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Os jovens e a Igreja de Francisco

Enquanto que um padre, revestido pela sua couraça litúrgica, o aspersório como espada, abençoava, na Polónia, o fogo que queimava os romances de Harry Potter e as bolsas da Hello Kitty, Jorge Mário Bergoglio aprestava-se a publicar a sua exortação apostólica em forma de carta aos jovens “Cristo vive”. Aconteceu ontem [anteontem].

Em Gdansk, um sabat de purificação por cristãos com o pesadelo da realidade. Em Roma, um papa que não quer ver uma Igreja sempre em guerra por dois ou três temas que o obcequem.

O contraponto é dramático. Por um lado, há uma Igreja que pede para ser deixada em paz pela história e constrói fortalezas. Por outro, uma Igreja que se deixa interpelar, inclusive por Harry Potter, escuta, não se defende, não impõe, antes é curiosa por uma realidade que outros quereriam profundamente diferente.

Qual é a Igreja que Francisco narra na exortação apostólica? Não há uma geração que arrisca mais. É o mundo inteiro e a história, todas as gerações juntas, que arriscam a pele se a Igreja perder o Evangelho nas ruas, se se tornar velha e transformar-se num museu de ritos e rostos de cera.

Não se trata de uma questão de biodiversidade religiosa. O papa, que quer uma Igreja em saída das suas certezas antigas, menos burocrática, mais pobre, talvez mais humana, seguramente menos ligada ao poder, escreveu uma carta aos jovens para falar a todos, leigos e eclesiásticos, crentes e não crentes. Endereçou-a ao povo de Deus, muitas vezes inconsciente de o ser, que todavia Deus não esquece, nem sequer quando decide venerar os bezerros de ouro.

Bergoglio escreveu uma carta sobre a Igreja em forma de carta aos jovens para convidar a Igreja a ousar, a arriscar, sem temer cometer erros. Aos jovens pede mais empenho: não deixar de soprar no apito para assinalar as faltas.



O papa aposta no seu papel porque não acredita que seja uma geração sem Deus ou incrédula. Pode ser que o fio espiritual seja fino, esteja fraco. E escreve para o reforçar, declinando-o através das gerações



Não o faz por astúcia tática, não lhes escreve por ter necessidade de um aliado na sua batalha anti-sistema na Igreja e no palco do mundo global. Não contrapõe jovens e anciãos, progresso e tradição.

Há uma imagem belíssima no texto. Tinha-a proposta ao sínodo sobre os jovens um participante vindo das ilhas Samoa. Begoglio faz dela um ícone. A Igreja como uma canoa, onde os jovens remam e os anciãos que conhecem as estrelas mantêm a rota.

Hoje não são só os jovens a pedir à Igreja para ser mais fiel ao Evangelho. A chave da renovação da Igreja e da sua correspondência mais transparente à Palavra de Deus está numa comunicação mais eficaz entre as gerações.

Os mais jovens têm maior predisposição para o estímulo e para a provocação, por vezes necessárias. Têm mais recursos para estar no mundo sem serem esmagados, têm mais criatividade e fantasia. Talvez sejam mais geniais.

O papa aposta no seu papel porque não acredita que seja uma geração sem Deus ou incrédula. Pode ser que o fio espiritual seja fino, esteja fraco. E escreve para o reforçar, declinando-o através das gerações.

Missão impossível? Não. Complicada, seguramente, mas como foi a vida da família de Nazaré e a de Jesus. Basta não se fechar nas fortalezas das certezas ou abençoar chamas purificadoras, ou erguer barreiras doutrinais em defesa daquilo que é considerado erro pela cultura exterior.

Bergoglio não pretende robustecer pertenças identitárias, nem organizar pastorais juvenis como se fossem treinos de fuzileiros. Fá-lo apenas porque alguém deve correr sempre mais depressa e estar mais à frente. As intuições fizeram sempre a diferença. E, escreve o papa nas últimas linhas, «quando tiverdes chegado onde nós ainda não chegámos, tende a paciência de nos esperar».


 

Alberto Bobbio
In Eco di Bergamo
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: L'Osservatore Romano | D.R.
Publicado em 04.04.2019

 

 
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