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Um só homem no funeral, e não é parente: A solidão em “Nunca é tarde para começar a viver”

Todos os dias Andrew Smith enfrenta a morte. Empregado do município de Londres, tem a tarefa de procurar os parentes das pessoas que falecerem, a fim de que contribuam para o pagamento da cerimónia fúnebre, ou, para o mesmo propósito, verificar a situação patrimonial dos defuntos. «Mas se o morto é indigente – explica Andrew à nova colega Peggy – e não há parentes ou outras pessoas dispostas a pagar, então o município é obrigado por lei a assumir os custos». A prática é conhecida como “funeral de pobreza”. E a todos os funerais de pobreza Andrew, ainda que o seu contrato de trabalho não o preveja, quer participar, porque, se não o fizesse, ninguém mais o presenciaria: um sinal de respeito, de dignidade reconhecida ou, mais simplesmente, de empatia para quem se vai sem ter por perto sequer um familiar, um amigo, um conhecido.

É este o tema central de “Nunca é tarde para começar a viver” (320 páginas, ed. Topseller, 17,69 €), primeiro romance do editor britânico que cresceu em Statfor-upon-Avon como Shakespeare, Richard Roper. O texto, já traduzido numa vintena de países e contratado para se tornar uma série televisiva, enfrenta, com uma prosa agradabilíssima e o humor típico dos romancistas ingleses contemporâneos (recorda, por vezes, Nick Hornby), a questão, profunda e espinhosa, das mortes solitárias – em constante aumento no Reino Unido, de tal maneira que em Londres «no ano anterior Andrew tinha organizado vinte e cinco funerais de pobreza, um recorde» –, e, sobretudo, do que as precede.

«Como é que John se reduziu a uma tal condição de miséria? Não havia realmente sequer um descendente que lhe enviasse um cartão de Natal? Um amigo de infância que lhe telefonasse nem mesmo no dia de aniversário?», é quanto Andrew, de 42 anos, se pergunta no decurso das suas inspeções mortuárias, tentando fazer com que o próprio leitor se interrogue, ele próprio, muito provavelmente, culpado, como todos, de não levar a sério a crise relacional que atravessa a cidade, os indiferentes e esquecidos lugares do mundo.



Se as reflexões a fazer são muitíssimas, as emoções – da comoção a uma ironia que nunca está deslocada e torna a leitura mais envolvente – são igualmente numerosas. O final é luminoso. Porque, como o protagonista, todos nós que lemos tornamo-nos conscientes de que os mortos velam por nós e apontam-nos as coisas que verdadeiramente contam



Neste romance não aflora à mente apenas Antígona e o princípio angular de cada civilização sobre a sepultura digna, mas sublinha-se pura e simplesmente a crescente esterilidade das relações humanas. Em que é que nos tornámos? O que nos aconteceu para nos termos deixado de nos dar uns conta dos outros? Neste sentido, “Nunca é tarde para começar a viver” pode considerar-se uma denúncia do egoísmo de uma humanidade que não está atenta nem aos mortos nem aos vivos («em alguns casos há por trás histórias dramáticas, dolorosas. Mas muitas vezes trata-se de litígios estúpidos por questões de dinheiro e, ainda com mais frequência, de simples preguiça»). Cai, não por acaso, «sobre todo o universo (…), sobre todos os vivos e sobre todos os mortos», para dizer, como James Joyce, a metafórica e comum neve – o repouso eterno perante a insensibilidade geral –, citada muitas vezes por Richard Roper.

Em quase todos os capítulos percorre-se a história de homens e mulheres que morreram sós – coisa que não deveria conduzir a acreditar que estas não fossem «pessoas para todos os efeitos, que viveram e sofreram e amaram» –, apontando também possíveis soluções para travar o “fenómeno” («intervimos sempre quando o dano já foi feito, entendes? Em resumo, não seria melhor fazer alguma coisa para que estas pessoas tenham um pouco de companhia, entrem em contacto com outros na mesma situação, em vez de caírem cada vez mais no isolamento?»). E, ao mesmo tempo, narra-se a vida privada de Andrew, órfão do pensamento mágico, morto que caminha, amigo apenas de Ella Fitzgerald e de um grupo virtual, homem que «de vez em quando mente sobre a sua vida real para ocular a própria inadaptação», e que, só com a ajuda de Peggy, consegue compreender que nunca é demasiado tarde para começar a viver.

No romance – fortemente necessário no ano do medo do outro, do isolamento e do individualismo – os apelos ao mundo são vários (a trama recorda o filme “Still life”, de 2013, enquanto os colegas de trabalho de Andrew parecem sair de um espetáculo de Rick Gervais). E se as reflexões a fazer são muitíssimas, as emoções – da comoção a uma ironia que nunca está deslocada e torna a leitura mais envolvente – são igualmente numerosas. O final é luminoso. Porque, como o protagonista, todos nós que lemos tornamo-nos conscientes de que os mortos velam por nós e apontam-nos as coisas que verdadeiramente contam.

Andrew Smith entra, por isso, com pleno direito naquela ideal galeria de personagens solitários e inadaptados, aos quais só se pode querer bem, e que, depois de traumas, dor e luto, compreendem que o amor salva sempre: cuidar dos outros equivale a cuidar de si próprio.



Tradução a partir da edição em italiano.



 

Enrica Riera
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 03.11.2020

 

 

 
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