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Frei Agostinho da Cruz: Um poeta da liberdade

Frei Agostinho da Cruz não é um poeta vulgar. Só um convívio intenso com os seus textos nos permite, todavia, aquilatar a grandeza da sua obra. Se ninguém pode negar que os seus versos trazem ao leitor um Altíssimo que se aproxima e se humaniza como Cristo (ou não fosse ele um franciscano), não é verdade que ele seja apenas “uma alminha de Deus, nua como na hora do nascimento, a dar-se, sem querer e sem saber, em versos da mais ingénua e viva emoção religiosa”, como disse Teixeira de Pascoaes, com boas intenções. É muito mais do que isso, na poesia religiosa e até fora dela.

Vulto largamente mitificado em escritos de vária ordem e proveniência é, ainda hoje, passados quatrocentos anos sobre a sua morte, um ser cuja biografia tem demasiados campos obscuros, bem mais numerosos do que aqueles onde a claridade nos deixa ver com nitidez. Melhor sorte não tem alcançado a sua poesia, que continua à espera de uma edição integral fiável, expurgada de atribuições erróneas. Apesar de algumas investigações atentas e argutas, continuam a repetir-se os mitos e lugares comuns que se foram acumulando sobre si e sobre os seus versos ao longo de mais de quatro centúrias. É certo que certas apreciações não resistem a uma atenta leitura dos poemas que inequivocamente lhe pertencem; o confronto entre essas aproximações e o que o sujeito poético vai afirmando nas suas estrofes – velando, desvelando e revelando – redunda numa dissemelhança que salta à vista. Desde as gavetas ou prateleiras onde têm posto o poeta e os seus poemas aos caminhos e veredas por onde peregrinou nos seus 79 anos de vida, muito precisa de ser revisto.

Se nos despirmos dos nossos preconceitos neste tempo tão desatento, turbulento, amnésico e perigoso que nos foi dado viver, não é difícil amá-lo, colocando-o no mesmo altíssimo lugar onde se situam outros poetas intemporais que deveras admiramos e continuaremos a admirar. Dificuldades maiores traz uma leitura despida de quanto escreveu, uma abordagem que seja capaz de desnudar-se de convicções pouco ou nada alicerçadas e de estereótipos, ainda que autorizados, cómodos ou bem intencionados.

 

***

 

Agostinho Pimenta nasceu a 3 de maio de 1540, em Ponte da Barca, filho de Catarina Bernardes Pimenta e de João Rodrigues de Araújo. Era o décimo filho de uma progénie constituída por onze irmãos, sendo o poeta Diogo Bernardes (c. 1530 – 1596) o seu primogénito.



Talhado para o mundo, não foi essa contudo a vocação de Agostinho Pimenta. Seduzido pela pregação e pelas virtudes de frei Jácome Peregrino, o Tio, franciscano arrábido, e por uma profunda consciência dos artifícios e da vanidade social que o rodeava, aos vinte anos resolveu ingressar na vida religiosa



Segundo conta nos seus versos, a sua criação ocorreu nos campos do Mondego e do Tejo – ou seja, provavelmente em Coimbra e Lisboa – fazendo parte da casa de D. Duarte (1541 – 1576). Este grande de Portugal (neto de D. Manuel I) era filho póstumo do Infante D. Duarte e de sua mulher D. Isabel, filha do quarto Duque de Bragança D. Jaime I e irmã do seu sucessor D. Teodósio I, tendo recebido no seu matrimónio, ocorrido em 1537, o Ducado de Guimarães, de que foi quarto titular. Irmão de D. Maria de Portugal, Princesa de Parma, e de D. Catarina, Duquesa de Bragança pelo seu casamento com o sexto Duque D. João I e pretendente ao trono de Portugal após a morte do Cardeal-Rei D. Henrique, faleceu sem descendência. Na posse destes dados, não me parecer temerário afirmar que Agostinho terá vivido no paço ducal de Guimarães (afinal, tão próximo de Ponte da Barca), sendo além disso possível que nalgumas temporadas tenha habitado ou frequentado o palácio de Vila Viçosa.

O futuro Frei Agostinho da Cruz viveu, assim, desde tenra idade junto dos meios cortesãos e da alta nobreza nacional. A sua companhia e o seu convívio eram muito solicitados pela fidalguia, não só pelos seus dotes poéticos mas também pelas suas qualidades pessoais. A sua idade era muito próxima da de seu senhor e de suas ilustres irmãs, o que nos faz adivinhar uma afinidade de gostos, de pensamento e de sensibilidade. À mesma geração pertencia outro membro da alta nobreza do país, que nesses ambientes terá conhecido e que viria a tornar-se uma das presenças mais marcantes na vida do futuro franciscano: D. Álvaro de Lencastre (1540 – 1626), sobrinho do segundo Duque de Aveiro, D. Jorge de Lencastre. A ele ficaria ligado por laços de amizade que se prolongariam pela sua vida fora, tanto no século quanto na vida religiosa (não sem alguns momentos de tensão e desentendimento). Por morte do seu tio, este fidalgo – nascido no mesmo ano que o futuro franciscano – disputaria a sua prima D. Juliana (1560 – 1636) a herança do seu título nobiliárquico, acabando por contrair com ela matrimónio, assegurando-se assim a continuidade varonil. A vida deste casal, por vezes conflituosa, e o percurso dos seus descendentes ficarão espelhados em várias produções poéticas de Agostinho.

Talhado para o mundo, não foi essa contudo a vocação de Agostinho Pimenta. Seduzido pela pregação e pelas virtudes de frei Jácome Peregrino, o Tio, franciscano arrábido, e por uma profunda consciência dos artifícios e da vanidade social que o rodeava, aos vinte anos resolveu ingressar na vida religiosa. Abraçou a rigorosa reforma da ordem fundada por São Francisco de Assis, propagada por São Pedro de Alcântara, um dos primeiros eremitas (e verdadeiro organizador) do convento de Nossa Senhora da Arrábida, sito na serra do mesmo nome, no território de Azeitão, e fundado em setembro de 1539 pelo tio de D. Álvaro de Lencastre, o primeiro Duque de Aveiro, D. João. Assim nasceu “Frei Agostinho da Cruz”, nome que marcou o cerne da sua conversão, a qual se espelharia na sua obra.



Estruturada sobre um triângulo (divino?) em cujos vértices estão a Natureza-Mundo, a Palavra-Poesia e Deus-Amor, a sua obra conduz-nos pelo pensamento até à convicção de que não se trata do registo de uma experiência mística, mas antes de uma espécie de diário íntimo



Terá sido um dos primeiros habitantes do rigoroso convento de Santa Cruz de Sintra, fundado em 1560 por D. Álvaro de Castro, filho do vice-rei da Índia, D. João de Castro. Nesse mesmo ano, no dia do seu vigésimo aniversário, tomou hábito. Durante quatro décadas e meia aí viveu, rejeitando quaisquer honrarias ou cargos de governo na instituição e na ordem a que pertencia.

Só em 1605, e durante poucos meses, se viu constrangido a aceitar a guardiania do convento de São José de Ribamar, situado no atual município de Oeiras. Depois de muita insistência, conseguiu no fim da vida que o autorizassem a fazer vida eremítica junto da Ermida da Memória, na Arrábida. Aí se dedicou a rigorosos exercícios espirituais e ascéticos, recebendo ainda assim visitantes humanos (a quem oferecia bordões que talhara com as suas próprias mãos) e não-humanos (como um célebre gamo que lhe vinha comer à mão, recordando-lhe a lenda de Santo Eustáquio, santo caçador que vira Cristo crucificado entre as hastes de um veado).

Não foi fácil a sua relação com a comunidade, que nem sempre entendeu a radicalidade da sua opção de vida religiosa e a liberdade e afastamento com que a vivia. Segundo regista nos seus versos, velando e desvelando, foi obrigado várias vezes a sair da comunidade arrábida. Numa dessas ocasiões, foi habitar o convento de Nossa Senhora de Jesus, em Vale Figueira (Santarém), onde terá sido bem acolhido. Não obstante, foi obrigado a sair desse cenóbio, dada a insalubridade da sua localização, na foz do rio Alviela, acabando por regressar ao seu eremitério situado junto da Ermida da Memória.



A sua morte no dia 14 de março de 1619 gerou manifestações de fé de grande intensidade da parte de um povo que o tinha como santo



Entre Sintra e o sacro-monte arrábido se abraçou à cruz (em cujo dia nascera e mudara de vida), a Cristo chagado e, por isso, misericordioso e redentor, operando em simultâneo uma catarse penitente e desenganada das guerras interiores e exteriores entre quais, pelo que afirma, sempre foi vivendo. Dessa relação, nasceu uma obra poética impar que só muito depois da sua morte começou a ser editada sistematicamente.

A sua morte no dia 14 de março de 1619, em Setúbal, na enfermaria da Anunciada (situada no bairro do Troino, junto da igreja paroquial homónima), gerou manifestações de fé de grande intensidade da parte de um povo que o tinha como santo. Foi preciso fazer guarda de honra ao seu cadáver, para que o seu corpo não fosse mutilado por quem procurava relíquias. O seu funeral não foi uma manifestação de tristeza, mas de enaltecimento de um novo habitante da corte celestial. Regressou à igreja do convento da Senhora da Arrábida numa barca engalanada e aí ficou sepultado, não sem antes ter sido traçado o seu retrato mortuário, por ordem do Duque de Aveiro.

Em finais do século XIX ainda o seu crânio era venerado como relíquia na igreja do convento da Arrábida, o que já não ocorria em 1918. O que resta do seu corpo está hoje sepultado no local original. A sua cela, no convento velho, que no século XVIII tinha sido convertida numa minúscula capela dedicada a Santo António de Lisboa, foi mandada reconstruir em 1940 pela Casa Palmela, então proprietária do eremitério. Nessa data, quarto centenário do seu nascimento, foi erigido junto dela um monumento evocativo.

 

***

 

A obra de Frei Agostinho da Cruz – uma das mais importantes da literatura portuguesa de todos os tempos – propõe-nos uma libertação. É, não tenho dúvidas, um poeta da liberdade, que ele considerava o “manjar melhor”. Estruturada sobre um triângulo (divino?) em cujos vértices estão a Natureza-Mundo, a Palavra-Poesia e Deus-Amor, a sua obra conduz-nos pelo pensamento até à convicção de que não se trata do registo de uma experiência mística, mas antes de uma espécie de diário íntimo em cujas páginas foi conservado para um futuro impreciso e longo o testemunho de um longo percurso de rigorosa e consequente ascese. São poemas prenhes de experiência com os homens, com o ambiente e com a divindade. Neles, os versos e o engenho artístico são secundarizados em benefício de um bem maior. Esse bem maior nos propõe Frei Agostinho em cada passo, consciente, como o seu pai espiritual, São Francisco de Assis, de que a criatura só tem valor porque espelha o Criador e a pintura só merece ser salvaguardada porque nos aponta o seu supremo Pintor. Professor da cruz, como bem viu Daniel Faria, é também ele (discretamente) um apóstolo da Dona Pobreza. Não nos sugere, apenas, um despojamento de todo e qualquer bem material. Como se fosse o nosso diretor espiritual, propõe antes um extenso caminho de peregrinação ou de aprendizagem que conduz à pacificadora entrega das potências da alma, gerando assim a mais perfeita alegria.



Imagem "Retrato de Frei Agostinho da Cruz" | Lima de Freitas | 1963 | D.R.

 

Ruy Ventura
Versão reduzida do prefácio da antologia poética de Frei Agostinho da Cruz, editada pela Licorne, de Évora, no âmbito das comemorações centenárias
Imagem: "Retrato de Frei Agostinho da Cruz" (det.) | Lima de Freitas | 1963 | D.R.
Publicado em 15.03.2019

 

 
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