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Jornada Nacional da Pastoral da Cultura 2022: Intervenção de abertura

Após dois anos de interregno destas Jornadas, motivado pela pandemia, eis-nos novamente a recomeçar com esta reflexão tão importantes para todos os que se interessam pela relação do cristianismo com a cultura atual.

Agradeço ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura na pessoa do seu Diretor, o Senhor Doutor José Carlos Seabra Pereira, pela organização destas Jornadas, saúdo e felicito a todos os que se inscreveram e apresento uma saudação especial e uma palavra de reconhecimento a todos os palestrantes que irão orientar a nossa reflexão.

O tema não poderia ser mais atual. Pode ler-se no site do referido Secretariado, como introdução a estas Jornadas, o seguinte: «A segunda década do presente século foi vivida - em Portugal, a Ocidente e por todo o mundo - sob o signo da crise económica, social e política, agravada nos últimos anos pelos efeitos da crise sanitária, a que presentemente se veio juntar a calamidade da guerra na Europa».

E, acrescenta-se, «um dos estigmas mais fundos e lacerantes dessa grave situação de crise reside na situação de precariedade, tantas vezes redundando em experiência limite de desemprego e de abandono, até à dificuldade extrema de subsistência física e de resistência anímica».



Perante esta causa que afeta tão profundamente a humanidade do nosso tempo, urge tomá-la a sério, refleti-la para nela atuar em beneficio da pessoa humana



Sublinha-se, ainda, que «nem as diversas áreas da vida cultural ficaram imunes a tal precariedade, nem a vida cristã de comunidade se alheou das suas causas e das suas exigências - sentindo-se profundamente interpelada e procurando reagir coerentemente».

Por isso aqui estamos. Nada do que é humano é alheio às preocupações da Igreja. Por isso, perante esta causa que afeta tão profundamente a humanidade do nosso tempo, urge tomá-la a sério, refleti-la para nela atuar em beneficio da pessoa humana.

Permita-me que faça memória de algumas passagens do Concilio Vaticano II que no diálogo que pretende estabelecer com o mundo contemporâneo, refere que «a humanidade vive hoje uma fase nova da sua história, na qual profundas e rápidas transformações se estendem progressivamente a toda a terra» (“Gaudium et spes” (GS), 4). E, acrescenta-se que «provocadas pela inteligência e atividade criadora do homem, elas reincidem sobre o mesmo homem, sobre os seus juízos e desejos individuais e coletivos, sobre os seus modos de pensar e agir, tanto em relação às coisas como às pessoas» (GS, 4).

Estamos perante uma análise realizada pela Igreja há quase sessenta anos atrás, em contextos muito distintos ds de hoje, mas tão atual. Na verdade, «o homem, que tão imensamente alarga o próprio poder, nem sempre é capaz de o pôr ao seu serviço» (GS, 4). Aliás, «ao procurar penetrar mais fundo no interior de si mesmo, aparece frequentemente mais incerto a seu próprio respeito» (GS, 4). E ainda, «descobrindo gradualmente com maior clareza as leis da vida social, hesita quanto à direção que a esta deve imprimir» (GS, 4).



«Aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes segundo as diversas ideologias»



Certamente não será difícil para nós acompanharmos a análise que a Igreja faz da sociedade actual quando refere: «nunca o género humano teve ao seu dispor tão grande abundância de riquezas, possibilidades e poderio económico; e, no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra é atormentada pela fome e pela miséria, e inúmeros são ainda os analfabetos» GS, 4.

Continua o texto realçando que «nunca os homens tiveram um tão vivo sentido da liberdade como hoje, em que surgem novas formas de servidão social e psicológica» (GS, 4).

Na verdade, «ao mesmo tempo que o mundo experimenta intensamente a própria unidade e a interdependência mútua dos seus membros na solidariedade necessária, ei-lo gravemente dilacerado por forças antagónicas; persistem ainda, com efeito, agudos conflitos políticos, sociais, económicos, “raciais” e ideológicos, nem está eliminado o perigo duma guerra que tudo subverta» (GS, 4).

De facto, «aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes segundo as diversas ideologias» (GS, 4).

Termina dizendo que «finalmente, procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado» (GS, 4).



«Procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado»



Termino, recorrendo à expressão conciliar que diz o seguinte: «marcados por circunstâncias tão complexas, muitos dos nossos contemporâneos são incapazes de discernir os valores verdadeiramente permanentes e de os harmonizar com os novamente descobertos» (GS, 4).

Se, por lado os homens e mulheres na atualidade, agitados entre a esperança e a angústia, se sentem oprimidos pela inquietação, quando se interrogam acerca da evolução presente dos acontecimentos, por outro, reconhecem que a realidade de hoje desafia o homem, força-o até a uma resposta.

Por isso aqui estamos.

Muito obrigado e boas Jornadas.


 

+João Lavrador
Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, dos Bens Culturais e das Comunicações Sociais
16.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, 28.5.2022, Fátima
Imagem: D.R.
Publicado em 28.05.2022 | Atualizado em 09.06.2022

 

 
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