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O poder humanizador da arte

(A verdadeira arte é de) natureza epifânica, reveladora (...) A obra de arte verdadeira é sempre nova, não cansa, porque traz em si mesma - e apesar de si mesma - algo que não lhe pertence e não pertence ao seu autor: vem de outro lugar, de uma instância mais alta e através da única via possível, que é a via da beleza (...) A forma, a beleza, revela o ser das coisas; é muito estranho falar do "ser das coisas". Esse ser é inapreensível, eu não dou conta de pegar o ser de uma rosa, de um rio, de uma paisagem ou de um rosto. Mas quando a arte apreende essa coisa mais alta, que está atrás do ser das coisas, ela nos revela, nos remete à Beleza Suprema, se nós estivermos despidos do orgulho da razão e da lógica (...) Arte é para o sentimento, é para a sensibilidade, é para a inteligência do coração.

S. Tomás de Aquino, que falou sobre tudo na sua Suma Teológica, diz: "Todo o ser é belo: se alguma coisa é, ela é bela". E a arte revela o ser e toda a obra verdadeira é necessariamente bela. Ela tem o jeito belo de mostrar até a fealdade: é por isso que uma obra verdadeira, retratando alguma coisa horrível ou asquerosa, pode nos mover até a ter aquela obra em casa (...) A beleza na arte, sendo beleza da forma, não é assunto; a gente faz muito este equívoco: afirmar que arte é o assunto - o enredo do romance, aquilo que a poesia está falando. E não: não é isso que é a beleza; não é o que está sendo dito, mas como está sendo dito; não a coisa, mas a forma, como ela se mostra, através da mão do criador. (...)

Por é que a arte nos humaniza? Porque mostra não a aparência (que já está na natureza), mas nos induz - pela emoção que nos causa - à intimidade, à alma das coisas e à nossa própria intimidade (...). Ela faz com que eu me reconheça: como quando você diante de um livro diz: "Meu Deus, como pôde esse autor tocar nisso? Só eu sentia isso..." e aí mora a universalidade da obra de arte: espelhar a humanidade, o que nos é comum. E nada mais comum em nós do que nossos desejos e afectos: queremos ser felizes, temos medos, temos compaixão, ódio, ira... é esse material que faz a obra de arte: ela não é um pensamento filosófico, ela expressa o que sentimos, o que é humano. Por isso ela me alimenta, porque dá significação e sentido à minha vida.(...) Nós somos finitos, nós passamos; mas a obra de arte não sofre esse desgaste, ela está fora do tempo. Uma emoção muito profunda que você teve, qualquer coisa que te comoveu; comoveu e passou. Mas, quando aquilo é apreendido por uma obra de arte, a obra segura o tempo: "Graças a Deus que agora posso me lembrar". (...)

Há uma fome em nós que nenhuma conquista material pode saciar; continuamos sempre famintos, famintos de transcendência; de algo que me diga: "Você é mais do que o seu corpo, mais do que as suas necessidades básicas... você é o que está presente no seu desejo, no seu sentimento, na sua alma". Há pessoas que não dão conta de articular esse desejo e dizem apenas: que bom que há esse filme, essa música, esse livro. É que, no fundo, esse livro nos dá algo mais que estamos buscando, algo mais que nos está acenando... Acenando, de onde? Não é a religião que inventou; não é a filosofia que inventou; acena-nos de dentro de nosso próprio ser: é o desejo profundo; de nossa orfandade originai, de ter sentido na vida e de perenidade: não pode acabar. (...). A arte nasce daí e produz a partir daí. (...) Imagine nós sem isso: a pobreza de viver só lutando pela comida, pelo emprego, pela casa; nós somos mais do que isso (...) Quando procuramos a arte, sem querer e sem saber, estamos procurando as coisas espirituais, de natureza divina, porque não têm peso, nem tempo, nem medida, mas que, sem isso, estaríamos regredindo à pura barbárie. (...)

Aquele poema maravilhoso de Drummond, "Tarde de Maio”.... Só o homem se pode incomodar e comover-se com o sol que se esconde no horizonte, numa tarde de Maio; com uma árvore florida, com as coisas mais mínimas, mais rasteiras, mais quotidianas e que escondem em si mesmas: a beleza. (...) E é a força da arte que faz com que abramos nossos olhos para a maravilha da Criação, a maravilha da experiência humana que nos aguarda. (...)

E por causa dessa qualidade eterna, dessa imponderabilidade, eu vejo que, para a humanização, a arte está no mesmo caminho da mística ou da fé religiosa: ambas as experiências são independentes da razão: são experiências; a beleza é uma experiência e não discurso. Como quando um dia, num caminho habitual, você se espanta com algo - uma casa, uma obra, uma coisa - que já tinha visto muitas vezes - "Que beleza! Eu nunca tinha visto isso desse jeito!" -, aí você pode dar graças: você está tendo uma experiência poética, que é ao mesmo tempo, religiosa: no sentido que liga você a um centro de significação e de sentido. (...)

O verdadeiro poeta está centrado na realidade, a arte não aliena ninguém, ela não tira da realidade; pelo contrário: ela traz para o real. (...)

Essa insistência no quotidiano é porque a gente só o tem a ele: é muito difícil a pessoa dar-se conta de que todos nós só temos o quotidiano, que é absolutamente ordinário (ele não é extra-ordlnárlo); o quotidiano da rainha da Inglaterra deve ser tão insuportável quanto o de uma lavadeira (...) E eu tenho a absoluta convicção de que é atrás, através do quotidiano que se revelam a metafísica e a beleza; já está na Criação, na nossa vida (...) O nosso heróico, o nosso heroísmo é deste quotidiano... a nossa vida é linda: o quotidiano é o grande tesouro, como diz um filósofo: admirar-se do que é natural é que é o bom; admirar-se desta água aqui, quem é que se admira da água, a que estamos tão habituados? Mas a alma criadora sensível, um belo dia admira-se desse ser extraordinário, essa água que está tremeluzindo aqui na minha frente e, na verdade, eu não entendo a água, eu não entendo o abacaxi, eu não entendo o feijão. Alguém aqui entende o feijão? Admirar-se de um bezerro de duas cabeças, qualquer débil mental se admira, mas admirar-se do que é natural, só quem está cheio do Espírito Santo. Eu quero essa vidinha, essa é que é a boa, com tudo o que é chatinho nela e as suas coisas difíceis... O quotidiano tem para mim esse aspecto de tesouro: "Há mulheres que dizem: / Meu marido, se quiser pescar, pesque, / mas que limpe os peixes (...)".

Se a obra é de arte, ela é necessariamente transcendente. Aquele poema do Drummond, que todo mundo sabe, da pedra no meio do caminho, a transcendência está no susto: a pedra. A pedra, a pedra, a pedra... A transcendência é exactamente o sentimento de estranhamento que a coisa concreta te dá: pedra é pedra, e você perde a poesia quando você olha pedra e vê só pedra mesmo. Se a pedra te diz alguma coisa, ela é um veículo para que você transcenda para uma instância maior. Olha que coisa mais corriqueira: “Minha mãe cozinhava exactamente  / Arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas...” Até aí alguém pode dizer: “E daí? Todo o mundo faz isso...” “... / Mas cantava". Aí, acredito, é o salto: arroz, feijão roxinho e molho de batatinhas são mais do que apenas isso quando tem uma mulher cozinhando...

 

Adélia Prado
Excertos da conferência «O poder humanizador da poesia»
In Revista Dominicana de Teologia - Centro de Estudos Superiores da Ordem dos Pregadores do Brasil, Janeiro/Junho 2009
23.06.09

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Adélia Prado



















































































 

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