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Igreja e cultura: «Se vivêssemos sempre, até às últimas consequências, a fraternidade amorosa…»

O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura considera que na relação da Igreja católica com o mundo da cultura, em particular com os artistas e profissionais mais afetados pela precariedade, é preciso mais para os católicos aplicarem o Evangelho.

«Se vivêssemos sempre, até às últimas consequências, o esforço para realizar aqueles princípios de fraternidade amorosa que nós dizemos professar, estaríamos sempre não só a viver com intensidade essas realidades negativas, sofredoras, discriminadoras, que marginalizam aqueles que são nossos irmãos, como estaríamos sempre à procura de intervir com a energia do amor», declarou José Carlos Seabra Pereira.

Em conversa após o termo da 16.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, que a 28 de maio debateu, em Fátima, o tema “A condição precária”, o responsável destacou igualmente as perspetivas luminosas, apresentadas durante o Encontro, que a precariedade pode lançar sobre o itinerário de quem acredita em Deus.

 

Que aspetos destaca das intervenções na Jornada?

Começaria por realçar o facto de que as pessoas que nos conduziram na reflexão confirmaram o que nos levou a escolhê-las: são pessoas de grande presença ao mundo tal como ele se dá a ser vivido, mas em perspetivas e com trajetórias muito diferentes. E todas conseguiram ser fiéis a essa singularidade de formação, de horizonte existencial, de trajeto, e ao mesmo tempo concertarem o que pensavam e sentiam numa articulação sobre a problemática da condição precária e de nos darem vários elementos para uma compreensão mais clarividente e mais eficiente do problema social, económico e político, mas também da questão que se instaura no coração da cultura dessa condição precária, que se veio a revelar não apenas um aspeto de circunstância - iniludível, indesejável, perturbadora -, mas apenas como um aspeto negativo do precário. Os intervenientes ajudaram-nos a compreender melhor que, afinal, há outras perspetivas do precário que focam um potencial positivo; não para virar costas ao primeiro estado, negativo, mas antes, pelo contrário, para ajudar a ter outras energias de superação desse problema, a partir do facto de nos assumirmos como corresponsáveis perante esse aspeto negativo da precariedade.

Também gostei muito de ver como o tratamento do segundo e terceiro níveis do problema – a condição precária como questão cultural e a sua espiritualidade – nunca se diluíram em flores retóricas sobre abstrações, conceitos, mas foram sempre muito experienciais, embora depois desdobrada em reflexão, e esta desdobrada em proposta. Isto culminou na extraordinária alocução do senhor D. José Tolentino e como ela se encaminhou para a noção, muito cristã, de uma orientação de vida, de resgate do humano, em que a promessa já é um dom; enquanto que, muitas vezes, no mundo empírico e dos interesses, a promessa, quanto muito, é a promessa de um dom que virá ou não.

Havia um certo risco de abalarmos o que poderia para nós ser, para quem se considera crente, um reduto de estabilidade ao abrigo de qualquer condição precária, com a ideia de que se eu tenho as minhas certezas sobre Deus, sobre a minha relação com Deus, sobre o que posso receber de Deus, então não há precariedade nenhuma. Na verdade, quer a reflexão mais filosófica de Eduardo Paz Barroso, quer a reflexão teológica, mas mais pastoral e sempre muito poética, de D. Tolentino vieram mostrar que, traduzindo aquilo que na cultura cristã se sintetiza, desde há séculos, na expressão latina “homo viator”, afinal, a nossa boa condição de vivência cristã obriga a instalar o precário na espiritualidade, porque o contrário disso seria não só entorpecedor – já não teríamos mais motivação para procurar –, mas também quase ou alienante ou prometeica – julgando que, não tendo limites, dominaríamos desde já a plenitude. Na verdade, o cristão é, por excelência, aquilo que todo o ser humano é, um ser em viagem, em caminho – este foi um tema recorrente da Jornada, na poesia, mas não só –, e por isso é como a História, sempre passo atrás de passo, com um índice iniludível de provisório, de precário, mas neste caso quase abençoado, encarado positivamente como um motivo de insatisfação que nos leva sempre a buscar estádios de superação.

 

O que pode a Igreja dizer às pessoas para quem o “caminho”, referido como motivo condutor da Jornada, não é um trajeto esperançoso, mas um beco sem saída?

A Igreja pode ter, por vezes, dificuldade em encontrar formas novas de dizer as palavras de sempre, no sentido da grande mensagem. Se vivêssemos sempre, até às últimas consequências, o esforço para realizar aqueles princípios de fraternidade amorosa que nós dizemos professar, estaríamos sempre não só a viver com intensidade essas realidades negativas, sofredoras, discriminadoras, que marginalizam aqueles que são nossos irmãos, como estaríamos sempre à procura de intervir com a energia do amor. Isso estimularia, como o depoimento de Rui Spranger muito bem mostrou, um conhecimento imaginativo dos caminhos para levar socorro a essa condição, não só precária como também muito sofredora, dos nossos irmãos, que são não só os migrantes, mas igualmente aqueles que estão sempre ali no seu espaço de geografia humana originária, e que no entanto estão totalmente desterrados pela mecânica social em que deviam estar integrados.

À semelhança das anteriores edições da Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, tivemos a preocupação de partir não de um projeto de discurso globalizante, doutrinal, mas partir de uma realidade social que, tendo já existido noutros tempos, ganhou, no nosso contexto, uma premência extraordinária e iniludível.









 

Rui Jorge Martins
Imagem: José Carlos Seabra Pereira | D.R.
Publicado em 09.06.2022

 

 
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