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Música para abrir os olhos

Nunca acontecera antes que uma estrela, melhor, uma superestrela, do rock tivesse decidido colocar a sua música e a sua influência ao serviço de uma causa nobre. Era o ano de 1971 e no mundo, muito longe da hiperconexão de hoje, circulavam, não sem dificuldade, as imagens de refugiados vítimas da guerra e das inundações que flagelavam o Bangladesh. Falava-se de uma milhão de pessoas obrigadas a fugir para a Índia para escapar às violências do conflito do Paquistão e das devastações causadas melas chuvas das monções.

O Ocidente do pós-boom económico, rico e à beira de se desinteressar, após os anos da contestação pacifista, mal se dá conta da longínqua tragédia, que todavia vai ser prepotentemente trazida à ribalta graças à iniciativa de George Harrison, guitarrista e “terceiro compositor” dos Beatles.

Seria oportuno refletir sobre uma sociedade que para se dar conta do próximo em sofrimento precisa das indicações da celebridade de turno, mas é um facto que o Concerto para o Bangladesh, no Madison Square Garden de Nova Iorque no primeiro de agosto de há cinquenta anos, inaugurou uma série de espetáculos beneficentes que de vez em quanto viram os músicos de rock empenharem-se para combater a fome em África, o apartheid na África do Sul ou a crise económica e alimentar no Camboja.



Através de George Harrison, profundamente atraído pela espiritualidade e cultura indiana, o som do sitar e da tabla torna-se familiar também na América e na Europa. E com eles um género de desenvolvimento musical que não busca um procedimento linear (estrofe, refrão, estrofe), mas difunde-se em todas as direções



Certamente que, há meio século, quando Harrison – seguindo a sugestão de Ravi Shankar, seu amigo e mestre de sitar de origem bengalesa – decide organizar o evento, não podia imaginar que haveria de deixar um sinal tão profundo. Logo ele, que nos Beatles tinha tido sempre dificuldade em retalhar-se um espaço, apertado como estava entre Lennon e McCartney. Talvez George não fosse levado demasiado a sério pelos seus companheiros porque era o mais jovem, ou talvez porque o seu carácter era muito esquivo, ainda que, a espaços, fosse dotado de uma ironia verdadeiramente cáustica.

No entanto, na alma do “quiet Beatle” incubava-se um fogo criativo absolutamente nada banal, capaz de forjar pequenas obras-primas, como “Here comes the sun” ou “Something”, e sobretudo de explorar novos territórios sonoroso, como a eletrónica e a música indiana, que, vale a pena sublinhá-lo, à época era totalmente desconhecida no Ocidente.

Através de George Harrison, profundamente atraído pela espiritualidade e cultura indiana, o som do sitar e da tabla torna-se familiar também na América e na Europa. E com eles um género de desenvolvimento musical que não busca um procedimento linear (estrofe, refrão, estrofe), mas difunde-se em todas as direções, partindo de um centro estável, um pouco como as ondas causadas por uma pedra lançada a um charco.

Através de Harrison, a música indiana torna-se de tal maneira popular, que a primeira fachada do triplo álbum em que foi registado o Concerto para o Bangladesh (que na realidade era composto por dois espetáculos, um realizado às duas da tarde e outro às oito da noite) foi inteiramente ocupada por uma longa atuação de Ravi Shankar. Experimente imaginar o efeito que teria agora a música de um idoso senhor indiano em milhares de jovens que esperam, impacientes, dar hossanas ao seu ídolo rock. Eram realmente outros tempos, nem melhores nem piores, somente diferentes, e mais inclinados para a escuta do que para o consumo, ainda que a música pop fosse já capaz de mover avalanchas de dinheiro.










Através de Harrison, a música indiana torna-se de tal maneira popular, que a primeira fachada do triplo álbum em que foi registado o Concerto para o Bangladesh (que na realidade era composto por dois espetáculos, um realizado às duas da tarde e outro às oito da noite) foi inteiramente ocupada por uma longa atuação de Ravi Shankar. Experimente imaginar o efeito que teria agora a música de um idoso senhor indiano em milhares de jovens que esperam, impacientes, dar hossanas ao seu ídolo rock. Eram realmente outros tempos, nem melhores nem piores, somente diferentes, e mais inclinados para a escuta do que para o consumo, ainda que a música pop fosse já capaz de mover avalanchas de dinheiro.

Graças a Harrison, pelo menos uma parte do dinheiro chegou às populações do Bangladesh. Com os dois concertos, aos quais assistiram no total 40 mil pessoas, foram imediatamente enviados para o subcontinente indiano, através da UNICEF, 250 mil dólares. Nos anos seguintes, e apesar dos entraves fiscais, o montante levedou até ultrapassar 12 milhões de dólares, provenientes da venda do álbum e dos direitos ligados à exibição do filme.

No seu pequeno-grande empreendimento, o ex-guitarrista dos Beatlhes estava em boa companhia: um nutrido alinhamento de músicos participou nos dois concertos. Mérito (ou culpa, dependendo dos pontos de vista) do produtor Phil Spector, fautor do denominado “wall of sound”, que, após ter enchido de estuques e ouropel barrocos o último disco dos quatro de Liverpool, é chamado por Harrison, que se preparava para desenformar “All things must pass”.



Continua a provocar arrepios escutar Dylan que declama os versos amargos e intimistas de “Just like a woman” ou os obsessivos e inquietantes de “A hard rain’s a-gonna fall”



Na ideia de Spector, para desenvolver um nível sonoro “aceitável” era necessário um número de executantes que hoje seria considerado, para dizer pouco, exagerado. Ao palco chegaram a exibir-se simultaneamente 26 artistas, entre instrumentistas e cantores. Um verdadeiro inferno para os técnicos de som e para os “roadies”, que tinham de montar e desmontar a amplificação. Paul McCartney e John Lennon ão participaram, o segundo porque, parece, não estava disposto a cantar sem a adorada Yoko Ono.

Mas junto a Harrison estavam músicos do calibre de Eric Clapton, Ringo Starr, Billy Preston (que anos antes tinha tocado com os Beatles no célebre “concerto do terraço), os Badfinger e Leon Russell (um pianista e cantor de voz semelhante à de Mick Jagger e de longuíssimos cabelos). Todos juntos, à exceção de algumas raras incursões solistas (de destacar “It don’t come esay”, de Ringo, e “That’s the way God planned it”, de Billy Preston), repropuseram grande parte do repertório de Harrison com os Beatles e alguns sucessos extraídos de “All things must pass”.

Mas quem atraiu as atenções foi sobretudo ele, “mister” Bob Dylan, que a amizade com Harrison consegue subtrair a uma espécie de auto-exílio. O testemunho discográfico dos dois espetáculos de um Dylan ainda inclinado para uma vocalidade aberta e compartilhada é um dos momentos mais altos do álbum, e talvez de todos os discos ao vivo que, a partir daquele momento, se sucederam no mercado. Continua a provocar arrepios escutar Dylan que declama os versos amargos e intimistas de “Just like a woman” ou os obsessivos e inquietantes de “A hard rain’s a-gonna fall”.

Passaram cinquenta anos, mas as duras bátegas continuam a cair, talvez muito mais do que em 1971, como bem sabem os milhões de refugiados que a cada dia são obrigados a fugir das guerras e das devastações climáticas. Uma canção não servirá, decerto, para mudas as coisas, mas hoje como então pode servir para fazer abrir os olhos e os corações.









 

Giuseppe Fiorentino
In Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 31.07.2021

 

 
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