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Cinema: “Time”, a família é tudo, tudo é família

É dura para Sibil, jovem afroamericana, educar seis filhos pequenos com o marido, Rob, na prisão, onde está a cumprir uma anormal condenação a 60 anos por um infeliz roubo bancário. Um golpe tresloucado ditado pelo desespero de um momento difícil, no início dos anos 90, após a euforia de um negócio aberto na sua pequena cidade, Shreveport, Louisiana, EUA, e a crises subsequente, com contas que nunca se recompuseram. Também ela tinha participado, mas a condenação foi-lhe muito mais leve; além disso, no momento da detenção, estava grávida de dois gémeos. Rob, que recusou o acordo o acordo judicial, continua na prisão 21 anos depois. Mas Sibil não se rende. Desde que saiu da penitenciária tem feito de tudo para manter a família unida, procurando garantir aos filhos uma vida normal e manter vivo neles a recordação do pai.

Ao mesmo tempo, Sibil empenhou-se numa ininterrupta campanha pública para a libertação do marido. Porque – este é o seu mantra – «a família é tudo e tudo é família». Uma luta extenuante, obstinada, durante a qual é apoiada pela família e pela comunidade local cristã afroamericana, que nunca deixou de frequentar, esperando, ano após ano, que o próximo Natal fosse o do regresso a casa de Rob, um Natal de recomeços.

Esta é a trama de “Time”, o tocante documentário de Garrett Bradley, visível na plataforma Amazon Prime, que reconstrói a história verdadeira de Robert e Sibil Richardson e dos seus seis filhos, combinando os videodiários que ela gravou ao longo de duas décadas para o marido e as imagens da sua vida atual, feita de espera. O realizador consegue mostrar não só a realidade de um amor incondicionado – nascido na escola –, mas também a extraordinária resiliência da heroína Sibil. Uma paladina em defesa da família e da dignidade das pessoas detidas, determinada a não capitular diante de uma justiça culpada de ter condenado os seus filhos a viver demasiado tempo sem um pai.



Sibil é dona de uma voz íntima e corajosa, que narra o seu amor por Rob, a sua fé inabalável, a sua convicção de que nenhuma separação, por muito prolongada que seja, pode prevalecer sobre os afetos verdadeiros, capazes de resistir às adversidades e ao tempo



No ecrã transcorrem as imagens que vão contar a Rob tudo aquilo que perdeu: o dia a dia em casa, as brincadeiras, as festas, os progressos dos filhos na escola, o seu empenho para obter resultados excelentes nos estudos, com os diplomas orgulhosamente conquistados. Fotogramas que a sábia montagem alterna com aqueles em Sibil está envolvida em encontros públicos com outras famílias destruídas pela detenção de um dos seus elementos, na maior parte dos casos homens, durante os quais fala da situação do marido, exemplo da condição dos afroamericanos discriminados e vexados também por um sistema judicial e carcerário que se mostra, em relação a eles, muito mais inflexível e severo.

Nas cenas do presente mostra-se Sibil na rotina familiar, na gestão de uma atividade comercial, nos contactos feitos de enervantes esperas com o gabinete do juiz para perceber se o marido obterá a liberdade condicional, e, sobretudo, a apoiar psicologicamente Rob, alimentando nele a esperança de que depressa voltará para casa. Uma esperança sustentada também por uma profunda confiança na providência divina, que até agora a ajudou a aceitar e superar as muitas desilusões.

Como se intui do título, o outro grande protagonista é o tempo. O tempo que passa lento e inexorável, que corta transversalmente sem uma ordem cronológica a história e a vida dos personagens; não os separando, todavia, mas ligando-os ainda mais. Um tempo sabiamente uniformizado por um elegante preto e branco e pela voz fora de campo da indómita Sibil. Uma voz íntima e corajosa, que narra o seu amor por Rob, a sua fé inabalável, a sua convicção de que nenhuma separação, por muito prolongada que seja, pode prevalecer sobre os afetos verdadeiros, capazes de resistir às adversidades e ao tempo. Esse tempo que, quando finalmente Rob obtém a liberdade condicional, se detém. E volta atrás.

A fita dos últimos vinte anos da família Richardson torna a enrolar-se, velozmente, quase a querer recompor o que foi interrompido. E quando chega ao fim, sem ter perdido alguma das recordações, parece dizer que sim, agora pode recomeçar-se a viver. Desta vez todos juntos. Uma família.









 

Gaetano Vallini
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Time" | D.R.
Publicado em 28.10.2020

 

 
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