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Papa Francisco aos 84 anos: A paixão do Evangelho

Amanhã, 17 de dezembro, o papa Francisco conta os seus anos, oitenta e quatro. Muitos para um homem e para um papa com uma missão extraordinária, que se estende a todo o planeta, e é sinal de comunhão para mil milhões de católicos.

Há mais de sete anos é bispo de Roma, e conhecemos bem os traços do seu ministério petrino. Os últimos papas foram diferentes entre eles pelo estilo, teologia, carácter humano, mas Francisco, desde o início, surpreendeu e escandalizou muitos na Igreja, e despertou interesse e escuta em quem se sente “fora” ou nutre desconfiança em relação à religião.

Temos de o reconhecer: ele é um sinal de contradição numa Igreja que, sobretudo no mundo ocidental, atravessa uma crise entre as mais profundas da sua história. Sem esquecer a complexidade da atual situação eclesial, é possível dar uma resposta sintética ao porquê desta polarização em torno a Francisco?

Desde que o papa mostrou sinais da direção de um primado absoluto atribuído ao Evangelho sobre toda a realidade católica, escrevi que iria desencadear os poderes inimigos; estes, encostados à parede, reagiriam gerando uma situação na qual o papa, por necessidade humana e divina, só poderia sofrer rejeição, deslegitimação e acusações. E assim foi.



Quando Francisco pronuncia as homilias, sente-se nas suas palavras a paixão do Evangelho, e percebe-se que, para ele, o Evangelho é vida, não ideologia



O que em Francisco provoca mal-estar é resumido em dois pontos sobre os quais ele insiste com veemência: a misericórdia, que é considerada nociva à Igreja como instituição e à vida cristã, e a presença dos pobres, dos «descartados», dos imigrantes, dos invisíveis, ou melhor, daqueles que não se querem ver.

O papa Francisco é um conservador, e não pode ser de outra forma para um homem da sua idade, a sua linguagem é muitas vezes desusada. Por exemplo, quando evoca entre os sinais dos tempos a figura da mulher, concretiza-o pagando o débito à cultura que o formou, hoje superada.

A sua moral é a da tradição cristã, mas é verdade que para ele Jesus Cristo não é, antes de tudo, uma doutrina, uma moral, mas vida. Para ele, converter-se ao cristianismo significa “converter-se à vida”, segundo a bela definição da conversão presente nos Atos dos Apóstolos. E quem se converteu à vida, vive de misericórdia pelos pecadores, de amor pelos pobres.

Quando Francisco pronuncia as homilias, sente-se nas suas palavras a paixão do Evangelho, e percebe-se que, para ele, o Evangelho é vida, não ideologia. Isto não é fácil de acolher, por parte dos “devotos”. Mas um pastor da Igreja deve ser dotado de firmeza na fé, discernimento e misericórdia: nada mais!

Não sou um louvador de Francisco, e, por vezes, fico perplexo em relação a alguns resultados do seu discernimento, no qual, aliás, como jesuíta, está exercitado. Mas o discernimento não é infalível, e mesmo o sucessor de Pedro, por vezes, pode falhar.

Em todo o caso, estou convicto de que o papa Francisco não será recordado por reformas das quais só vemos o esboço, o início de um processo, mas pelo primado conferido ao Evangelho como palavra viva que julga toda a realidade eclesial, religiosa e mundana.


 

Enzo Bianchi
In lI Blog di Enzo Bianchi
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Papa Francisco | D.R.
Publicado em 16.12.2020 | Atualizado em 17.12.2020

 

 
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