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O mundo precisa de concertos

No princípio foi o Concerto para o Bangladesh. O evento imaginado e realizado por George Harrison e Ravi Shankar há cinquenta anos foi o primeiro fundamental capítulo de um alonga história de exibições com objetivos de beneficência organizados por múltiplos personagens do universo da música popular capazes de envolver e mobilizar estrelas internacionais.

Mas há também um prólogo das manifestações de “charity rock”, no qual se assinalam antes de tudo iniciativas isoladas e pessoais, como aquelas – só para dar um exemplo, ainda que muito ilustrativo – de Elvis Presley, que em 1956 doa toda o montante ganho com dois concertos realizados na cidade natal de Tupelo (10 mil dólares), e a 25 de fevereiro de 1961, de regresso do serviço militar, distribui o encaixe de uma atuação ao vivo em Memphis (50 mil dólares) a 26 instituições de assistência.

Depois, ao longo dos anos 60, esses eventos musicais começam a assumir consistência e reconhecimento, ligando-se a projetos solidários amplamente partilhados por organizadores, artistas e público.

Não se podem interpretar corretamente as origens do fenómeno dos concertos de beneficência – e em geral dos “happening” com propósitos sociais e políticos – se não os lermos, como, de resto, é oportuno fazer para todos os espetáculos musicais pop-rock da época, à luz dos impulsos idealistas e solidários, das visões utópicas, dos sonhos revolucionários e de transformações radicais gerados pelas culturas juvenis dos “sixties”.



Será preciso esperar por 1985 para assistir a algo que com aquele acontecimento arquetípico, salvaguardadas as devidas e necessárias distinções, tenha uma relação substancial, ou seja, o “Live aid”, a “jukebox” global fabricada pelo cantor e ativista irlandês Bob Geldof



Os jovens que atravessam aquela década com o coração repleno de símbolos procuram sobretudo na música a possibilidade concreta de viver comunitariamente a experiência da “promised land” rumo à qual se sentem destinados a guiar o mundo. Festivais de rock como o de Monterey, em junho de 1967, ou, com todas as suas contradições e ambiguidades, o de Woodstock, de agosto de 1969, representam as expressões mais emblemáticas deste difuso sentimento geracional.

A esta dimensão de rito coletivo pertencem as atuações beneficentes que se concretizam naqueles anos, como – sempre a título meramente exemplificativo – aquela que a 2 de abril de 1966 vê Otis Redding, Donovan, The Mamas & the Papas, entre outros, exibirem-se num concerto no Hollywood Bowl de Los Angeles, em favor do Braille Institute of America. Ou os concertos realizados em 1968 em Nova Iorque e Los Angeles em memória de Woody Guthrie (entre os artistas presentes estiveram Bob Dylan, Pete Seeger, Richie Havens, Ramblin’ Jack Elliott, Judy Collins, Joan Baez e Odetta), cujos lucros serviram para realizar uma biblioteca na terra natal do cantor de folk e para financiar as investigações sobre a doença de Huntington.

O que sucede a 1 de agosto de 1971 no Madison Square Garden de Nova Iorque, graças ao empreendedorismo visionário do ex-Beatle, não tem, todavia, comparação em termos de comparação e encontro internacional com o que de análogo aconteceu antes. E será preciso esperar por 1985 para assistir a algo que com aquele acontecimento arquetípico, salvaguardadas as devidas e necessárias distinções, tenha uma relação substancial, ou seja, o “Live aid”, a “jukebox” global fabricada pelo cantor e ativista irlandês Bob Geldof.



O inesperado sucesso planetário da música – oito milhões de libras esterlinas de lucro, o “single” mais vendido da história da música inglesa – e o de “We are the world”, composto por Michael Jackson e Lionel Richie, e gravado em 1985 por mais de quarenta estrelas rock congregadas na superbanda USA for Africa, impelem Geldof a imaginar uma imponente atuação ao vido dos mais eminentes personagens internacionais da pop e do rock



Nos anos decorridos entre a manifestação orquestrada por Harrison e aquela construída por Geldof os “happening” rock com objetivos caritativos multiplicaram-se (assim como os concertos com finalidade de denúncia mais decididamente social e política, embora se tratando muitas vezes de distinções dificilmente determináveis com exatidão). Basta recordar a atuação no Madison Square Garden dos Sha-Na-Na, de Stevie Wonder e Roberta Flack, num espetáculo organizado em 1972 por John Lennon e Yoko Ono para recolher fundos em favor de uma associação para crianças com deficiência; ou o concerto dos Rolling Stones em janeiro de 1973 em Inglewood, na Califórnia, em favor da Nicarágua, abalada por um forte terramoto; ou o evento que em 1974 vê os “Friends of Chile” Pete Seeger, Bob Dylan, Phil Ochs e Arlo Guthrie tocar no palco do Felt Forum de Nova Iorque para auxiliar as necessidades das vítimas do golpe de Estado de Pinochet; ou o concerto de recolha de fundos para a UNICEF intitulado “A gift of song”, a 9 de janeiro de 1979 na sede da ONU em Nova Iorque (entre os participantes: Abba, Bee Gees, Kris Kristofferson, Rod Stewart, John Denver); e, no mesmo ano, também na “big apple”, a manifestação denominada “No nukes”, contra as instalações das centrais nucleares, com a memorável atuação de Bruce Springsteen e da E-Street Band (está prevista a saída do filme de Thom Zimny “The legendary 1979 No nukes concert”, que documenta a performance do “Boss” nessa ocasião).

Na metade dos anos 80 o entendimento “existencial” entre os artistas rock e o público vai enfraquecendo, por causa das «contradições e múltiplas dinâmicas da década», explicam Ernesto Assante e Gino Castaldo no livro “Blues, jazz, rock, pop”: «O pop de consumo tornou-se marcadamente industrial, o aspeto prevalece sobre os conteúdos, os “videoclip” secam, aplanam, uniformizam gostos e tendências da cultura juvenil, transformou toda uma geração de músicos em estrelas plastificadas. (...) Era preciso estabelecer uma nova aliança e, como por encanto, chegou o evento capaz de realizar o milagre, mesmo se ninguém, poucos dias antes de 13 de julho de 1985, poderia pressagiar um sucesso tão clamoroso».



Ninguém pode, naturalmente, ser juiz das intenções, isto é, avaliar incontestavelmente se o copioso compromisso naqueles eventos foi o resultado de meros cálculos com vista ao negócio ou de um desinteressado envolvimento das estrelas de rock nos problemas que se pretendiam resolver



Bob Geldof retomou o discurso público iniciado muitos anos antes por George Harrison com o Concerto para o Bangladesh. A “grande mobilização” em socorro da população etíope atingida por uma devastadora carestia e oprimida por gravíssimas condições de indigência começa oficialmente a 3 de dezembro de 1984 com a publicação da canção “Do they konw it’s Christmas?”, gravada pelo supergrupo britâncio-irlandês Band Aid, reunido pelo mesmo Geldof e pelo cantautor escocês Midge Ure. O inesperado sucesso planetário da música – oito milhões de libras esterlinas de lucro, o “single” mais vendido da história da música inglesa – e o de “We are the world”, composto por Michael Jackson e Lionel Richie, e gravado em 1985 por mais de quarenta estrelas rock congregadas na superbanda USA for Africa, impelem Geldof a imaginar uma imponente atuação ao vido dos mais eminentes personagens internacionais da pop e do rock. Observa, Assante e Castalfo: «Uma causa muito honrosa e um bom ritmo de imagens convenceram artistas de vária condição a participar no maior evento rock realizado».

O sucesso planetário do “Live aid” passou à história. Mil milhões e meio de pessoas espalhadas em 160 países seguem ao vivo pela televisão os concertos no estádio Wembley de Londres e no estádio JFK de Filadélfia. A “jukebox” global angloamericana encaixa, segundo algumas estimativas, 150 milhões de libras esterlinas. Os dois espetáculos veem desfilar velhas e novas bandas – como The Who, Crosby, Stills, Nash & Young, The Beach Boys, Led Zeppelin, Dire Straits, U2 e Queen – e artistas do calibre de David Bowie, Elton John, Paul McCartney, Elvis Costello, Mick Jagger, Ron Wood, Tina Turner, Sting, Madonna, Bob Dylan, B.B King, Phil Collins (que, graças a um voo no Concorde, participa em ambos os concertos). «O efeito psicológico foi o de um inesperado despertar», explicam Assante e Castaldo: «Os artistas de rock tinham reencontrado o caminho para voltar a ocupar-se ativamente dos males que afligiam o mundo, e pela primeira vez com uma visão “global” que olhava para os cantos escondidos do planeta. (...) A diferença com os anos 60 e 70 é que enquanto naquelas décadas o impulso para o compromisso vinha de baixo, partia das ruas, das universidades, dos jovens, estas novas manifestações, os concertos, são fruto do compromisso direto dos artistas, nascem de uma sua necessidade vital e expressiva, levam ao cumprimento, em alguns casos, um natural percurso pessoal».



Hoje, obviamente, à emergência dos últimos dois anos não escapa o mundo do espetáculo, entre os setores mais atingidos pela crise pandémica por causa da suspensão das atuações ao vivo. Entre os inumeráveis concertos virtuais organizados em todo o planeta neste dramático período não faltaram os de beneficência, como – um exemplo para todos – o espetáculo “One world: Together at home”, em favor da OMS



Ninguém pode, naturalmente, ser juiz das intenções, isto é, avaliar incontestavelmente se o copioso compromisso naqueles eventos foi o resultado de meros cálculos com vista ao negócio ou de um desinteressado envolvimento das estrelas de rock nos problemas que se pretendiam resolver. Provavelmente, em média, trata-se de uma equilibrada mistura entre um e outro ingrediente.

Desde então, os “benefit concerts” multiplicaram-se. É difícil apresentar um quadro completo. Recordemos o “Farm aid” em socorro dos agricultores dos EUA (mais de trinta edições, em vários estados, a partir de 1985, com a edição de 2021 programada para 25 de setembro); a “Conspiracy of hope tour” (seis atuações nos EUA entre 4 e 15 de junho de 1986 em favor da Amnistia Internacional); o “Human rights now!” (“tour” mundial em 1988, seis semanas de concertos, também para apoiar a Amnistia Internacional); o “Live 8” (desde 2005, onze concertos simultâneos noutras tantas cidades do planeta para persuadir os governos membros do G8 a combater radicalmente a pobreza nos países do terceiro mundo, com supervisão, mais uma vez, de Bob Geldof). E a mesma dinâmica em muitos outros países, com múltiplos objetivos: por exemplo, a eliminação da dívida dos países pobres, o fim das campanhas militares, o apoio às políticas protetoras do ambiente.

Hoje, obviamente, à emergência dos últimos dois anos não escapa o mundo do espetáculo, entre os setores mais atingidos pela crise pandémica por causa da suspensão das atuações ao vivo. Entre os inumeráveis concertos virtuais organizados em todo o planeta neste dramático período não faltaram os de beneficência, como – um exemplo para todos – o espetáculo “One world: Together at home”, em favor da OMS, transmitido a 18 de abril de 2020 em plataformas sociais (entre os artistas: Lady Gaga, Rolling Stones, Elton John, Paul McCartney, Stevie Wonder, Jennifer Lopez, Eddie Vedder, Céline Dion, Chris Martin, John Legend, Taylor Swift, Andrea Bocelli).


 

Paolo Mattei
In L'Osservatore Romano
Publicado em 31.07.2021 | Atualizado em 08.10.2023

 

 
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