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O alcance cultural do I Concílio Ecuménico de Niceia

Niceia é uma cidade da Bitínia (hoje Íznik, na Turquia), fundada, segundo a lenda, por Dionísio. Niceia tornou-se romana em 72 a.C., no final da guerra contra o rei Mitríades vencido pelo general romano Pompeu Magno. É uma cidade de antiga cristianização, de onde provêm mais de uma dezena de mártires das perseguições dos séculos III e IV, como S. Zenão (séc. III) e S. Neófito (séc. IV), entre outros.

 

Após a sua vitória sobre Licínio, imperador do Oriente, em Setembro de 324, Constantino tentou por todos os meios dissipar as disputas entre os bispos orientais, como já havia tentado fazer no Ocidente, em relação ao cisma donatista, promovendo os sínodos de Roma (311) e Arles (314). Assim, a partir do outono de 324, convocou os bispos para um sínodo, semelhante aos comitia (assembleias populares da Roma antiga) dos ordenamentos civis do império, primeiro em Ancira (hoje Ancara, na Turquia) e, depois, por motivos de conveniência, em Niceia, nas imediações da sua residência imperial de Nicomédia.

O objectivo principal do concílio era duplo: resolver a questão ariana e resolver a questão pascal.

Constantino inaugurou o seu concílio a 20 de Maio de 325, no dia seguinte às celebrações da sua vitória sobre Licínio, celebradas em Nicomédia. Os padres sinodais estavam todos presentes em Niceia já há alguns dias. Após um discurso de boas-vindas do imperador, proferido em latim, os primeiros a falar foram os simpatizantes de Ário, propondo uma formulação de fé lida por Eusébio de Nicomédia, que foi, porém, rejeitada.

Eusébio de Cesareia apresentou então a sua fórmula de fé, a título pessoal, para se livrar da suspeita de heresia, que há alguns meses recaía sobre ele por uma censura do sínodo de Antioquia, mas também para ajudar os padres conciliares a encontrar uma fórmula de fé conveniente para todos.

Como Atanásio de Alexandria contará 25 anos depois na carta De decretis Nicaenae synodi, as discussões do concílio de Niceia foram longas e laboriosas. Com adições sucessivas, as fórmulas tradicionais do símbolo em sentido anti-ariano foram aperfeiçoadas, até que se inseriu o atributo homoousios, «consubstancial», para qualificar a unidade da essência do Pai e do Filho.

Não sabemos quem tomou a iniciativa de propor esta inserção, que se tornaria a pedra de toque da ortodoxia nicena.

No final dos debates, apenas Ário e dois bispos se recusaram a assinar. Foram excomungados, os dois bispos depostos e todos os três exilados na Ilíria. Três meses após o concílio, Eusébio de Nicomédia também seria exilado.

A originalidade polémica da «fé de Niceia» está nestas palavras: «da substância do Pai» e «Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai». Esta forma de definir a divindade de Cristo era particularmente próxima da posição de Alexandre de Alexandria, sem, no entanto, reproduzir literalmente os enunciados da sua teologia. Nem Alexandre, nem depois Atanásio, parecem ter usado a palavra homoousios, que para a grande maioria dos bispos orientais se tornara fonte de dificuldade doutrinária, embora condenassem Ário.

Os desenvolvimentos políticos da chamada «crise ariana» levaram, dentro desse episcopado, a uma oposição a Niceia, que durou abertamente até ao início do reinado de Teodósio I e até à celebração do I Concílio de Constantinopla (381).

Entre os decretos disciplinares de Niceia, o mais importante diz respeito à data da celebração da Páscoa, segundo o costume romano e segundo o costume alexandrino, ou seja, no domingo imediatamente seguinte à primeira lua cheia após o equinócio da primavera. A tarefa dos cálculos astronómicos necessários foi confiada à sede de Alexandria.

Os cânones de Niceia, em número de vinte, referem as estruturas da Igreja (cânones 4-7, 15, 16), do clero (cânones 1-3, 9, 10, 17), a penitência pública (cânones 11-14), a readmissão dos cismáticos e dos hereges (cânone 19) e, finalmente, apresentam normas sobre a liturgia (cânones 18 e 20).

O imperador encerrou o concílio, do qual assumira pessoalmente a presidência de honra durante as principais sessões, com um banquete e com a oferta de presentes aos padres, no âmbito das festas organizadas, a partir de 25 de Julho de 325, por ocasião do seu vigésimo aniversário (tornara-se César com cerca de 36 anos, em 25 de Julho de 306).

O pleno significado eclesial deste primeiro concílio ecuménico foi-se esclarecendo entre os principais responsáveis da Igreja pouco a pouco, ao longo do século IV.

A «fé de Niceia» irá permanecer a regra dogmática invocada por todos os outros concílios ecuménicos da Igreja antiga. (*1*)

 

O 1700º aniversário do Concílio Ecuménico de Niceia deu origem a um valioso documento da Comissão Teológica Internacional: Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. (*2*) Este documento, promulgado no passado dia 3 de Abril, é importante por várias razões. No seu primeiro capítulo, propõe uma leitura «doxológica» do Símbolo Niceno-Constantinopolitano, que convida a celebrar juntos a «imensidão» das Pessoas divinas, de Cristo Salvador, da salvação oferecida à humanidade e da nossa vocação humana; neste contexto, insiste na ligação da Igreja com o povo da Antiga Aliança e sublinha também o alcance ecuménico do Concílio de Niceia (com o seu pedido de uma data comum para a celebração da Páscoa). No segundo capítulo, mostra como o Símbolo Niceno é fonte e alimento para a oração, a pregação, a catequese e a liturgia cristãs. No terceiro capítulo, explica em que medida o Concílio de Niceia foi um «evento» para o testemunho dado a Cristo, pela novidade introduzida no pensamento humano e pela sua dimensão especificamente eclesial. Finalmente, no último capítulo, reflecte sobre as «condições de credibilidade do mistério cristão», destacando em particular o papel da Igreja como autêntica intérprete da verdade e a sua responsabilidade de zelar pelo depósito da fé, especialmente ao serviço dos «mais pequenos».

Como se lê no documento, o Símbolo de Niceia dá assim acesso a «uma nova ontologia, com as dimensões do Deus uno e trino e do Logos encarnado» (81). Contribui também para a renovação da antropologia porque, pelo próprio facto de o homem Jesus ser o Filho de Deus, cada ser humano recebe uma nova dignidade (82). Por fim, uma vez que o Símbolo de Niceia diz que o Filho de Deus «se fez homem» e «padeceu», convida-nos a mudar a nossa compreensão da «omnipotência» do Deus uno e trino: esta omnipotência é, de facto, «idêntica ao amor que se manifestou em Jesus Cristo» (83).

Mas não é apenas o pensamento que é fertilizado dessa forma, é a cultura humana em sentido mais amplo. O uso da palavra homoousios não deve ser visto como uma simples concessão ao helenismo; mas, atesta positivamente a preocupação de alcançar uma determinada cultura — neste caso, a grega (84). A relação entre Revelação e cultura não é unidireccional: por um lado, de facto, mesmo antes de ser alcançada pela mensagem cristã, a cultura já está habitada por uma certa espera do Mistério (como reconheciam os Padres da Igreja quando falavam dos semina Verbi); por outro lado, uma vez reconhecida e acolhida a Revelação, a própria cultura contribui para enriquecer a expressão da fé, e foi precisamente isso que aconteceu com a introdução da palavra homoousios para expressar a identidade do Filho de Deus.

O documento acrescenta aqui uma importante precisão: «Nesta assunção da cultura, um lugar único e providencial deve ser reservado à relação entre a cultura hebraica e a cultura grega» (86). Esta afirmação não foi motivada apenas pelo uso da palavra homoousios em Niceia: os séculos anteriores já haviam atestado a relação entre uma e outra cultura; os próprios escritos do Novo Testamento foram redigidos em grego e, ainda antes da era cristã, a Bíblia hebraica já havia sido traduzida para esta língua. O documento reconhece, portanto, «uma dimensão fundadora neste enxerto da cultura grega na cultura hebraica» (86). Naturalmente, não esquece que o cristianismo antigo também se expressava noutras línguas, como o siríaco ou o arménio. Pelo contrário, chama a atenção para a importância da «interculturalidade». Correctamente entendida, a interculturalidade não significa nem uma simples «justaposição» de culturas nem, ao contrário, a sua «fusão num todo indistinto» (87); ela baseia-se, na verdade, no plano de Deus manifestado no evento do Pentecostes, segundo o qual os crentes de diferentes línguas recebem, através do Espírito, a comunhão em Cristo.

A referência ao Concílio de Niceia continua, no entanto, a ser essencial, não no sentido de eliminar a necessidade de expressar a fé em línguas diferentes do grego, mas no sentido de que essa mesma tradução pode inspirar-se no trabalho realizado outrora por esse Concílio: «Por um lado, há que sublinhar que foi nessas categorias gregas que a Igreja se exprimiu de forma normativa e que, por isso, elas estão para sempre ligadas ao depósito da fé. Por outro lado, porém, a Igreja pode inspirar-se nos Padres de Niceia para procurar expressões significativas da fé em diferentes línguas e contextos actuais, mantendo-se fiel aos termos daquela época e encontrando neles as suas raízes vivas» (89).

Com o Concílio de Niceia, portanto, estamos realmente perante um «evento de Sabedoria» que tem um alcance cultural e intercultural. Em consonância com o «evento Jesus Cristo» a que se refere, o Símbolo Niceno é testemunha de algo verdadeiramente novo, e é precisamente essa novidade que a expressão homoousios expressa à sua maneira.

Graças a este documento, em todo o caso, fica claro que o Símbolo Niceno, além da sua importância doutrinária e das suas implicações para a vida dos crentes, contribui para esclarecer a relação do cristianismo com a cultura grega e, através desta, a relação da Revelação cristã com as culturas do mundo. (*3*).

(*1*) Cf. M. Forlin Patrucco – Ch. Kannengiesser, Nicea, in NDPAC 2, 3486-3489.
(*2*) Comissão Teológica Internacional, Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. 1700º aniversário do Concilio Ecuménico de Niceia (325-2025), Prior Velho 2025.
(*3*) Cf. M. Fédou, Il Concilio ecumenico di Nicea evento di Sapienza, in «Osservatore Romano» 165/112 (15 Maio 2025), 7.


 

Isabel Maria Alçada Cardoso
Diretora do SNPC
Este texto foi publicado no "Observatório da Cultura" n. 27 (novembro 2025)
Imagem: Sarcófago denominado "dogmático" | 340 d.C., aprox., Museus do Vaticano | In L'Osservatore Romano
Publicado em 24.11.2025

 

 
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