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Leitura: “Padres do Deserto – Palavras do silêncio”

Os Padres do deserto são «escavadores de poços que continuam a fazer de nossos desertos lugares a revisitar em sua boa companhia»: esta é uma das imagens de apresentação do novo livro organizado pelo Fr. Isidro Lamelas, investigador e professor de autores e literatura dos primeiros séculos do cristianismo.

No livro “Padres do Deserto – Palavras do silêncio”, publicado pela Universidade Católica Editora, o leitor «experimentará, muito provavelmente, o desejo de percorrer o mesmo êxodo espiritual que orienta ao encontro do essencial “sem palavras”».

«Num mundo que ameaça caminhar para a desertificação, a resposta poderá vir, mais uma vez, de onde menos se espera: do silêncio que fala por si (e por nós), dos que sabem estar sós. Vale, por isso, a pena escutar de novo as palavras do silêncio, para aprendermos a ouvir mais e a falar melhor», assinala o religioso franciscano.

No início do século IV, no Império Romano, o cristianismo passou de religião ilícita e perseguida para a condição de tolerada e, depois, de protegida e beneficiada. Para resistir à onda secularizante que invadira a Igreja imperial, os Padres do Deserto começaram por se retirar em locais desabitados e inóspitos, primeiro no Egito, depois, noutras partes, como a Palestina e a Síria.

«Mais do que teóricos da espiritualidade, estes “pais espirituais” constituem um património de humanidade e uma reserva inesgotável da melhor espiritualidade, precisamente porque se deixaram incendiar pelo fogo regenerador do amor misericordioso de Deus», salienta o Fr. Isidro Lamelas.



É bem provável que os antigos continuem a ter razão, quando diziam que “a sabedoria é amiga da solidão”. É por isso que aqueles que a buscam terão de se familiarizar com o deserto



As “palavras de ouro” selecionadas neste volume, lançado no tempo da Quaresma, evocando do deserto as tentações de Jesus e o caminho que nele os cristãos são chamados a percorrer espiritualmente, constituem «centelhas de fogo que se soltam desses homens (e mulheres) “ébrios de Deus” e abrasados pelo amor ao próximo».

«São palavras forjadas no silêncio de uma vida despojada e provada no crisol da humildade radical. São palavras-testemunho ilustradas com a vida, que continuam a desafiar-nos a sair dos nossos habituais “lugares de conforto”», acentua o autor.

“‘Diz-me uma palavra!’ O silêncio que fala”, “Separado de todos e unido a todos”, “Desejar e buscar Deus”, “Recomeçar todos os dias”, “O dom das lágrimas”, “Pela boca morre o desatento”, “O combate dos pensamentos”, “O tesouro escondido”, “Exercícios espirituais”, “Não julgues o teu irmão”, “A arte do discernimento”, “Como luzeiros”, “Oração e trabalho”, “A hospitalidade – porque todos somos estrangeiros”, “Humildade e confiança”, “Sob o manto da misericórdia”, “A fé que opera pela caridade” e “Santidade e caridade para todos” são os sugestivos nomes dos capítulos do volume.

O livro vai estar no centro de um debate com a presença do autor e de João César das Neves, a 9 de abril, às 18h30, na livraria da Universidade Católica, em Lisboa.

 

Introdução 
Fr. Isidro Lamelas
In “Padres do Deserto – Palavras do silêncio”

Que têm a dizer estes “Pais do deserto” do século IV e V a nós, filhos da cidade, no século XXI? Que tem a sua estranha forma de vida que ver com o nosso tempo e modos de viver e conviver? Que mensagens poderemos esperar desses fugitivos do mundo que fizeram do silêncio e da quietude a sua regra de vida?

Caberá a cada leitor ou ouvinte destas “palavras do deserto” responder. Mas o Principezinho adianta-nos uma chave de resposta, quando diz que “o que torna o deserto belo é o ele esconder um poço algures”. Os homens e mulheres a quem vamos dar voz, nestas páginas, são insaciáveis sedentos buscadores dessa fonte mais profunda, escondida algures neste deserto em que, afinal, todos somos buscadores de poços escondidos.

É bem provável que os antigos continuem a ter razão, quando diziam que “a sabedoria é amiga da solidão”. É por isso que aqueles que a buscam terão de se familiarizar com o deserto. Sabemos, por outro lado, que o deserto é também o cenário de todas as ambiguidades: na Bíblia, é o lugar de encontro com Deus (Os 2,16; Is 40,3-5) e da experiência do êxodo, mas é também, nas Escrituras Sagradas e no mundo circunstante em que estas nascerem, a terra hostil, morada do diabo e de todos os espíritos maus (Jr 2,6; 50,12; Is 30,6), lugar “grande e terrível” (Dt 8,15) cheio de tentações (Jr 17,6; Lc 4,1-13; Mc 1,12-13).



Os Padres do Deserto ensinam-nos a introduzir o silêncio dentro da palavra e a traduzir em poucas palavras esse enigma que nos habita e escapa. De muitos deles nem o nome ficou; são simplesmente nomeados como “Anciãos” ou “Pais”, porque nada quiseram ser nem ter, a não ser “filhos” e “irmãos” que partilham da mesma sede de Deus



De modo surpreendente, é precisamente devido a esta ambivalência que o deserto sempre atraiu e continua a chamar pelos mais exigentes: ou para “se encontrarem” com a verdade do homem e de Deus, ou para desafiarem todos os limites, através de exercícios radicais (ascese).

Fala-se, há muito, da nostalgia do silêncio como característica da cultura contemporânea. Talvez por isso, os Padres do Deserto são hoje tão procurados. Neles buscamos, afinal, a inspiração do deserto e a paternidade espiritual que também vai escasseando.

É verdade que muitos dos “seguidores” destes buscadores de Deus, não chegam a captar o alcance das verdades tão simples por eles deixadas. Querendo torná-los atuais, cai-se frequentemente na tentação de “modernizar” e amenizar a virulência das suas palavras, transformando-os em “pensamentos bonitos”.

Sucede que o deserto não dá à luz, nem “pensadores” nem “pensamentos”, e muito menos “frases bonitas”. Estes solitários de Deus ocupam-se, aliás, especialmente dos “piores pensamentos” (loguismoi) que assediam o coração humano. Por isso, é bem mais provável que nele encontremos profetas incómodos, arautos escandalosos, mestres fora de moda, e terapeutas da alma que não hesitam em pôr o dedo em nossas feridas profundas, nem receiam enfrentar os “demónios” mais ocultos que nos tentam. Retiraram-se, “fugindo dos homens” para se encontrarem com o homem em toda a sua verdade, porque como afirma Georges Gusdorf, “o recolhimento não é uma ausência, mas antes a procura de uma verdadeira presença”.



De nada valem o silêncio, o jejum ou as múltiplas formas de ascese e anacorese, sem a caridade verdadeira para com todos, especialmente para com os mais fracos



Os Padres do Deserto ensinam-nos a introduzir o silêncio dentro da palavra e a traduzir em poucas palavras esse enigma que nos habita e escapa. De muitos deles nem o nome ficou; são simplesmente nomeados como “Anciãos” ou “Pais”, porque nada quiseram ser nem ter, a não ser “filhos” e “irmãos” que partilham da mesma sede de Deus.

O Evangelho é sempre uma voz que clama no deserto, um apelo indomável à perfeição que só existe em Deus. Neste caminho, que é um continuado êxodo, o agir precede e acompanha a palavra, numa busca diligente da simplicidade e pureza do coração; um coração justo e pacificado; isto é, liberto, não das tentações, mas das más opções do homem dividido ou da alma inchada pela soberba. Todo o edifício da virtude assenta, por isso, no alicerce da humildade que leva a acusar-se a si próprio, em vez de julgar os outros; a carregar os fardos do próximo, em vez de lhe agravar a carga, a encobrir as quedas dos fracos, antes que apontar o dedo e atirar pedras; o perdão das ofensas, em vez do ressentimento e a justiça pelas próprias mãos.

Como os próprios nos ensinam, não é o deserto que faz o monge. Conforme dizia o pai Longuino: “quem não é capaz de viver corretamente com os homens, não será capaz de viver corretamente na solidão” (Longuino, 1). De nada valem o silêncio, o jejum ou as múltiplas formas de ascese e anacorese, sem a caridade verdadeira para com todos, especialmente para com os mais fracos. Por isso, Orígenes de Alexandria (cerca de 185-254), considerado um dos pioneiros da espiritualidade e experiência monástica advertia que “devemos abandonar o mundo não tanto localmente, mas mentalmente”.



Por detrás de uma vida que nos parece extraordinária, esconde-se, afinal o que eles realmente quiseram ocultar: o desejo de santidade, vivida no quotidiano das lutas que são as de todos os homens



Desta forma, estes homens e mulheres “embriagados de Deus”, longe de pretenderem inventar um cristianismo novo, quiseram ensaiar em suas vidas a radicalidade cristã. Isto porque estão bem cientes de que o pior inimigo do cristianismo e da Igreja não são os pecados dos seus membros, mas a mediocridade de uma vida negociada entre “dois senhores”. Por outro lado, sabem e ensinam-nos que o vírus da mediocridade não se combate nos outros ou nas “instituições”, mas em cada um, através da metanoia.

Se algo de novo encontramos nestes insaciáveis buscadores de Deus é a vigilante autenticidade e paixão com que abraçam o Evangelho de Jesus Cristo. De facto, o cristianismo é, para os Pais e Mães do deserto, um fogo novo aceso por Cristo que, como ensina Sinclética, “devemos acender em nós mesmos, com lágrimas e esforço”.

O monge cristão encontra, de facto, nas palavras e atos da vida de Jesus a sua regra de vida, como mostram estas palavras de Eusébio de Emessa:

“Vimos um homem que não contraíra matrimónio,
e aprendemos a viver sem mulher;
vimos um homem que não tinha onde reclinar a cabeça,
e aprendemos a desprezar todas as coisas;
vimos um homem que estava sempre a caminho, não para comprar ou negociar algo,
mas para nos ensinar a renunciar aos bens que nos pertenciam;
vimos um homem que renunciava ao alimento,
para nos ensinar a jejuar, não com palavras, mas com o exemplo”.

Por detrás de uma vida que nos parece extraordinária, esconde-se, afinal o que eles realmente quiseram ocultar: o desejo de santidade, vivida no quotidiano das lutas que são as de todos os homens. Não faltam, por isso, advertências contra o perigo de uma piedade orgulhosa ou sustentada por milagres e visões angélicas. Quando disseram a um dos anciãos que alguns asseguravam ter “visões de anjos”, ele respondeu: “Feliz aquele que vê continuamente as próprias faltas”. E quando perguntaram a outro, “o que fazer para salvar-se?”, a resposta dada pelo ancião que se ocupava no humilde trabalho de tecer folhas de palmeira foi: “faz o que estás a ver”.



Escrever sobre os Padres do Deserto só faz, pois, sentido, se for para escutar de novo as palavras do silêncio, para aprendermos com eles a ouvir mais e a falar melhor



No retiro silencioso e no seu desconcertante modo de vida, estes peregrinos de Deus escavaram poços de sabedoria que, inevitavelmente, nos conduzem ao Evangelho sine glossa, mas também nos aproximam das fontes da sabedoria perene, mostrando-nos que as sementes do Verbo estão realmente presentes em todas as tradições e experiências religiosas honestas.

Vale, pois, a pena revisitar estes lutadores contemplativos, mais preocupados com os meios práticos de encontrar o caminho da salvação do que com discussões metafísicas ou teológicas acerca do nosso destino. Nestes homens e mulheres que insistem em ver o demónio e tentações por toda a parte, podemos recuperar, afinal, a nossa inocência original, ou melhor, a inocência que nos espera no futuro.

Escrever sobre os Padres do Deserto só faz, pois, sentido, se for para escutar de novo as palavras do silêncio, para aprendermos com eles a ouvir mais e a falar melhor. Por isso, as “palavras de ouro” que selecionámos para esta antologia não são senão centelhas de fogo que se soltam de tantas vidas abrasadas de Cristo e “ébrias de Deus”, como lhes chamou S. Macário, um deles, no século IV. (…)


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 30.03.2019

 

Título: Padres do Deserto - Palavras do Silêncio
Autor: Isidro Lamelas
Editora: Universidade Católica Editora
Páginas: 192
Preço: 14,40 €
ISBN: 9789725406359

 

 
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