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P. Stan Swamy: «O custo do discipulado»

«O custo do discipulado.» Foi assim que o P. Stan Swamy concluiu a reflexão sobre a ação social dos Jesuítas entre os povos indígenas da Índia central, publicada em 2019 na revista “Promotio Iustitiae”. Estava consciente de que falava na primeira pessoa. Nas quatro décadas ao lado dos adivasi de Jharkhand teve de suportar calúnias, incompreensões, ameaças. O cerco apertou-se mais após 2006, quando o religioso fundou o “Bagaicha”, centro para a defesa dos direitos dos nativos, expropriados em massa das suas terras por multinacionais de mineração.

Com a chegada ao governo do ultranacionalista Narendra Modi, em 2014, ficou com a corda ao pescoço. Com base no draconiano “Unlawful activities prevention act”, milhares de adivasi e ativistas pelos direitos humanos foram presos sem provas sob a acusação de «terrorismo». A 8 de outubro o mesmo destino tocou ao incómodo P. Stan.

«O custo do discipulado.» Nestas palavras encerra-se o sentido da sua vida. E da sua morte, ocorrida às 13h30 de domingo, 4 de julho, no hospital Sagrada Família de Mumbai, onde tinha chegado, no limite das forças, a 29 de maio.

Aos 84 anos, o P. Stan foi prostrado pela Covid, de que tinha mostrado sintomas claros nas semanas anteriores. Mas sobretudo estava alquebrado pela reclusão no cárcere de Taloja, onde permaneceu 233 dias e noites, apesar da idade avançada e da doença de Parkinson. Declarou-o, com um fio de voz, o próprio religioso na última audiência em tribunal, a 21 de maio.

Na transmissão por vídeo, o seu rosto estava escavado e pálido. Os olhos, porém, emanavam a mesma força carismática se sempre, enquanto sussurrava: «Já não posso escrever, passear ou comer sozinho. (…) A única coisa que vos peço é que me concedam a liberdade sob fiança». A resposta do juiz foi implacável. Não foi a primeira vez que um tribunal indiano recusava conceder a condicional ou, pelo menos, as detenções domiciliárias ao jesuíta. Foi, no entanto, a última. A nova audiência, prevista para hoje, não acontecerá.



«Quando lhe disse que nos batíamos e rezávamos pela sua libertação, respondeu-me: “Não só por mim. Por todos. Por todos aqueles que estão encarcerados injustamente”»



À mesma hora, na igreja de Bandra, próxima do hospital, será celebrada uma missa fúnebre. Depois o corpo de Stan voltará a Ranchi, Jharkhand. Finallmente. O desejo de regressar “a casa”, para cuidar dos «amigos adivasi», como lhes chamava, era o grande desejo do religioso.

Sabia que sem a sua voz profética, a sua batalha não violenta pela justiça, a sua coragem evangélica, os indígenas teriam ficado ainda mais frágeis perante a avidez dos poderosos. Sabia também, todavia, que um grão de trigo não morre em vão. Os rebentos já despontaram nestes meses, com o trabalho de PM Tony, que tomou o lugar de Stan no centro “Bagaicha”.E com o compromisso, reiterado ontem pela Companhia de Jesus, de levar por diante o empenho do seu confrade em favor da reconciliação e da justiça.

A inspiração do P. Stan “transbordou” – para o dizer com o papa Francisco – dos confins da Igreja. Muitíssimas mulheres e homens de múltiplos credos, de variadas partes do mundo, fizeram chegar uma memória, virtual ou real, através das redes dos Jesuítas. Stan, testemunha fiel até à morte de Cristo e paladino da ecologia integral, está vivo. Nem o sistema judicial, nem as falsas acusações, nem a doença puderam matar um pássaro que conseguia cantar mesmo atrás das grades, para parafrasear uma sua poesia que oferecia esperança aos outros reclusos.

Até ao último momento pensou neles, pondo-se em segundo plano. Testemunha-o o amigo e confrade Xavier Jeyaraj, secretário para a justiça social e a ecologia da Companhia. Os dois encontraram-se, por videochamada, a 20 de junho. «Stan estava estendido no leito, não podia erguer-se, estava fraquíssimo. Ainda assim reconheceu-me de imediato, sorriu e balbuciou: “Voltei a ser uma criança antes do fim”. Quando lhe disse que nos batíamos e rezávamos pela sua libertação, respondeu-me: “Não só por mim. Por todos. Por todos aqueles que estão encarcerados injustamente. Eu sou apenas um de muitos».


 

Lucia Capuzzi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: P. Stan Swamy | D.R.
Publicado em 06.07.2021

 

 
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