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A família, primeira escola de cultura

Olhando para a vida das famílias que conhecemos na cultura ocidental, talvez o panorama não seja propriamente deslumbrante. Em todos os estratos sociais encontramos famílias a desmoronarem-se ou a desfazerem-se, famílias desfeitas ou desestruturadas, onde os que pagam a fatura dos desatinos cometidos são os membros mais frágeis: as crianças, os idosos, os doentes. Os filhos ficam baralhados, convivendo eventualmente com a mãe e não sabendo se passarão o fim de semana com o pai. O santuário da vida, a primeira estrutura de acolhimento, que deveria oferecer o aconchego propício para a partilha dos afetos, para a transmissão da fé e da cultura, para o amadurecimento dos sentimentos, para dar e receber amor, para a realização da pessoa, manifesta grandes dificuldades nessa missão cultural. Famílias que tinham começado num casal enamorado, cheio de entusiasmo e doação mútua, dissolveram-se porque os pais, românticos no dia do casamento, perderam o fôlego logo na primeira curva, estrelando-se contra o primeiro desafio à generosidade, à criatividade e à capacidade de compreensão mútua: nem um nem o outro teve magnanimidade e cultura suficiente para pensar que o caminho a dois teria muitas retas e que todas as estradas têm curvas.

A palavra bíblica projeta luz a jorros nesse caminho da família humana. S. Paulo, realisticamente consciente de que as pessoas em família, na imanência da vida, sempre encontram ou inventam razões para se desentenderem, confrontarem, ofenderem, injustiçarem, fá-las subir para a transcendência, por meio da oração assídua e da leitura regular da palavra de Deus: «A palavra de Cristo permaneça em vós em toda a sua riqueza… Com agradecimento cantai louvores a Deus nos vossos corações com salmos, hinos e cânticos inspirados». Aí, na transcendência, sentindo Deus como Pai comum, já não encontrariam razões para se digladiarem. Paulo mantinha-as elevadas, apelando à vivência das virtudes humanas: «Revesti-vos de sentimentos de misericórdia, benignidade, humildade, mansidão, tolerância, levando-vos ao colo uns aos outros e perdoando-vos mutuamente se alguém tem razão de queixa contra outro. Como o Senhor vos perdoou, perdoai também vós. Por cima de tudo isto, porém, cingi-vos com o amor mútuo, que é o cinto perfeito». Nesta exortação em que o campo semântico é o de virtudes como peças de vestuário que podem ornar o cristão, o que aparece como toque final da metáfora do vestido é o amor, o cinto perfeito que ata as virtudes umas com as outras, coroando-as de beleza. Nas relações familiares, «a paz de Cristo tenha a última palavra nos vossos corações, para a qual fostes chamados, a fim de formar um só corpo. Sede também agradecidos» (Colossenses 3,12-17). Nisto, a família aparece como a «circunstância» geradora de alta cultura com as três palavras-chave que o Papa Francisco recomenda no uso diário para o êxito familiar: «com licença, obrigado, desculpa».



A família na cultura de hoje induz muitos filhos a levarem os pais para outras ‘montanhas’, com diferentes nomes: Lares de idosos, Centros de acolhimento...



A cultura bíblica carrega com tintas fortes os valores humanos que constroem a grandeza da família. O sábio Ben Sirá, estudioso das Escrituras e inculturando-as no Israel do séc. II a.C. (que estava a esquecer a cultura do «Deus dos nossos pais»), nas relações com o pai põe o filho a pensar no hoje e no amanhã: «Quem honra o pai encontrará alegria nos próprios filhos… Quem honra o pai gozará de longa vida… Filho, honra teu pai com palavras e ações, para que desça sobre ti a sua bênção… A glória de um homem vem da honra de seu pai… Filho, ampara o teu pai na velhice; não o desgostes durante a sua vida… Não o desprezes estando tu cheio de vigor» (3,5-13). Boa proposta para o presente original de um filho ao seu pai. De facto, ser pai consiste num ato de dar: dar o melhor de si próprio, a vida. Mesmo que manifeste incompetência em exercer a função de pai, o filho não pode devolver-lhe a incompetência recusando-lhe a gratidão pelo dom fundador da sua existência: a voz do sangue tem de gritar mais alto do que a voz da razão. Para a cultura bíblica, o melhor presente que o filho pode oferecer ao pai é honrá-lo porque deu e porque é, mais do que por aquilo que faz. Demitir-se do devido amor ao pai é interromper a corrente da cultura, é o último ato da tragédia dos náufragos de si próprios.

Num país oriental era hábito – remanescente de subcultura – que o pai velhinho, já incapaz de trabalhar, fosse levado pelo filho para a montanha, para lá morrer abandonado. Chegou a altura de um filho o fazer ao pai. Uma vez na montanha, deitou-o no chão e deu-lhe uma manta para que se abrigasse do frio até à morte. E começou a despedir-se. A intempérie, os animais selvagens e as aves de rapina fariam o resto. Mas aí ocorreu a surpresa eloquente: – «Filho, leva a metade da manta contigo e guarda-a para quando o teu filho te trouxer para este mesmo lugar». O filho captou imediatamente a mensagem gritante. Banhado em lágrimas purificadoras, pegou no pai ao colo e trouxe-o de volta para casa, aonde pertencia.

A família na cultura de hoje induz muitos filhos a levarem os pais para outras ‘montanhas’, com diferentes nomes: Lares de idosos, Centros de acolhimento... Mas a sabedoria popular, canal torrencial de refinada cultura, é pungente com o provérbio secular: «Filho és, pai serás: como fizeres assim acharás».


 

Armindo dos Santos Vaz
Biblista, professor catedrático jubilado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Imagem: monkeybusinessimages/Bigstock.com
Publicado em 28.12.2020

 

 

 
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