Vemos, ouvimos e lemos
Projeto cultural
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosLigaçõesBreves Arquivo

Tu podes

Acontece que há histórias, velhas como o mundo, que continuam iluminantes. E em horas de encruzilhada como são as que vivemos, reposicionam-nos perante a tarefa essencial, que não é apenas a da reconstrução dos mercados, mas a do Ser Humano, a de nós próprios.

Penso na história dramática de Caim e Abel. Ali é-nos dito que o projecto ético (no caso, o da fraternidade) não se matura como mero dado natural, nem é uma imposição do sangue, pois este inclusive se pode voltar contra o seu igual. Os irmãos podem matar-se. A fraternidade continua ao alcance do homem, no entanto, mas como uma decisão.

É curioso o diálogo que Deus tem com Caim no capítulo 4 do Livro do Génesis: “Porque estás zangado e de rosto abatido? Se procederes bem, certamente voltarás a erguer o rosto, se procederes mal, o pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te. Cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas tu deves/podes (timshel) dominá-lo”.

O belíssimo romance de John Steinbeck, “A Leste do Paraíso”, pega nesta palavra que Deus dirige a Caim e desenvolve uma pesquisa talmúdica sobre o seu sentido. O verbo hebraico timshel é traduzido nas Bíblias mais correntes por “Tu deves”, mas Steinbeck, partindo de algumas versões rabínicas, propõe que se leia “Tu podes”. E expõe esta ideia em algumas páginas intensíssimas. Ao homem em confronto com o Mal, transtornado a ponto de eliminar o seu próprio irmão, Deus não diz: “vou retirar-te a liberdade, vou condicionar-te para que isso não mais aconteça”. Antes afirma “Tu podes vencer o Mal”.

Foto

O Mal aparece como um desafio a vencer, e não como uma inexorável fatalidade. Não somos colocados perante uma moral automática e peremptória, mas no interior dinâmico de uma moral narrativa. O Bem e o Mal constituem decisões éticas. Perguntamo-nos: ‘como pode o desgostado Caim não matar Abel, se despeitado lhe dedica uma inveja mortífera, se todos os seus direitos de filho mais velho acabam por ser relativizados por uma preferência aparentemente caprichosa de Deus?’ Tudo lhe dá razão, é verdade, mas a razão de Caim não constitui um direito de eliminar o irmão, porque Deus lhe diz uma palavra inesperada: «Tu podes (timshel) dominar o mal».

 

José Tolentino Mendonça
In Página 1, 07.05.2009
© SNPC | 11.05.09

Imagem
Deus pergunta a Caim pelo irmão (det.)
Catedral de St. Lazare
França

 

 

Artigos relacionados

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Subscreva

 


 

Mais artigos

Mais vistos

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página