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O aviso sério que vem dos EUA: Trapacear as regras desacredita

A equipa eleitoral de Trump multiplica os apelos e recursos para deter contagens e contas, enquanto o presidente dos EUA fala de fraudes e preferências roubadas. Depois anuncia que vai abrir contenciosos legais em cada Estado no qual será atribuída a vitória a Biden. Ao mesmo tempo, representantes especiais do Partido Republicano obtêm permissão para supervisionar a abertura dos últimos boletins em Filadélfia. E os observadores da OSCE acusam o próprio chefe da Casa Branca de «evidente abuso de poder» por causa das suas declarações que visam minar a regularidade do processo eleitoral.

Poucas horas antes, a embaixada americana na Costa do Marfim dirigia-se ao líder do país sacudido por tumultos após a contestada votação de domingo para convidar a respeitar as regras e o estado de direito. Fórmulas e convites habituais, que uma forte e influente democracia endereça habitualmente aos países que ainda tropeçam nesse âmbito. Como a Bielorrússia, por exemplo: os EUA não reconhecem a reeleição de Lukashenko, que conduziu à revolta no país.

O risco nestas horas convulsas é que a própria América se transforme numa nação em que se esboroa a certeza dos resultados saídos das urnas e se enfraquece a confiança na libre e transparente expressão do consenso e na sua fiel tradução em assentos e cargos. A sombra de complôs e de intrusos que se instalam sem título nem mandato nas cadeiras mais altas graças à fraude parece de tal maneira incrível, que alguns “tweets” não serão suficientes para os tornar consistentes. Mas se o presidente em funções e o Partido Republicano insistirem na oposição a todo o custo ao sucesso de Joe Biden, isso terá consequências perniciosas e invasivas.



Sem uma mínima partilha e sem respeito pelos procedimentos e garantias, abre-se a porta à confusão e à anarquia, ou ao arbítrio de um autocrata (muitas vezes o segundo é invocado quando os primeiros estão esgotados)



Lendo com atenção as sondagens feitas à saída das urnas de voto pela CNN, descobrir-se-á que os apoiantes de Trump manifestavam já um ceticismo muito mais elevado do que os eleitores democráticos em relação ao cumprimento das regras nos procedimentos de voto. Pode imaginar-se que a pergunta foi colocada apenas como se essa possibilidade não fosse mais do que uma hipótese remota. Mas se o líder no qual se confia, num quadro político fortemente polarizado, explicita as dúvidas e, aliás, as transmuda em certezas, o cenário descrito por poucos extremistas à caça de pretextos torna-se algo de real para muitos. Com certeza que é lícito recorrer aos tribunais quando há indícios de irregularidades, e é justo ater-se às decisões dos juízes quando se exprimem a propósito (alguns vereditos têm bloqueado as contestações dos republicanos). Não é este, todavia, o problema.

A questão diz respeito à fundamentação das apelações e o tom das mensagens que se transmitem à opinião pública. Um líder político, e ainda mais um chefe de Estado, tem o dever da responsabilidade, e isto vale hoje para Trump como valeria para Biden. Demonizar o populismo com o snobismo das elites que depois esquecem a maioria das pessoas e os seus problemas reais, em favor de algumas batalhas simbólicas de minorias restritas, foi (e talvez ainda seja) o erro capital de liberais e progressistas na América e na Europa.



Em Moscovo, Pequim ou Teerão não podiam esperar mais: que coisa melhor do que a paralisia sobre os resultados, a incerteza, a batalha legal e o espetro de um presidente (qualquer que seja) enfraquecido na legitimidade e na ação do voto



Seria igualmente mortífero esquecer como também a relação direta com as pessoas, útil quando contorna e ignora as formas mais burocráticas da representação formal, não pode ficar de fora do quadro geral da democracia liberal tal como hoje a conhecemos. Os defeitos e limites desta forma de governo não autorizam ninguém a envenenar os poços da confiança de onde todos bebem. Sem uma mínima partilha e sem respeito pelos procedimentos e garantias, abre-se a porta à confusão e à anarquia, ou ao arbítrio de um autocrata (muitas vezes o segundo é invocado quando os primeiros estão esgotados). E antes desta sequência há o risco concreto de a violência chegar às praças, já tensas com mal endereçados apelos à “resistência”.

Não querendo dramatizar, o que será certamente penalizado – como outros já sublinharam – é a imagem da América no exterior e a sua capacidade de ser um modelo e interlocutor credível em contexto de ausência de respeito pelos direitos. Em Moscovo, Pequim ou Teerão não podiam esperar mais: que coisa melhor do que a paralisia sobre os resultados, a incerteza, a batalha legal e o espetro de um presidente (qualquer que seja) enfraquecido na legitimidade e na ação de um voto que, no fim de contas, muitos poderiam continuar a considerar nem regular nem correto.

Não é só culpa de Trump. E há uma lição que todos podemos aprender (ainda que não a baixo preço, dado o peso e a influência que Washington tem no mundo): preservar um comum sentir em torno aos valores e às regras de base que todos podemos partilhar é um tesouro muito precioso, um capital muito difícil de reconstruir, que nenhuma razão contingente deveria induzir a delapidar.


 

Andrea Lavazza
Docente de Ciências Cognitivas, investigador em Neuroética
In Avvenire
Imagem: Paitoon Pornsuksomboon/Bigstock.com
Publicado em 06.11.2020

 

 
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