Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Poemas quaresmais de Frei Agostinho da Cruz

Quod non rapuit, tunc exsolvebam

Com cordas à coluna foi atado,
E com pregos pregado no madeiro
O nosso liberal, manso Cordeiro,
Que pagou o que não tinha furtado.

Assi da terra sendo alevantado,
Cativo levou nosso cativeiro,
E não sendo da culpa alhêa herdeiro,
Morreu, como se fora o mais culpado.

Não tinha outro remédio a salvação
Do mundo, que só Deos salvar podia,
Se não da sua santa encarnação;

Porque Jesus nascendo de Maria
Pudesse padecer morte e paixão,
Na qual nosso bem todo consistia.

 

Da Paixão

Se vós, meu Senhor, dais consentimento
Para ser dos inimigos preso e atado,
Não me negueis convosco ser levado,
Atado a vós, sequer do pensamento.

Que já que em mim não há merecimento
Para serdes de mim acompanhado,
Pelo menos ser muito desejado
Não deixe de crescer um só momento.

Não faltam, Senhor meu, cordas banhadas
No próprio sangue vosso para atar
As entranhas das vossas desatadas;

Não faltam pregos vossos, que me dar,
Nos vossos pés e mãos, na cruz pregadas,
Para convosco nela me pregar.

 

À Cruz

Em ti suave Cruz, posto que dura
Por ver sangue inocente derramado,
Pregado pés e mãos, aberto o lado,
Donde minha esperança se pendura.

Em ti de piedade e de brandura
Doce penhor do penitente errado,
Em ti Cristo Jesus dependurado
A salvação do mundo dependura:

Em ti se consumou toda a crueza,
Que em corações humanos se acendia
Contra todas as leis da natureza.

Mas em ti se tornou, em alegria
Da nossa redenção, toda a tristeza;
Oh Cruz defensão nossa, nossa guia.

 

A Cristo crucificado

Assi como vos vejo nessa cruz
Nu, despido, de todo assi me veja,
E como vós estais, meu Deos, esteja,
Sem haver dentro em mim mais que Jesus,

Que pois eu fui aquele que vos pus
Despido nessa cruz, despido seja
De quanto me desvia, turba e peja,
Para não contemplar a vossa luz.

Quisestes vós morrer na cruz despido,
Sendo vós senhor meu, eu servo vosso,
Não pago vossa morte em morrer.

Que, pois por mim já tendes padecido,
Nem com morrer por vós pagar-vos posso,
Pois o morrer por vós é mais seguro.

 

Às Chagas

Divinas mãos, e pés, peito rasgado,
Chagas em brandas carnes empremidas,
Meu Deos, que por salvar almas perdidas,
Por elas quereis ser crucificado:

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dores às vossas são devidas,
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer no vosso transformado:

Em vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza;
Por isso cada um deu do que tinha:

Claros sinais de amor, ah saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas de meu Senhor, redenção minha.

 

À Coroa de Espinhos

A que vindes, Senhor, do Céu à terra,
Terra que sendo vossa vos enjeita,
E que tanto vos honra e vos respeita,
Que em vos não vos receber insiste e emperra?

Ah quanta ingratidão nela s’encerra!
Quão mal de vossa vinda se aproveita!
Pois se põe a tomar-vos conta estreita,
Mais brava contra vós, quanto [mais] erra.

E vós de vosso amor puro forçado
As malditas espinhas lhe pisais,
Das quais ainda sendo coroado,

A maldição antiga lhe trocais
Na bênção, que lhe dais crucificado,
Quando morto d’ amor, d’ amor matais.


 

Fr. Agostinho da Cruz
Seleção: Ruy Ventura
Imagem: iurisilvestre/Bigstock.com
Publicado em 11.04.2019

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos