosse uma palmeira, a sua cabeleira seria muçulmana, mas as suas raízes seriam cristãs. Os cristãos nesta região são parte integrante e indígena da nossa comunidade. Contribuíram muito para a nossa economia, cultura e vida intelectual. A beleza desta terra está na nossa diversidade, e não podemos imaginar este lugar sem cristãos. Há um famoso dito do imane Ali, o primeiro imane xiita, que nos indica como viver: «As pessoas são de dois géneros: ou são teus irmãos na fé ou teus semelhantes na humanidade».

O grande aiatola Sistani insiste constantemente na fraternidade humana, e considera que os cristãos têm os mesmos direitos e as mesmas responsabilidades dos muçulmanos no Iraque, a sua cidadania une-os. A estrutura religiosa nunca emitiu uma “fatwa” que incite ao ódio contra os outros, e considera proibido qualquer insulto contra os outros líderes religiosos, ou ataques aos seus lugares de culto.

 

O que se espera da visita do papa Francisco ao Iraque e do seu encontro com o aiatola al-Sistani?

Não consideramos o papa apenas como o líderes dos cristãos católicos, mas como um símbolo de paz e moderação. A visita do papa Francisco não é só para os cristãos, mas é para todos aqueles que em todo o lado trabalham pela paz. Lançará uma mensagem poderosa sobre a importância do diálogo inter-religioso. Os iraquianos pertencem a vários segmentos da sociedade, de diferentes origens étnicas e religiosas, estão felicíssimos pela sua próxima visita e estão orgulhosos de que o papa tenha escolhido este país, a terra dos profetas e dos santos, para a sua primeira visita ao exterior durante a pandemia global. Mostrará a todos que não há problemas entre as religiões ou entre os homens de religião, independentemente dos nossos diferentes antecedentes, e o encontro reforçará e encorajará todas as organizações que no Iraque e fora dele trabalham para o diálogo inter-religioso e para os projetos de paz.

 

Os líderes religiosos encontrarão o papa Francisco em Ur. Que mensagem querem enviar ao mundo, ao Iraque e ao Médio Oriente?

O Iraque tem sido historicamente colocado de parte por causa das situações da segurança e das diversas guerras que tivemos de enfrentar, mas a visita do papa trará novamente Ur ao mapa da Terra, e o Iraque poderá voltar a ganhar o seu lugar na razão e no mundo.

O diálogo inter-religioso é vital para todas as sociedades pacíficas porque nos permite compreender-mo-nos e pôr de parte as nossas diferenças, e dar-mo-nos conta que estamos todos na mesma barca, enfrentando os mesmos desafios.

A segurança dos muçulmanos depende da segurança dos cristãos, e a segurança dos cristãos depende da segurança dos muçulmanos. Não pode haver segurança para os muçulmanos se não há segurança para os não-muçulmanos, e vice-versa. Os não-muçulmanos não são só nossos iguais na humanidade, mas, como seres humanos, são os nossos parceiros nesta Terra. Num mundo cada vez mais globalizado, em que as distâncias e fronteiras diminuem, partilhamos todos o mesmo planeta, os mesmos recursos e os mesmos desafios.

 

O Iraque é uma terra ensanguentado pela violência e pelo terrorismo. Qual é o caminho da paz para este país e para o Médio Oriente?

Não podemos permitir que uma minoria de indivíduos violentos mude a natureza pacífica dos seres humanos e de todas as religiões divinas. Estudiosos e líderes religiosos têm de fazer mais para reclamar a verdadeira natureza da religião e prevenir o abuso e a manipulação da identidade religiosa em nome das religiões.

A Europa também sofreu séculos de conflitos e ódio religioso, mas no fim superou esta página escura da sua história para criar sociedades pacíficas. Não tenho dúvidas de que também o futuro desta região será pacífico, mas isso exigirá tempo e vontade política quer da parte dos líderes locais, quer da comunidade internacional, para que não se combatam guerras por procuração, usando-nos como carne para canhão.



Imagem Mapa da visita do papa Francisco ao Iraque | 5-8.3.2021



 

M. Chiara Biagioni
In SIR
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Bagdad, Iraque | © Murtadha Al-Sudani/Anadolu Agency
Publicado em 01.03.2021 | Atualizado em 06.03.2021

 

 

 

 
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