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Meditar no presépio com os cinco sentidos (4): O odor do estábulo

O Natal mergulha-nos no mistério da incarnação. Uma ocasião para meditar com base nos cinco sentidos. «Marcados pelo pensamento grego e a sua tendência para depreciar a carne, espiritualizamos depressa demais os acontecimentos, e temos medo da dimensão carnal dos textos bíblicos. No entanto, é assumindo a humanidade que se acede à divindade de Deus por Cristo, Deus feito homem», explica o padre jesuíta Noël Couchouron.

Santo Inácio propõe que a pessoa se coloque a um canto da cena do nascimento de Jesus «como um pobre», dispondo os sentidos para se deixarem impressionar por aquilo que acontece, como uma película fotográfica», acrescenta o religioso. A cena, com a sua decoração e personagens, pode de tal maneira imprimir-se na pessoa, ao entrar pela «porta dos sentidos», que a maneira de ser e de agir no quotidiano deixar-se-á, aos poucos, transformar.

Deixe-se guiar por esta meditação sobre o presépio com um cozinheiro, uma iluminadora, um pastor, um músico e uma cuidadora, que centram a atenção no gosto, na visão, na audição, no odor e no toque.

 

O cheiro de Maria

O diácono Guy Miel continua a ocupar-se dos rebanhos da sua paróquia de trinta e dois campanários e composta por aldeias isoladas, porque o bom pastor nunca se reforma. O odor de estrume, com os vestígios de amoníaco deixado pela urina dos animais na palha, a lã molhada que escorre após a chuva, a respiração dos animais que satura a atmosfera, tudo isto conhece de coração: «Não se consegue fugir; permanece na roupa, impregna tudo».

O odor da sua Mãe foi, sem dúvida, a primeira lembrança olfativa do Menino Jesus. Ao incarnar-se entre os seres humanos, Deus não optou pela água de rosas, mas pelo mau cheiro do estábulo. Foi até ao fundo, sem tapar o nariz diante às realidades mais triviais.

Para o nosso também oblato beneditino, isto diz algo de muito simples: «É ao partilhar a vida das pessoas, onde quer que estejam, sem ter medo de sujar as mãos, de respirar o mesmo ar, que se pode partilhar o amor de Cristo. Não se faz caridade de longe. Isso não leva a lado nenhum».

«A minha vida de diácono-eremita ou eremita-diácono - tanto faz, nunca gostei de rótulos! - só tem sentido se for uma presença para Deus, para a Criação e para todos os seres, sejam eles quem forem. Aqui, neste “vale orgânico” descristianizado, as pessoas estão quase todas rendidas às espiritualidades da Nova Era. Vivo com elas, no meio delas, ouço as suas alegrias e as suas dores, e assim procuro dar-lhes o rosto de uma Igreja próxima e atenta, como me disse o bispo no dia da minha ordenação diaconal em 2001. Então, ainda era pastor. Desde a minha reforma, em 2011, mudei de rebanho!»

Quando o papa Francisco declarou «tende o odor dos vossos rebanhos», tocou-lhe de tal maneira que escreveu um livro, sóbrio e pungente, um livro de pastor, extraído da solidão e da promiscuidade do rebanho. Bem colocado para compreender que as ovelhas seguem o bom pastor, que este as chama pelo seu nome, e que elas conhecem a sua voz.


 

Clotilde Hamon
In Famille Chrétienne
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 22.12.2020

 

 
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