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Encíclica “Fratelli tutti”: O desafio de fazer sair o Evangelho e a Igreja do gueto em que a cultura os relegou

A novidade da mais recente encíclica do papa Francisco, “Fratelli tutti”, deve ser procurada, provavelmente, mais na sua forma do que nos conteúdos. Não porque estes sejam irrelevantes, ou pelo menos dados como adquiridos, como alguns críticos sustentaram, mas porque a sua carga – que não hesitarei a definir como revolucionária – se liberta em toda a sua força explosiva precisamente por causa das modalidades novas em que é comunicada.

 

As formas tradicionais das encíclicas

Até recentemente, por “encíclica” entendeu-se uma carta pastoral do papa aos bispos da Igreja católica e, através deles, a todos os fiéis. Ainda na “Lumen fidei” (2013) – a primeira encíclica do atual pontífice (declaradamente inspirada, no entanto, em texto já elaborado pelo seu antecessor) – este delineamento manteve-se. O documento dirigia-se «aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas, e a todos os fiéis leigos», e partia dos textos da Revelação. Bento XVI, na sua encíclica social “Caritas in veritate” (2009), tinha acrescentado, aos sobreditos destinatários, «todos os homens de boa vontade».

Em todo o caso, o ponto de partida era a fé que acomunava os membros da Igreja. Por isso as encíclicas abriam-se, normalmente, com uma exposição dos fundamentos bíblicos e magisteriais da mensagem que queriam comunicar, passando, depois, às aplicações para os problemas da comunidade cristã e da sociedade.

 

A reviravolta da “Laudato si’”

Já com a “Laudato si’” (2015), o papa Francisco mudou esta estrutura tradicional. A encíclica sobre a crise ecológica abre com um capítulo dedicado à revista dos fenómenos negativos que marcam a nossa relação com a Terra. E explica o motivo: «As reflexões teológicas ou filosóficas sobre a situação da humanidade e do mundo podem soar como uma mensagem repetida e vazia, se não forem apresentadas novamente a partir dum confronto com o contexto atual no que este tem de inédito para a história da humanidade» (n. 17).

 

Porquê a voz da Revelação?

Só no segundo capítulo, intitulado «o evangelho da criação», aberto por uma secção dedicada à «luz que a fé oferece», entram em jogo a Revelação de Deus e o seu ensinamento. E que o motivo desta inclusão não é dado como adquirido evidencia-o a interrogação com que esta secção começa: «Por que motivo incluir, neste documento dirigido a todas as pessoas de boa vontade, um capítulo referido às convicções de fé?» (n. 62).

 

O Evangelho como contributo para a reflexão humana

São duas as respostas a esta pergunta. A primeira: «Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído, então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem própria» (n. 63); a segunda: «Embora esta encíclica se abra a um diálogo com todos para, juntos, buscarmos caminhos de libertação, quero mostrar desde o início como as convicções da fé oferecem aos cristãos – e, em parte, também a outros crentes – motivações altas para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis (…). Por isso é bom, para a humanidade e para o mundo, que nós, crentes, conheçamos melhor os compromissos ecológicos que brotam das nossas convicções» (n. 64).

Torna-se claro que o discurso deve falar a todos os seres humanos, inclusive aos de fora da Igreja, não prescindindo da perspetiva cristã, mas tendo-a presente como uma «forma de sabedoria», portanto, nas suas implicações humanas; e aos crentes fornecendo-lhes «motivações altas», ligadas à fé, que deverão torná-los mais diretamente protagonistas na luta pela salvaguarda da criação.

Na nova encíclica de Francisco, esta intenção de falar a todos os homens e mulheres do planeta, e não só aos cristãos, é ainda mais evidente. O papa declara-o, de resto, expressamente, no início: «Embora a tenha escrito a partir das minhas convicções cristãs, que me animam e nutrem, procurei fazê-lo de tal maneira que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade» (n. 6).

 

O primado da transcendência

Não é por acaso que em “Todos irmãos” a referência explícita à perspetiva religiosa e àquela mais especificamente evangélica compareça só no oitavo capítulo, o último. Onde Francisco sublinha que «quando se pretende, em nome duma ideologia, expulsar Deus da sociedade, acaba-se adorando ídolos, e bem depressa o próprio homem se sente perdido, a sua dignidade é espezinhada, os seus direitos violados» (n. 274). Uma reivindicação do primado da transcendência, comum a muitas religiões, que tem um desenvolvimento na especificação de que para o cristão o «manancial de dignidade humana e fraternidade está no Evangelho de Jesus Cristo» (n. 277).

É coerente com esta abertura às outras religiões a reiterada alusão ao documento assinado em Abu Dhabi com o grande imã Ahmad Al-Tayyeb. Quando, como o próprio Francisco recorda, a inspirá-lo na redação da “Laudato si’” tinha estado o patriarca ortodoxo Bartolomeu – não católico, mas cristão –, agora o ponto de referência é o seu diálogo com um autorizado representante do islão (cf. n. 5).

 

Um manifesto iluminista?

Não espanta que a encíclica tenha aparecido, aos olhos de uma parte do mundo católico que desde há tempo acusa o atual pontífice de heresia e sincretismo, «o manifesto ideológico do “bergoglismo”». Escreveu-o no diário “La Verità” (6.10.2020) um conhecido intelectual de direita, Marcello Veneziani, sustentando que «a fraternidade a que alude o papa Francisco é o terceiro princípio da Revolução Francesa, depois de liberdade e igualdade», e que, com esta encíclica, a ideologia de Bergoglio procura um lugar na Igreja pós-cristã na modernidade laica em nome da fraternidade (…), inserindo a Igreja dentro do mundo moderno, ateu e laicista, descendente da Revolução Francesa e buscando inspiração também de outras religiões como o islão».

 

Uma Igreja que quer sair do templo

Na realidade, se decifrarmos esta mensagem, descobrimos que, no fundo, Veneziani colhe muito bem a intenção fundamental do papa: fazer sair a Igreja e o seu anúncio do Evangelho do gueto em que a cultura do mundo moderno há muito os relegaram, e apontar para valores que essa mesma cultura acolheu e celebrou, para mostrar as suas raízes cristãs e denunciar a incoerência da sociedade atual em relação a eles.

Que isto se torna numa acusação compreende-se à luz da premente e recorrente pedido da parte de expoentes políticos da direita, para que os pastores da Igreja “não metam o nariz onde não são chamados”, para que se mantenham bem enclausurados entre as paredes dos seus templos a falar de uma fé sem a mínima correspondência com a vida real dos seres humanos, a começar pela dos próprios fiéis.

 

Uma fé que pretende falar também à razão humana

É interessante, todavia, que esta seja também a aspiração de intelectuais de orientação oposta, como Paolo Flores d’Arcais, que, em escrito de há alguns anos, sublinhava a necessidade de combater «a ideia, criticamente insustentável, que tenha algum fundamento a pretensão de a “fides” ser também “ratio”, a pretensão do magistério da Igreja, com as suas doutrinas morais, de ser também guardião da natureza humana enquanto razão».

Porque «se a “fides” de que se trata é (…) “loucura para a razão” (…), nenhuma Igreja poderá pretender que esta sua “loucura”, que, contudo, pedirá aos seus fiéis para praticar, se torne regra da convivência civil». Pelo contrário, advertia Flores d’Arcais, «uma religião que pretende ser una com a razão, melhor, ser o cumprimento da razão, inevitavelmente regressa à exigência de fazer valer “erga omnes”, crentes e não crentes (…), os seus preceitos morais». Com efeito, se se aceitasse essa lógica, «toda a norma em contraste com a “lei natural” da razão, englobada na fé, seria irrazoável e desumana, e ninguém pode querer que a convivência cil se destrua com leis positivas desumanas» (“Micromega, 3.2007).

 

O desafio de Francisco

Ora, é precisamente isto que o papa Francisco procurou fazer, já na “Laudato si’”, mais decididamente na “Fratelli tutti”: mostrar que a Igreja tem alguma coisa a dizer ao mundo contemporâneo, não em termos confessionais, mas para responder a um problema que está diante dos olhos de todos, crentes e não crentes, evidenciando que a fraternidade, central na mensagem cristã, é também um valor humano, e que um mundo que não a conhece – como o nosso – é desumano.

É um desafio. A parábola do bom samaritano – longamente analisada na encíclica como modelo de fraternidade, mas que no Evangelho é a narrativa do facto humano com Deus – assegura-nos que este desafio não é só colocado por Bergoglio.


 

Giuseppe Savagnone
Diretor da Pastoral da Cultura da diocese de Palermo (Itália)
In Tuttavia
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "S. Francisco dá o manto a um pobre" (det.) | Giotto
Publicado em 29.10.2020 Atualizado em 30.10.2020

 

 

 
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