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Meditar no presépio com os cinco sentidos (3): A música dos anjos

O Natal mergulha-nos no mistério da incarnação. Uma ocasião para meditar com base nos cinco sentidos. «Marcados pelo pensamento grego e a sua tendência para depreciar a carne, espiritualizamos depressa demais os acontecimentos, e temos medo da dimensão carnal dos textos bíblicos. No entanto, é assumindo a humanidade que se acede à divindade de Deus por Cristo, Deus feito homem», explica o padre jesuíta Noël Couchouron.

Santo Inácio propõe que a pessoa se coloque a um canto da cena do nascimento de Jesus «como um pobre», dispondo os sentidos para se deixarem impressionar por aquilo que acontece, como uma película fotográfica», acrescenta o religioso. A cena, com a sua decoração e personagens, pode de tal maneira imprimir-se na pessoa, ao entrar pela «porta dos sentidos», que a maneira de ser e de agir no quotidiano deixar-se-á, aos poucos, transformar.

Deixe-se guiar por esta meditação sobre o presépio com um cozinheiro, uma iluminadora, um pastor, um músico e uma cuidadora, que centram a atenção no gosto, na visão, na audição, no odor e no toque.

 

Uma sonoridade que exprime o indizível

Através do ouvido, o músico Dominique Levacque, organista invisual, convida a escutar todas as sonoridades doces e alegres que se escapam do presépio. Com ele, ouve-se ressoar a voz dos anjos.

A crer no Evangelho de Lucas, uma «multidão celeste inumerável» louvava Deus diante dos pastores. É seguro que esta multidão não entoava um louvor pop, mas pode pensar-se que devia ter um volume sonoro significativo. Numa melodia popular, a Virgem Maria pede aos anjinhos para baixarem o sopro nos seus instrumentos: «Toquem em surdina!». Na creche, o silêncio enche-se diante do Menino-Deus, e todos se voltam para Ele para o ver e escutar o seu murmurar.

Dominique Levacque acredita que se podem escutar cânticos doces e serenos junto do presépio. Cego de nascença, toca órgão a alto nível e de maneira profissional. Para ele, que descobriu e passou a amar a música com Bach, a audição é um sentido particularmente importante, permitindo-lhe compreender o que se passa. «Não vejo os gestos da pessoa que dirige. Tenho de escutar o que acontece em baixo, para que tudo decorra harmoniosamente.»

«Há a doçura inerente à noite de Natal, mas nem sempre. Há igualmente um lado brilhante, elevado. É o repertório da simplicidade, não demasiado dissonante, ainda que alguns compositores tenham inventado coisas mais corridas.»

Algumas peças parecem conter a integralidade do mistério da incarnação: «A “Oratória de Natal” de Bach anuncia o Gólgota; certas tensões prefiguram a tensão de Cristo».

Como para todos os invisíveis servidores de festas, o Natal é também para Dominique Levacque um momento de distanciamento dos seus próximos. «Passo as vésperas de Natal muitas vezes algo longe da minha família».

«Em 2012 tive um acidente: o comboio parou, as portas abriram-se do lado errado, e eu caí à via. Fiquei imobilizado cinco meses, com o pé partido. Não sabia se poderia voltar a tocar. Em 2013, consegui retomar o meu serviço. No Natal seguinte, tive um aperto no coração, como um renascimento. Creio que chorei, pela alegria reencontrada de tocar. Passei o Natal de 2012 num quarto de hospital, mas a família veio… Foi uma graça poder tocar de novo.»

Para o organista, a música é uma parte essencial da liturgia: «Veicula uma emoção que convida a elevar-se de uma maneira ou de outra. Não diz nada, mas prolonga algo. É-se interpelado por aquilo que não nos fala, mas que nos fala ao interior.»


 

Théophane Leroux
In Famille Chrétienne
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 22.12.2020

 

 
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