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O cristianismo é uma religião de pescadores, barca e mar

Na vida de Jesus, que para os cristãos culmina toda a história bíblica, o mar – ainda que seja o pequeno “mar da Galileia” – tem lugar relevante, quer na geografia da sua pregação quer na escolha dos primeiros discípulos, ganhando significados essenciais para o próprio cristianismo:

«Caminhando ao longo do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens”» (Mateus 5, 18-19). É interessante vincar que pescadores e pesca passam a caracterizar os discípulos de Jesus e a missão que lhe comete: assim como se juntam peixes na rede, assim se reunirão os homens no “Reino”.

Pouco a pouco, os discípulos foram-se admirando com o que Jesus dizia e fazia, tanto mais que desafiava tudo quanto pensavam e esperavam de Deus. Assim, muito especialmente, no respeitante às águas e ao mar:

«Jesus subiu para o barco e os discípulos seguiram-no. Levantou-se, então, no mar, uma tempestade tão violenta, que as ondas cobriam o barco; entretanto, Jesus dormia. Aproximando-se dele, os discípulos despertaram-no, dizendo-lhe: “Senhor, salva-nos, que perecemos!” Disse-lhes Ele: “Porque temeis, homens de pouca fé?” Então, levantando-se, falou imperiosamente aos ventos e ao mar, e sobreveio uma grande calma. Os homens, admirados, diziam: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”» (Mateus 8, 23-27).

Depois, princípio e fim, o fim recuperando e ultrapassando o princípio, acabam por se conjugar. No último livro bíblico, o vidente vê um novo mar, límpido e celeste:

«Fui arrebatado em espírito: vi um trono no céu e sobre o trono havia alguém sentado. O que estava sentado era, no aspeto, semelhante à pedra de jaspe e de sardónica e uma auréola, de aspeto semelhante à esmeralda, rodeava o trono. (…) Diante do trono havia também uma espécie de mar de vidro, transparente como cristal.» (Apocalipse 4, 2-3.6).

Em Portugal, país inevitavelmente marinheiro, onde até de avião se «embarca», toda esta imagética se interiorizou como interpretação da história vivida e a viver.

No conjunto da sua poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) nunca abandona esta chave, feita de Bíblia, história e biografia. Assim, em “Fundo do mar”, quanto à mitologia marinha:

«No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores. (…)
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso» (Obra Poética (OP), Alfragide, Caminho, 2010, p. 48).

Assim, em “Caminho da Índia”, quanto a quem lá foi, recriando-se na viagem, aliás exata:

«Ante o seu rosto para a história
E detém-se o exército dos ventos
Tinha o futuro por memória.
Coração atento em frente à linha lisa
Do horizonte
Vontade inteira e precisa
Exato pressentimento» (OP, p. 298).

Assim, n’“Os navegadores”, providencialmente todos:

«Eles habitam entre um mastro e o vento.
Têm as mãos brancas de sal
E os ombros vermelhos de sol.
Os espantados peixes se aproximam
Com olhos de gelatina.
O mar manda florir seus roseirais de espuma.
No oceano infinito
Estão detidos num barco
E o barco tem um destino
que os astros altos indicam» (OP, p. 354).

E tudo ganha nome, como Deus lho dera primeiro. Assim no Mundo nomeado ou descoberta das ilhas:

«Iam de cabo em cabo nomeando
Baías promontórios enseadas:
Encostas e praias surgiam
Como sendo chamadas
E as coisas mergulhadas no sem-nome
Da sua própria ausência regressadas
Uma por uma ao seu nome respondiam
Como sendo criadas» (OP, p. 450).

Porque inauguravam também a geografia. Como em “Navegações VI”:

«Navegavam sem o mapa que faziam (…)
Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável
Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tateava espaços
Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente» (OP, p. 676).

Mesmo que reapareça a cauda de Leviatã, em tanta desventura sofrida ou temida. Como em “Navegações XI”:

«Olhos abertos do navegador
Mudam aqui a luz a sombra a cor
E também faces e gestos se modulam
Segundo elaboradas estranhezas
Outro o recorte da vaga e do penedo
Caudas de dragões seguem os barcos» (OP, p. 691).

Mas, com tudo e além de tudo, Deus não deixa e estar e garantir, como n’ “Os navegadores”:

«O múltiplo nos enebria
O espanto nos guia
Com audácia desejo e calculado engenho
Forçámos os limites –
Porém o Deus uno
De desvios nos protege
Por isso ao longo das escalas
Cobrimos de oiro o interior sombrio das igrejas» (OP, p. 729).

E, assim sendo, aí ficaram as mil igrejas de mil sítios, com a talha dourada do agradecimento português.

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D. Manuel Clemente
Patriarca de Lisboa
Conferência na Academia de Marinha (tópicos)
18.3.2014
In Patriarcado de Lisboa
28.03.14

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