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Contemporaneidade

O que é esta crise?

Um homem rouba outro com violência e, em tribunal, é condenado a 3 anos na prisão. Quando sai, em vez de abandonar a atividade criminosa e arriscada, volta a roubar outro homem com violência. Esta sucessão de acontecimentos, bem simples, explica a teoria que deu ao professor americano Garry Becker o prémio Nobel da economia em 1992 - e ajuda a perceber a terrível crise que está a afundar os sistemas financeiros mundiais e as economias de muitos países que até aqui pareciam sólidos como rocha. A teoria deste economista e professor da Universidade de Chicago é clara como água: se um criminoso é condenado a penas curtas, é natural que não sinta pressão para deixar de roubar. É uma balança de incentivos: se a perspetiva do lucro que resulta do roubo superar a dureza da pena, é mais fácil correr riscos. Isto é, torna-se mais difícil resistir ao incentivo de roubar - de ganhar dinheiro fácil.

Becker nunca quis, com esta sua explicação do comportamento do criminoso, propor como solução um reforço absurdo das penas, fechando criminosos menores durante décadas atrás das grades. O que ele quis foi explicar como as decisões humanas são permeáveis a incentivos económicos - se ganhar dinheiro através do roubo é fácil, e os riscos que se correm são pequenos quando comparados com o lucro potencial, então as sociedades estão a dar um incentivo económico muito forte ao aparecimento de mais criminosos.

Olhando a crise que devasta as economias mundiais, é simples entender que na última década os agentes do sistema financeiro receberam incentivos semelhantes ao do criminoso desta história - para esses especialistas em bolsas e mercados, criar arriscadas e complexas engenharias financeiras tinha um lucro potencial muito superior a qualquer consequência. A balança de incentivos estava desequilibrada no prato do risco - todos os incentivos do sistema conduziam na direção de mais e mais risco e transformavam numa quase miragem o prato dos problemas. Era um sistema sem consequências, sem penas.

Para ficar absolutamente claro aquilo que se passa, o parágrafo seguinte tenta resumir esta crise em quatro revelações. Na verdade, tenta explicar como a engenharia financeira nasce de forma tão… legal.

Revelação 1:
Imagine-se uma ilha em que a unidade monetária é a concha e em que o Governo, percebendo que as conchas à beira-mar se esgotaram, cria um sistema financeiro cuja teoria económica consiste em colocar todo o stock de conchas nacional numa gigantesca pilha à porta de uma cabana. Cria um sistema de segurança às conchas e pede depois aos habitantes que troquem as suas conchas pessoais por papéis - que terão o carimbo oficial desse novo organismo a que chamam banco central. Daí em diante, é com esses papéis que se fazem todas as operações económicas do dia-a-dia. Suponha-se, ainda, que toda esta mudança foi feita de forma tão eficaz que a segurança e confiança entre as pessoas aumentou - e que nenhuma delas sente necessidade de trocar papéis por conchas. O papel é suficiente.

Revelação 2:
Um ano mais tarde, esse Governo vai medir o stock de conchas que tem na pilha. Ela não diminuiu - cresceu até, já que uma reserva de conchas foi encontrada numa outra zona da praia. Decide, igualmente, fazer as contas a todo o papel que está a ser transacionado na ilha. E descobre, nessa operação, que ele é superior ao «stock» de conchas - concluindo rapidamente que a sua estratégia foi um sucesso: circula mais dinheiro na economia do que aquele que existe na pilha e isso decorre da confiança que as pessoas depositam no sistema. Sucede que, da mesma forma que o sistema compreendeu isso, alguns habitantes da ilha percebem que podem emprestar papéis a outros habitantes se eles próprios criarem pequenos sistemas financeiros que repliquem o modelo central - e surgem casas de empréstimo, bancos, que emprestam papéis com base na mesma pilha de conchas que o banco central revela à porta. Com isso, emitem mais papel e vendem-no. O dinheiro em circulação aumenta ainda mais, sem que as pilhas cresçam em igual proporção. Existe confiança, e isso chega.

Revelação 3:
Este esquema revela como é possível aumentar o dinheiro em circulação sem que isso se traduza na existência física de toda essa quantidade de notas e moedas (ou conchas). É engenharia financeira - e bem segura - que nos jornais surge normalmente referida como M3 (a massa monetária em circulação). Esse M3 tem muito pouco a ver com dinheiro verdadeiro - não existem fisicamente todas as notas e moedas que o sistema comporta. E assim se percebe melhor porque os bancos dão benefícios a quem receber o salário ou pagar as suas contas por transferência bancária. E se entende porque se investe tanto num sistema de pagamento automático como o multibanco - isso torna possível fazer o dinheiro mexer sem que ele exista.

Revelação 4:
Se todos os habitantes da ilha, por alguma razão (um golpe de Estado, por exemplo), decidissem trocar ao mesmo tempo os seus papéis por conchas, depressa se descobriria que esse dinheiro não existia. Não estava lá, ponto final. E por isso muitos habitantes da ilha, agora de conchas na mão, seriam significativamente mais pobres - e alguns estariam na pobreza absoluta por terem chegado tarde à fila! Seria o momento dramático em que o engenhoso sistema financeiro ruiria como um castelo de cartas.

Estas quatro revelações ajudam a entender bem os fundamentos da crise e a compreender o sistema financeiro - e com ele o económico. O dinheiro que circula é maior do que aquele que existe. Isso é possível porque as pessoas confiam no sistema - uns nos outros, nos bancos e nos governos centrais. Em cima deste incrível capital de confiança é possível montar novas engenharias - cada vez mais complexas - que multipliquem muitas vezes o dinheiro que não existe. Para ficar ainda mais claro: o tristemente célebre subprime não é mais do que este raciocínio elevado à 10.ª potência.

Repare-se: um homem compra uma casa mas não tem realmente dinheiro para a pagar. Um banco empresta, mas como o homem não tem realmente dinheiro para aquela casa, 'vende' esse risco a outro banco. E este, por sua vez, vende-o a uma seguradora. Para tornar essa venda apetitosa, alguns deles começam a juntar muitos empréstimos de outros tantos homens como aquele - que não têm realmente dinheiro para pagar aquelas casas. E nesse momento entram na história os hedge funds, que se especializam a juntar hipotecas como essa e a revendê-las entre si com lucros extraordinários. Tudo isto é possível porque existe uma enorme confiança entre eles - claro - mas porque alguém esqueceu o comportamento que referia Gerry Becker: se o lucro potencial de uma situação de risco parecer superior às consequências de um resultado negativo, correm-se cada vez maiores riscos.

E assim foi: dez anos depois desta bola de neve se iniciar, alguns desses homens sem dinheiro para as casas começaram mesmo a não pagar os seus empréstimos. Os bancos acionaram os seguros - que por sua vez exigiram esse dinheiro aos outros a quem tinham vendido o risco inicial. E descobriu-se o mesmo que os habitantes da ilha descobriram: esse dinheiro não estava em lado nenhum. Não existia, era virtual - na verdade, existiam apenas as pequenas casas compradas por esses homens cujo valor era infinitamente menor do que todo o dinheiro que tinham ajudado a gerar.

Esta é a crise que se está a viver: o sistema descobriu que boa parte do dinheiro que se suponha existir não existe de facto. E tal como na ilha, muitos ficaram na miséria. Sobretudo porque, na ausência de todo este dinheiro, ele afetou as pessoas - a chamada economia real, obrigando os países a intervir numa economia que desejava mercados livres dessa intervenção. Um outro texto permitiria perceber a virtude dessas ajudas, a validade dos apoios aos bancos e como podem as pessoas viver no meio de toda esta confusão.

Neste texto aqui, a conclusão é simples: o sistema, através de um mecanismo de incentivos, estimulou homens inteligentes a conceber engenharias cada vez mais milagrosas que multiplicavam dinheiro que não existia. Nenhum deles temeu nunca as consequências de um falhanço. Até que a casa veio mesmo abaixo.

 

Martim Avillez Figueiredo
Jornalista, Director do jornal «i»
© SNPC | 21.04.09

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