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Preparar o Natal com Arte: O deserto, a nudez

Preparar o Natal com Arte: O deserto, a nudez

Imagem "S. João Batista no deserto" | Caravaggio (atribuição contestada) | 1603-1604 | Galeria Nacional de Arte Antiga, Roma, Itália

Um adolescente quase nu parece descansar ao pé de uma árvore morta, da qual se distingue, à esquerda, o tronco despido e, à direita, um ramo morto. Ele está sentado, ligeiramente contorcido, vestindo apenas uma tanga branca e um grande pano vermelho a cobrir a sua nudez – a cor evoca o martírio (testemunho) até ao sangue que recairá sobre si.

A mão direita repousa na sua cruz de cana, colocada sobre uma pedra plana onde se podem distinguir uma tigela de terracota e um pão. A luz lunar branca, que vem da esquerda, destaca a sua pele imberbe e clara, assim como os cabelos castanhos. A desilusão parece habitar o rosto. O corpo é magro, triste, mas tão brilhante e belo!

O nosso olhar é em primeiro lugar atraído pelo torso radiante, depois sobe para esse rosto escondido pela sombra e pela abundante cabeleira. Por fim, vemos a sua mão direita e os poucos objetos que repousam junto a si. O nosso sentimento é mitigado… Ora se sente uma certa paz, uma serenidade, mas também uma inquietude, uma insatisfação.

Mesmo se nada o indica diretamente, como em muitas outras imagens religiosas, onde a auréola, o cordeiro e a veste nos permitem reconhecê-lo imediatamente, não há dúvida de que se trata de João Batista, com a cruz na mão e a força da sua juventude, com a sua presença humana dramática de adolescente que parece prisioneiro do seu mundo interior.

João descansa. Estará ele cansado por ter pregado no deserto sem ter sido ouvido? Refletirá sobre a sua missão? Medita na sua condição? Desesperará por já não ter nada para beber nem comer, nada para cobrir a nudez? Pressente-se o seu combate interior. A sua vida, a sua juventude e o seu corpo chamam-no à alegria, ao futuro. E no entanto ele parece inquieto, desesperado, confrontado com a realidade das coisas, com as escolhas a fazer. É tudo tão negro, está tudo tão morto… A sua carne é o único elemento vivo no meio de um mundo de trevas, de deserto de homens e de alegria.

Como podemos preparar neste mundo o caminho de Cristo? Como aplainar todas as dificuldades das nossas vidas? Seguindo João Batista. Ele apareceu no deserto das nossas vidas para nos mostrar o caminho para Jesus. O que nos pede este jovem homem? Primeiro, que nos convertamos, que reconheçamos os nossos pecados, todos esses laços que rompemos com Deus, connosco próprios, com os outros, com o nosso mundo, com o nosso corpo.

Depois, que esperemos aquele que nos virá batizar no Espírito Santo, que nos concederá essa alegria de que tanto precisamos, esse entusiasmo que nos falta, esse amor do qual temos tanta sede…

Mas para isso, como ele, é preciso que nos retiremos para o deserto. É lá, onde não há nada, lá onde os olhos veem até perder de vista, que o nosso pecado se mostrará. E então já não será afogado nas luzes da cidade. Retirar-se para o deserto, como Jesus fez tantas vezes. Tomar, como o Batista, o tempo de nos despojarmos, de nos despirmos até à nudez, de nos descobrirmos. Só levar consigo o mínimo: um pouco de água, um pouco de pão e… a Cruz.



 

P. Olivier Plichon
In "Narthex"
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 20.12.2017

 

 
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