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Eduardo Lourenço: Bento XVI restituiu «o sentido e o esplendor da única eternidade que conta aos olhos de um cristão»

O ensaísta português Eduardo Lourenço considera que a resignação do «mais suave dos papas», Bento XVI, «não dilacera a túnica sem costura do Cristo (há tantos séculos dilacerada)».

«Restitui-lhe [à túnica] o sentido e o esplendor da única eternidade que conta aos olhos de um cristão. E que não é a do ouro e seu peso de sangue, nem da glória e sua ilusão, mas a da consciência do seu nada no espelho do tempo mortal do nosso coração», sublinha em artigo publicado esta sexta-feira no jornal "Público".

O gesto da resignação, anunciada segunda-feira e com efeitos a partir de 28 de fevereiro às 19h00 de Lisboa, «já é raro pelos tempos que correm», refere Eduardo Lourenço, acrescentando que constitui a maneira de Bento XVI «recusar a objetividade demoníaca do que é só porque é».

Para o ensaísta «poucos papas, salvo o angustiado Paulo VI, terão vivido tão literal mas também tão calmamente a banalizada "morte de Deus" na consciência contemporânea como Bento XVI».

«Na sua essência e numa perspetiva meramente profana, essa "morte", para além da sua função dialética e crítica da boa consciência religiosa do Ocidente, resume-se na inversão das perspetivas entre a "eternidade" e o "tempo".»

O pensador observa que «o tão celebrado "fim da História" é menos a constatação de que esta ou aquela potência política ou cultural, dominantes durante séculos, deixou de seduzir (entre elas a Igreja), como o facto evidente de que a iconização do puro presente e suas fulgurações irresistíveis se substituíram àquelas utopias da alma e da inteligência que postulavam, ou já eram em si mesmas, a imagem de uma vida eterna nelas antecipadas. Em suma, por idolatria, não menos eterna da alma humana».

«A "morte de Deus" é só a mais tangível expressão de uma Civilização lúdica onde banha e agoniza, ameaçada de extinção, a antiga sarça ardente através da qual "a voz de Deus" se nomeava», assinala.

Segundo Eduardo Lourenço «não se exclui que apesar deste espetacular momento de "depressão" segundo o cânone do mundo - mas a Igreja não está fora dele - e por causa dele, como consciência aguda de uma fragilidade que não a natural de um simples homem, embora sucessor de Pedro, nestes tempos wagnerianos, o povo cristão se dê um outro Siegfried [ópera de Wagner inserida na tetralogia "O Anel do Nibelungo"] desarmado e sem outro Poder que o do seu Mestre que o não tinha e em seu nome "venceu o mundo" que o não venceu».

Foto Eduardo Lourenço. Fotograma: SIC

 

Eduardo Lourenço
In Público, 15.2.2013
16.02.13

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FotoBento XVI
Vaticano, 16.2.2013
EFE/EPA/
ALESSANDRA TARANTINO / POOL

 

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