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Santo: Soberano da escuta e da palavra

Quem é o santo?

Recorro à língua japonesa. O termo que se traduz por «santo» é seijin e escreve-se com dois ideogramas de origem chinesa, os kanji. Um dos ideogramas significa «pessoa». O outro, é, por sua vez, composto por três ideogramas básicos que significam «ouvido», «boca» e «rei». Consequentemente, o santo é o homem (ou a mulher) que domina o seu ouvido e a sua boca: que é soberano/a sobre aquilo que diz e que usa o seu ouvido para escutar aquilo que outros não escutam, porque a convulsão do ruído ensurdecedor da agitação quotidiana os toma de assalto.



Imagem D.R.


Tudo começa com a escuta. Recordo um ano em que estive na minha aldeia natal para celebrar a missa da festa anual, que ocorre no Dia de Todos os Santos. Vagueei por lugares onde passara a infância. Sentei-me no pinhal, olhos postos no rio, aclarando a memória. Naquele tempo da minha meninice, as águas eram transparentes e nós, crianças despreocupadas, colocávamos o cesto de vime no canto das águas e do lodo mais estratégico à pesca de enguias e robacos. Quando o rio transbordava e inundava as terras em redor, mergulhávamos nas turvas águas ameaçadoras, em desafio que se transformava em vitorioso júbilo.

Fechei os olhos e coloquei-me em atitude de escuta da música da natureza naquela manhã de sol tímido: um pintassilgo, um melro, o vento nos pinheiros, uma voz humana longínqua, o sino da igreja da aldeia: o mesmo sino que já não toca as Ave-Marias… Mergulhado em tal sinfonia, o coração encheu-se-me de doce mansidão. Era um momento de eternidade. Sentia-me como se bebesse, com as mãos em concha, água fresca da generosa fonte de alento. De repente, um clarão esplendoroso de contentamento, um relâmpago imaginário, como o acender de um fósforo, tudo concentrado num ponto de tempo sem tempo. Comunhão com uma grandeza que me transcendia, presença do indizível. Tal exercício de escuta criava, na minha mente, o ícone de um Deus a debruçar-se carinhosamente sobre o ser humano e sobre cada criatura, exalando bênção e santidade, a sua essência.

Como bem sabem os japoneses, o sussurro da natureza tem uma inexplicável magia. O santo é aquele que domina o seu ouvido, o seu ato de escuta. Escuta do respiro da natureza e do clamor do outro. Sim, a santidade começa com a escuta, pois só quem escuta com ouvidos puros poderá narrar com boca pura. O mistério pode definhar sob o peso de uma excessividade de palavras. 

Quem é o santo? Imaginamo-lo como alguém residindo num mundo inacessível ao comum dos mortais, imbuído de uma aura de heroicidade e renúncia, realizando obras extraordinárias que nos inspiram reverência distante. Mas não será o santo o homem ou a mulher que integra em si o genuinamente humano, que vive com os pés bem mergulhados na lama do quotidiano, mas sempre com o olhar a apontar para o infinito, para aquilo que está para além do horizonte visível e palpável? Sim, um homem ou uma mulher com esperanças e dúvidas, com os seus medos, as suas luzes e as suas sombras; um homem ou uma mulher que é monarca da escuta e da palavra. Neste dia de Todos os Santos, arde-me o desejo de clamar: «Senhor, afina o meu ouvido para que possa escutar o silêncio do não dito».


 

Texto e imagens: Adelino Ascenso
Publicado em 01.11.2020

 

 
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