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Cardeal Tolentino Mendonça: A condição precária é necessária a quem acredita em Deus

«A experiência espiritual é uma experiência de abertura, uma experiência transfronteiriça, onde aprendemos a não temer a indeterminação e o vazio, que se tornam uma espécie de sacramento do invisível», e por isso «a condição precária é necessária àquele que acredita», afirmou hoje o cardeal José Tolentino Mendonça.

Na intervenção, previamente gravada em vídeo, que finalizou a 16.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, realizada em Fátima, sobre o tema “A condição precária”, o poeta começou por destacar a «afinidade etimológica» entre a palavra latina “precarius” e “prece”.

Para o responsável pela Biblioteca Apostólica do Vaticano, a condição precária, quando relacionada com a espiritualidade cristã, «não é um obstáculo», antes uma exigência para a sua expansão: «O precário é uma condição necessária para realizar a oração», e, no sentido inverso, «a espiritualidade é uma espécie de iniciação à condição precária».

Tendo em consideração que, desde Abraão, a fé é «capacidade de viver segundo uma promessa», então «a espiritualidade é uma itinerância, uma espécie de nomadismo», e também um lugar de «desnudamento», uma coreografia das «mãos vazias», disposições paradoxais na linha daquele “aprender a desaprender” que Fernando Pessoa referia.



O que é que o mundo pede à sentinela, isto é, aos homens e mulheres crentes? Pede que iluminemos a fronteira, com a nossa vida, a nossa cultura, com o construir da nossa reflexão



«A atitude espiritual mais importante a desenvolver na vivência da condição precária talvez seja a atenção, como abertura, como disponibilidade para se deixar surpreender», apontou o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Por isso, prosseguiu, «a atitude espiritual mais oportuna talvez seja a do esvaziamento», porque «só um olhar que não tem defesas consegue olhar a verdadeira presença». É necessária «uma conversão do olhar, que crie uma disponibilidade para poder praticar uma hospitalidade do real, do real mais puro, aquele que é capaz de dar o sentido do invisível».

«Somos chamados a ser sentinelas, vigilantes, viajantes, enamorados», salientou o diretor do Arquivo Apostólico do Vaticano, antes de questionar: «O que é que o mundo pede à sentinela, isto é, aos homens e mulheres crentes? Pede que iluminemos a fronteira, com a nossa vida, a nossa cultura, com o construir da nossa reflexão».

Habitar o precário, declarou o cardeal Tolentino Mendonça, «é o que permite habitar a espantosa realidade das coisas, onde Deus se revela. Não viver de conceitos, de ideias, não construir prisões e armadilhas para reter, não cair na tentação de fixar, mas viver no trânsito, na viagem». E, talvez por isso, a figura do pastor, com a sua «transumância», confere desde as páginas bíblicas «inspiração para aquilo que é a vida da fé».



A literatura, a arte ajudam-nos muito a perceber a importância do provisório como lugar de verdade e de autenticidade, como caminho para viver a espiritualidade



Conjugar a espiritualidade do precário implica «habitar o novo», o «orgânico», o «mutante», «ver que não se vive de respostas, mas de perguntas»: «Vivemos no enigma, vivemos na fronteira... mas na espiritualidade do precário percebemos que o enigma não é um limite, que o mistério não é um obstáculo, mas sim uma possibilidade».

Aludindo ao livro bíblico do Cântico dos Cânticos, o cardeal Tolentino acentuou que «os grandes amores são lugares de uma grande busca, mais do que fusão. E na experiência da fé, mais do que a resolução, tem-se a experiência do caminho».

A terminar, o biblista propôs três notas sobre a espiritualidade da condição precária, a partir do Ir. Roger Schutz, Paul Ricoeur e Alberto Caeiro, começando pela «capacidade de viver o provisório»: «A literatura, a arte ajudam-nos a perceber a importância do provisório como lugar de verdade, de autenticidade, como caminho para viver a espiritualidade».

Por outro lado, trata-se de «estabelecer percursos de reconhecimento»: «Reconhecer é perscrutar, ouvir, identificar, cartografar, mapear... e este é um processo dinâmico da espiritualidade, porque ela dá-nos acesso a uma experiência, a um acontecimento... é alguma coisa que nos transforma».



Viver a espiritualidade do precário, do provisório não é viver uma espiritualidade em tom menor, não é viver uma espiritualidade diminuída, insuficiente; pelo contrário, é viver intensamente a espiritualidade, é viver o coração da vida espiritual



Mas «reconhecer tem igualmente o significado de gratidão, e por isso a espiritualidade do provisório é também capaz de perceber que está no interior de uma economia do dom, que há uma dinâmica da dádiva, que o não saber não é simplesmente a experiência de uma ausência, mas que a ausência fala, como aconteceu no sepulcro vazio que alou a Maria Madalena»; o que para ela era um «lugar-limite, tornou-se o lugar possível de um diálogo».

Inerente à condição precária subsiste também a «espiritualidade pascal»: «A verdadeira espiritualidade é uma dinâmica de ponte, é habitar o fluir, é não interromper, é uma vida que caminha de margem a margem, é habitar o mistério, habitar o “entre”, porque é o “entre” que nos faz viver, o “entre” é o lugar da passagem da vida, de nós próprios, é o lugar da passagem de Deus». Porque «o verdadeiro modo da experiência de Deus é a passagem».

«Viver a espiritualidade do precário, do provisório não é viver uma espiritualidade em tom menor, não é viver uma espiritualidade diminuída, insuficiente; pelo contrário, é viver intensamente a espiritualidade, é viver o coração da vida espiritual, porque também aqui a experiência do menos é abertura ao mais», concluiu o cardeal Tolentino Mendonça.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 28.05.2022 | Atualizado em 09.06.2022

 

 
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