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Ponta Delgada

Arte, diálogo, denúncia: pároco apresenta projeto "Indigências"

O projeto “Indigências”, promovido pela Pastoral da Cultura da paróquia de S. José, em Ponta Delgada, pretende que a arte contemporânea contribua para interpelar as consciências diante da exclusão que se manifesta na cidade politicamente mais importante dos Açores.

Em entrevista ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, o responsável pela paróquia situada na ilha de S. Miguel, diocese de Angra, explicou as motivações da iniciativa, revelou os artistas que vão ocupar os espaços da igreja até ao primeiro semestre de 2014 e falou sobre as consequências que o projeto está a suscitar na paróquia e na cidade.

O padre Duarte Melo, também diretor do Museu Carlos Machado, em Ponta Delgada, referiu-se igualmente à obra de Urbano, que inaugurou o projeto, em junho, e às peças de Catarina Branco que esta terça-feira vão ser transportadas para a igreja de S. José.

As obras serão apresentadas em sessão pública marcada para esta sexta-feira, (ver, no fim da entrevista, “Artigos relacionados”), antecipando a exposição que fica patente até fim de setembro.

 

Quais são os objetivos do projeto “Indigências”?

O primeiro objetivo é fazer com que a arte seja lugar e espaço de diálogo e de denúncia, a partir das realidades da pobreza e das misérias que povoam o Campo de S. Francisco [onde se localiza a igreja de S. José].

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Notamos que as pessoas que andam à volta da cidade de Ponta Delgada vivem numa situação de abandono, entre a toxicodependência, o alcoolismo, o desemprego e o repatriamento. É um conjunto de pessoas de proveniências muito distintas mas que convergem a degradação humana.

Este projeto pretende chamar a atenção da sociedade que essa realidade existe e que os cristãos e as pessoas de boa vontade devem agir a partir da beleza, da arte e das diversas gramáticas estéticas que durante um ano e meio vão ser mostradas nos espaços da igreja.

Quem for à igreja para rezar, visitar uma obra de arte ou participar num ato litúrgico vai deparar-se sempre com os problemas da miséria e da pobreza. Os pobres são verdadeiros anunciadores de uma mensagem que interpela quem está acomodado com a vida e com a injustiça que teima em permanecer.

A iniciativa, que se prolonga durante ano e meio, prevê que os trabalhos dos artistas convidados, residentes nos Açores e no exterior, fiquem dois meses na igreja. Haverá sempre uma folha de sala a explicar as peças.

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Paralelamente realizam-se concertos, ciclos de conversas soltas de temática variada, teatro e dança contemporânea. Pretendemos trazer à igreja todas essas gramáticas da contemporaneidade, que irão conviver de forma natural com o culto, a liturgia e os fiéis, numa relação ao mesmo tempo aberta e inquietante e perturbadora, despertando as pessoas para uma cidadania ativa e uma consciência cívica.

Os fiéis que normalmente vão à missa na paróquia conversam sobre o que vão experimentando a partir das peças expostas. Muitas vezes são pessoas que não vão aos museus nem às galerias de arte e que estão arredadas desses mundos que frequentemente se apresentam como elitistas. Queremos quebrar esse elitismo da arte contemporânea e traduzi-la de forma simples, no sentido de termos um mundo com um rosto mais humano.

Estou a viver este projeto com muita intensidade e entusiasmo, sobretudo devido à resposta favorável que estou a ter, não só por parte das pessoas que estão a dar corpo à iniciativa mas também por causa da ressonância que está a provocar na comunidade. A ideia de base é que ele provoque alguma mudança, nomeadamente no meio onde os pobres estão abandonados.

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Onde é que as peças vão ser expostas?

Em qualquer sítio, à exceção do altar. Os artistas têm toda a liberdade de colocar as obras na igreja.

Os criadores que vão interferir e intervir na igreja acolheram de imediato a iniciativa. Este é um projeto que se vai construindo e que não está totalmente definido à partida.

Além da exposição das obras há grupos de trabalho ligados à música e à literatura. São cristãos e não cristãos que estão a conviver, a dialogar e a produzir a partir da sua criatividade e pensamento. Por isso este é um projeto muito aberto, solto e que foge à rigidez, ao mesmo tempo que mantém sempre o compromisso perante a solidariedade e a justiça, porque a beleza fala-nos disso.

 

Quem são os próximos artistas?

O próximo é Daniel Oliveira, escultor que vai apresentar uma estrutura em ferro de grandes dimensões intitulada “O Peregrino”, que vai ficar à porta da igreja. É um peregrino que entra mas que simultaneamente parece ser um obstáculo à entrada. É uma peça muito curiosa e enigmática que oferece várias leituras.

FotoFoto: Avieira67

A seguir será Maria José Cavaco, em dezembro de 2012 e janeiro de 2013, Filipe Franco (fevereiro e março), Sofia Medeiros (abril e maio), Vítor Almeida (junho e julho), Nina (agosto e setembro), Paula Mota (outubro e novembro), André Laranjinha (dezembro de 2013 e janeiro de 2014) e Luísa Jacinto em fevereiro e março. Também estamos a contar com Ana Vieira, artista do continente que expôs em 2011 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, mas ainda não estão acertados os detalhes.

Eu não coloco rótulos religiosos nas personalidades que convido. São artistas preocupados com o mundo, com o sentido da vida, com as questões da História e que têm mensagem para nos dar e alertar. O André Laranjinha é agnóstico enquanto os restantes são cristãos, uns de prática outros não, mas sempre com suporte cultural associado ao cristianismo.

 

O Campo de S. Francisco é um espaço de festa e de pobreza...

É um largo da festa com um caráter religioso muito forte, onde as pessoas se põem de joelhos à volta do Campo, a cumprir promessas, e onde a culto à volta do Santo Cristo dos Milagres é muito forte. É a religiosidade popular no seu esplendor.

FotoAndy Triggs

Por outro lado há a perversão de fazer do Campo de S. Francisco um megapalco de festas, que não promove nem dignifica a pessoa e que só serve para promover o álcool e a alienação. A Câmara Municipal de Ponta Delgada instalou no largo um conjunto de barracas, fazendo dele o terceiro mundo no seu melhor.

Nos meses de verão, logo a seguir às festas do Santo Cristo, é lugar de consumo de muito álcool, de uma festa sem critérios, tudo em nome de uma pseudo-cultura. O projeto “Indigências” quer contrariar esta tendência sob o ponto de vista das políticas culturais vigentes em Ponta Delgada. Essas festas desidratam a alma e alienam-se da vida e dos problemas do mundo.

 

Como caracteriza a obra de Urbano que inaugurou o projeto e as peças de Catarina Branco?

Urbano apresenta um trabalho de grande despojamento e imensa simplicidade e ternura, não só nos materiais como na temática marcadamente espiritual, como manifesta no título da obra, “Kenosis” [esvaziamento]. É um artista que vai sempre aos princípios, bebendo das fontes iniciáticas da vida.

FotoObra de Catarina Branco

Catarina Branco pega na dimensão do colorido e de todo o picotado festivo recriado ciclicamente em S. Miguel e que dizem da espiritualidade e religiosidade. Por vezes há muita religiosidade e pouca espiritualidade mas neste caso a Catarina vai beber a alma do povo que tem uma espiritualidade simples, quase franciscana.

 

Rui Jorge Martins
© SNPC | 30.07.12

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Igreja de S. José
Foto: mircaskirca

 

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