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Fé e cultura

«Qual a presença da Igreja no cinema? E na televisão? E nas fontes da cultura juvenil?», pergunta bispo auxiliar de Braga

D. Manuel Linda, um dos bispos auxiliares de Braga, considera que as instituições católicas estão «demasiadamente presas» a «jornais, prospetos, livros» e «revistas», quando é necessário «apostar em novas linguagens».

«Qual a presença da Igreja no cinema? E na televisão? E nas fontes da cultura juvenil, como nos videojogos e nos vídeos musicais?», questiona em depoimento enviado ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura a propósito da relação de Bento XVI com o universo da arte e do pensamento.

«Embora, muitas vezes, não possa afinar pelo diapasão que dá o tom geral, a Igreja não está no mundo para ser uma qualquer contracultura. Mas tem de conhecer bem a cultura dominante para lhe valorizar as suas potencialidades e pôr a nu as suas fraquezas», sublinha.

Para D. Manuel Linda os católicos devem «jogar em dois tabuleiros: continuar com o reconhecimento cordial ao mundo da alta cultura e pensamento; e lançar mão dos meios e técnicas para chegar à cultura de massas secularizada».

A seguir, as perguntas e as respostas na íntegra.

 

Como avalia o papel de Bento XVI no que diz respeito à relação que procurou manter com o mundo do pensamento e das artes, nomeadamente com artistas e tendências que se situam fora da Igreja Católica?

Obviamente, não é possível separar o teólogo Ratzinger do Papa Bento XVI. Embora com responsabilidades distintas, o teólogo e o Papa assumem, até ao fundo, o ministério do magistério.

Ora, a teologia e a sensibilidade eclesial do século XX redescobriram aquilo que o positivismo e o cienticismo prosaicos do século anterior tentaram negar: o vínculo estreito entre o homem, a verdade e a beleza. Temas que, aliás, sempre afloraram na grande tradição da Igreja. Tenha-se presente, por exemplo, Santo Agostinho, S. Tomás de Aquino, Mestre Eckhart, etc.

Nesta redescoberta, como diria von Balthasar, afirma-se a possibilidade de a pessoa chegar àquela auréola que rodeia ou emana de uma específica estrela. A auréola será a beleza e, a estrela, a conjugação da verdade e do bem. Se, pelas nossas forças é impossível atingir o centro da estrela, entra a certeza da fé de que é ela quem se exterioriza e se derrama nessa auréola. E a esse movimento, chamamos «revelação». Então, à altura dessa auréola, não podemos falar de uma simples beleza ou de uma verdade qualquer, mas do sublime, da pura Verdade e da pura Beleza. Tudo isto para dizer que não só a Beleza e a Verdade se relacionam estreitamente como também o homem e a revelação se reclamam mutuamente.

Se repararmos bem, na teologia e no magistério de Bento XVI encontramos sempre este fio condutor do seu pensamento e da sua atuação. E como a cultura atual se funda no pressuposto das meras hipóteses e na negação da possibilidade de se atingir a verdade (e, muito mais, a Verdade), então é natural a aproximação –efetivamente omnipresente- do ainda atual Papa ao mundo dos artistas, dos criadores e dos pensadores. Não por uma interesseira estratégia de marketing eclesial. Mas porque esses são, mesmo sem o saberem, os que, ao subirem à auréola, mais perto ficam da estrela. De resto, a sensibilidade musical de Bento XVI confirma o que se vem a dizer: nele, o artista e o pensador sobem àquela altura onde a Verdade se revela ou des-vela.


Quais devem ser as orientações e prioridades que, no seu entender, o próximo Papa deve assumir nesse mesmo campo do pensamento e das artes?

Embora, muitas vezes, não possa afinar pelo diapasão que dá o tom geral, a Igreja não está no mundo para ser uma qualquer contracultura. Mas tem de conhecer bem a cultura dominante para lhe valorizar as suas potencialidades e pôr a nu as suas fraquezas. E, neste conhecimento, a Igreja é especialista.

O problema põe-se nos meios e no «invólucro» para passar a mensagem: nos valores a desenvolver e nos contravalores a purificar. Quase sempre, usamos «registos» que o mundo não entende. Há, então, que apostar em novas linguagens. Ao aderir ao Twitter, Bento XVI parecia fazer referência a este âmbito. É que a Igreja ainda está demasiadamente presa à «galáxia de Gutemberg»: jornais, prospetos, livros, revistas… Por algum motivo, quase todas as Dioceses possuem uma tipografia, por mais rudimentar que seja. Mas qual a presença da Igreja no cinema? E na televisão? E nas fontes da cultura juvenil, como nos videojogos e nos vídeos musicais?

Creio, portanto, que importa jogar em dois tabuleiros: continuar com o reconhecimento cordial ao mundo da alta cultura e pensamento; e lançar mão dos meios e técnicas para chegar à cultura de massas secularizada.

 

D. Manuel Linda
Bispo auxiliar de Braga
© SNPC | 13.02.13

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D. Manuel Linda

 

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