História
Quando Roma foi para França
Cumpriram-se a 9 de março 700 anos sobre a mudança do papado de Roma para Avignon. A data foi recordada localmente e Bento XVI enviou uma delegação, chefiada pelo Cardeal Poupard, para o representar.
A «Página 1» conversou com o Bispo do Porto e historiador D. Manuel Clemente, que ajuda a contextualizar esse importante período da história da Igreja.
A ida do Papado para Avignon não se compreende sem se perceber que naquela época do século XIV a Europa vivia uma mudança de paradigma, com o poder temporal do Papa em declínio e as monarquias a consolidarem-se e a disputarem esse mesmo poder.
Neste contexto, Bonifácio VIII e Filipe IV “O Belo” de França, protagonizam uma pequena guerra diplomática, com excomunhões e ameaças à mistura. Filipe IV acaba por sair vencedor da contenda e posteriormente os seus partidários conseguem fazer eleger o francês Clemente V.
É este Papa que decide mudar a Cúria e a própria residência do Papa de Roma para Avignon, para terrenos que já pertenciam à Igreja mas que se encontravam na órbita francesa. Aqui permanecerão durante quase 70 anos, até que Gregório XI regressa a Roma em 1377.

© Angelo Hornak/CORBIS
Como é que se caracteriza o papado de Avignon?
Define-se com um fortalecimento muito grande da administração pontifícia, em termos internos, e mais preponderância do papado e dos organismos papais em toda a vida da cristandade ocidental, até nas nomeações de bispos para as dioceses.
Mas também representa já um período de redução da importância do papado na cristandade em geral, concretamente na ocidental. Porque a partir de agora o que será mais preponderante, mesmo sobre as igrejas de cada país, é o poder real.
Havia, nesta altura, algum precedente dos Papas saírem de Roma?
Papas que viveram grande parte do seu pontificado fora de Roma sim, por exemplo o Papa português João XXI tinha vivido na cidade de Viterbo, perto de Roma. Era normal papas passarem temporadas fora de Roma, ou noutra cidade. Mas isso não significava que a sede do papado tinha deixado de estar em Roma. O que acontece durante o tempo de Avignon é que os papas residem habitualmente fora de Roma e nunca vão a Roma, nenhum desses papas, de Clemente V a Gregório XI foi a Roma. A sede da Igreja, praticamente, era em Avignon, embora continuassem a ser Bispos de Roma, claro.

© Atlantide Phototravel/Corbis
Mas antes do cisma, não há dúvidas sobre a legitimidade dos Papas de Avignon?
Não! Não há cisma até 1377/78.
E porque é que se dá o cisma?
Em 1377 o último Papa de Avignon, Gregório XI volta a Roma e parecia essa problemática resolvida. Elege-se um Papa novo, Urbano VI, mas ele é eleito por pressão do povo romano, e os cardeais que o elegeram, uns meses depois vão alegar que ele não é um papa legítimo, e vão eleger outro, que se volta a instalar em Avignon, por isso a partir de 1377 vai haver um papa em Roma, Urbano VI e depois os outros que se seguem, e vai haver papas em Avignon, e aí sim é que temos o tal cisma de Avignon que se vai manter até à eleição de um único Papa, pelo concilio de Constança, em 1417, o Papa Martim V, que se instala em Roma.
Qual foi o papel de Portugal durante a crise?
Durante o cisma, em Portugal está D. Fernando, depois é o interregno, e depois de 1385, D. João I. E é interessante a oscilação no tempo de D. Fernando. Porque D. Fernando tem guerras com Castela, e quando faz acordos com Castela segue o partido de Castela, que era o Papa de Avignon. Mas quando se liga aos ingleses liga-se ao Papa de Roma, de quem eram adeptos os ingleses. Demonstra bem a preponderância das coroas e como era determinante.

© Gail Mooney/CORBIS
Depois de Avignon houve mais ocasiões em que se contemplou a hipótese do Papa abandonar Roma, por questões de segurança. A última foi mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, com o Vaticano cercado primeiro pelo Mussolini e depois pelas forças Nazis, e uma ameaça constante de invasão, Pio XII teve convites para se mudar: “Havia várias propostas nesse sentido, até de Portugal e dos EUA, mas Pio XII não quis sair de Roma, até para preservar a cidade de maiores estragos”, afirma D. Manuel Clemente.
Filipe d'Avillez
In Página 1, 09.03.2009
22.03.09

Palácio dos Papas, Avignon
© Murat Taner/zefa/Corbis
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