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8.ª Jornada da Pastoral da Cultura

Quando Manuel Alegre estava preso e escreveu um poema ao papa

O poeta e ex-candidato à Presidência da República, Manuel Alegre, contará esta sexta-feira, 22 de junho, perante bispos e responsáveis da cultura da Igreja, como um seu pedido à polícia política fascista o levou a escrever um poema dedicado ao papa João XXIII.

Foi no verão de 1963, conta o escritor ao jornal “Público”, antecipando a sua participação na 8.ª Jornada da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica, em Fátima. Alegre tinha sido preso em Angola, então colónia portuguesa, depois de participar num levantamento contra o regime. Detido em Luanda, na cadeia da PIDE, a polícia política, Alegre ouviu falar de uma encíclica do papa João XXIII, sobre a paz no mundo, a Pacem in terris, publicada em abril de 1963.

«Pedi para ler a encíclica mas os carcereiros não permitiram», conta Manuel Alegre. «Pelos vistos era um texto subversivo.» O texto do papa dirigia-se «a todas as pessoas de boa vontade» - uma fórmula que era utilizada pela primeira vez nos documentos pontifícios. Nele se falava de liberdade, justiça, de anticolonialismo, direitos culturais, económicos e sociais, bem como da participação das mulheres na sociedade, conta o ex-deputado socialista.

«Para quem lutava pela liberdade, a encíclica foi uma inspiração», diz o autor de Praça da Canção. Por isso, Alegre acabou por escrever o poema Para João XXIII: «Porque não sei de Deus não trago preces./ Sou apenas um homem de boa vontade./ Creio nos homens que acreditam como tu nos homens/ creio no teu sorriso fraternal».

«A encíclica dizia que ninguém tinha a verdade toda. É algo que continua a ser de grande atualidade nesta época de pensamento único, em que nos querem tirar tantos direitos sociais e políticos», diz Manuel Alegre sobre aquele documento.

João XXIII foi o papa que convocou o Concílio Vaticano II que, reunindo todos os bispos do mundo em quatro sessões entre 1962 e 1965, encetou a reforma da Igreja. As jornadas desta sexta-feira pretendem evocar os 50 anos da assembleia.

«A atitude do Concílio é perguntar o que o mundo diz sobre a Igreja e o que ela diz d si mesma», afirma o padre José Tolentino Mendonça, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC). Por isso, a jornada «quer ouvir o que a cultura diz de si, do homem, do lugar do espiritual no mundo: o dilema em que todos estamos é sobre o modo como olhamos a pessoa humana».

Entre a «polifonia de vozes» que falarão em Fátima, como as define Tolentino Mendonça, estará também o diretor artístico do Teatro Nacional São João, Nuno Carinhas, que foi educado «numa paróquia agitada» - a de Belém – e do pare Felicidade Alves, que contestava o regime publicamente.

«Apanhei a visão mais política do que foi proposto pelo Concílio», diz. Mas hoje o encenador, que nos últimos anos dirigiu, entre outros trabalhos, o Breve sumário da história de Deus, de Gil Vicente, diz que acabou por ficar mais ligado ás pessoas do que à instituição.

No seu trabalho, Carinhas tem olhado para o corpo como reflexo da dimensão espiritual: «Gil Vicente representa de forma clara a alma através de um corpo. E as representações crísticas também apontam para aí: o corpo é a única coisa que nos assiste nesta permanência pela vida».

Na jornada, com pré-inscrições abertas pela internet, participam ainda a maestrina Joana Carneiro, o presidente do centro do Porto da Universidade Católica, Joaquim Azevedo, a pintora Emília Nadal e o teólogo Borges de Pinho. O filme Mupepy Munatim, de Pedro Peralta, que teve uma menção honrosa da Igreja Católica no IndieLisboa, será também exibido, com a presença do realizador.

 

António Marujo
In Público, 21.6.2012
Com SNPC
21.06.12

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Manuel Alegre




















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Nuno Carinhas

 

 

 

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