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Leitura: “Nunca é tarde para começar a viver”

«O cristianismo está em crise quando os seus próprios valores (igualdade, solidariedade, individualismo, a ideia de progresso) triunfam»: assim escreve Jean-Claude Guillebaud, ensaísta citado por Joseph Ratzinger. Esta declaração vem à mente quando se termina “Nunca é tarde para começar a viver”, agradabilíssimo romance, também filosófico, do estreante escritor Richard Roper (já editor), que a editora TopSeller publicou no mês de junho em Portugal (320 páginas, 17,69€).

Mas o que é que o cristianismo “secularizado” de Guillebaud tem a ver com este romance contemporâneo inglês? Muito. O protagonista, Andrew, é um anónimo habitante de Londres, de 40 anos, solteiro, que trabalha num gabinete municipal encarregado de organizar os funerais das pessoas que morrem sós. Um fenómeno que, estando no romance, mas também nas notícias, assinala uma deriva impressionante da sociedade ocidental pós-moderna: «Nos últimos cinco anos, os funerais de pobreza aumentaram doze por cento. São cada vez mais aqueles que morrem em total solidão», diz Andrew. O noticiário confirma-o: a recente instituição de um Ministério da Solidão demonstra como o fenómeno é grave na sociedade inglesa.

Aqui e ali Roper assinala esta doença tão pós-moderna: «Andrew – escreve, descrevendo uma cena habitual num pub inglês, mas que vale, talvez, também para as nossas casas: pessoas que olham um jogo de futebol na televisão – nunca tinha visto tantas pessoas reunidas numa mesma sala, a apoiarem a mesma equipa, e no entanto tão sós». Solidão que rima com álcool, que entre as linhas de Roper escorre a rodos, banhando essa estranheza com o sentido de aparente liberdade que uma bebedeira permite.

Ao contrário, Andrew experimenta também o que quer dizer deixar de viver solitariamente: «O governo devia ter feito esta lei: a todos, uma vez por ano, caberia o direito de se poderem sentar em almofadas macias, antegostar um bom jantar à base de ravioli e vinho tinto, escutar as conversas de pessoas queridas, e sentir, mesmo que só por um breve lapso de tempo, que é importante para alguém».



Talvez o autor não tenha tido intenção, mas o final da história – a vontade de Andrew de as suas poupanças para criar algo que contribuísse para as pessoas estarem menos sozinhas na vida, e dar-lhes uma digna e mais coral saudação final – tem muito a ver com a antiga obra de misericórdia de «sepultar os mortos»



Solidão que não interessa apenas aos mortos, mas também aos vivos: Andrew vive sozinho, só com os seus comboios em miniatura a fazer-lhe companhia, um fórum na internet com outros fãs dos caminhos-de-ferro que lhe servem de ombro quando, de vez em quando, se corresponde com eles.

A sua vida toma nova direção a partir do momento em que, no seu escritório, se revela Peggy, jovem mãe de duas crianças, marido alcoólico, em equilíbrio contínuo para procurar salvar o salvável do seu casamento. Intui-se que a relação terá um final cor-de-rosa.

No entanto, Andrew está duplamente só, porque construiu uma família imaginária, como Diane como mulher (a recordação da jovem com quem formava casal, morta inesperadamente) e dois filhos: uma imagem irreal que Andrew vendeu no trabalho. Mas que página após página tem as horas contadas, até um final que o volta a pacificar, não o eximindo de um novo amor que rima com dor. «Ver Peggy correr-lhe ao encontro daquela maneira, compreender que a sua presença era importante na vida de um outro, pensar que talvez, afinal de contas, ele não era apenas um amontoado de carbono destinado a um caixão sem adornos, deu-lhe uma descarga de felicidade pura, quase dolorosa.»

Falava-se de um cristianismo “secularizado”. O que tem a ver com este romance? Talvez o autor não tenha tido intenção, mas o final da história – a vontade de Andrew de as suas poupanças para criar (ideia de Peggy) algo (uma associação, um grupo…) que contribuísse para as pessoas estarem menos sozinhas na vida, e dar-lhes uma digna e mais coral saudação final – tem muito a ver com a antiga obra de misericórdia de «sepultar os mortos».

Secularização de uma antiga prática de piedade cristã que talvez os próprios interessados não saibam que existe. No entanto, a cena final, outro funeral de pobreza celebrado por um jovem sacerdote, é o quadro perfeito de uma certa novidade: Peggy publicou um anúncio nas redes sociais, e trinta pessoas reuniram-se para dar o último adeus a uma desconhecida.

«Josephine estava só quando deixou este mundo – afirma o padre nas exéquias – e a celebração de hoje arriscava-se também a ser muito pouco participada. Por isso é belíssimo ver tantas pessoas que decidiram reservar tempo para vir aqui. Nenhum de nós pode saber quando será o fim da viagem, nem como será a própria viagem, mas se cada um soubesse com certeza que nos últimos instantes teria junto de si pessoas generosas e boas como vós, seria, seguramente, um grande conforto.»

Nota: Tradução para português de edição em italiano.


 

Lorenzo Fazzini
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 11.08.2020

 

 
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