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Sophia de Mello Breyner «reconfigurou o catolicismo português»

«Sophia reconfigurou o catolicismo português. Não lhe deu, apenas, uma nova linguagem, mas uma inteligência esquecida da fidelidade à terra, à construção do mundo. (…) A grande tarefa de Sophia foi a de não desqualificar a realidade em nome de Deus. Não eclipsar o mundo para encontrar o divino: quis ver o mundo em si e não em ti.»

As palavras são do frade dominicano Bento Domingues, que evoca a poetisa Sophia de Mello Breyner no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento, em artigo publicado na edição mais recente do Jornal de Letras.

«A poesia de Sophia não é panteísta nem ateia» e o seu Deus «é o do Rei Baltazar: “Senhor, eu vi. Vi a carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não de vir?”» (“Os três reis do Oriente”), continua o religioso.

O texto termina com nova evocação poética: «A casa de Deus, “Os homens a constroem na terra/ Situada no tempo/ Para habitação da eternidade// (…) Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre/ Celebramos a Páscoa// Aqui celebramos a claridade/ Porque Deus nos criou para a alegria”».

O Fr. Bento Domingues recorda que, «sem saber porquê, [Sophia] mandava telefonar, quase todas as semanas», para dizer que queria falar com ele «com urgência». «Conversávamos de tudo e de mais alguma coisa. Ri muito com as histórias fantásticas que se deliciava a contar. A substância das nossas conversas estava muito ligada aos livros que escrevia e me oferecia sem nunca se esquecer da dedicatória».

Na mesma edição, Guilherme d’Oliveira Martins lembra que «na vigília do Dia Mundial da Paz de 1969, na igreja de S. Domingos [em Lisboa], disse com firmeza: “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”», e antes tinha levantado a voz em defesa de D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto.

«O centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen é especial, muito para além da mera comemoração. O exemplo de cidadania, de talento, de ligação natural entre a ética e a estética é fundamental. De facto, estamos perante uma personalidade extraordinária que é lembrada como referência única, como um exemplo que fica, que persiste. Era a “pura liberdade” que lhe importava», começa por assinalar o administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.

A liberdade por que lutou e rejubilou a 25 de abril de 1974 - «Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio/ E livre habitamos a substância no tempo», a liberdade que, já na democracia, evocou na assembleia de deputados que haveria de construir a nova Constituição da República Portuguesa, ao falar da cultura, com palavras «que se mantêm sem ruga nem mácula».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Jornal de Letras
Imagem: D.R.
Publicado em 10.05.2019

 

 
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