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Leitura: “Nos passos de Etty Hillesum”

«Antes de tudo perguntemo-nos o que é, em que consiste a experiência dos exercícios espirituais. Penso que sejam sempre de preferir as respostas mais sucintas. A mim serve-me esta: é um tempo de exposição a Deus… Como as folhas de uma planta se expõem ao sol para que nelas se desencadeie uma função vital, assim também nos expomos a Deus, ao seu olhar, ao seu amor, para que se ative em nós um trabalho interior e invisível, mas igualmente vital.»

É com estas palavras que o arcebispo D. José Tolentino Mendonça inicia o texto “Exercícios espirituais”, que abre o livro “Nos passos de Etty Hillesum” (ed. Documenta), assinado em parceria com Filipe Condado, que selecionou algumas das imagens que fotografou aquando da peregrinação à Holanda realizada pela comunidade da capela do Rato (Lisboa), em 2007, e as completou com fragmentos dos textos da judia morta aos 29 anos em Auschwitz.

O volume foi apresentado este sábado, precisamente na capela do Rato, durante a sessão de abertura do congresso internacional sobre Etty Hillesum, pelos autores. A intervenção de D. Tolentino Mendonça pode ser vista no vídeo que apresentamos no fim deste texto.

“Preparar o coração”, “Uma vida em contraciclo”, “Tomar Etty como mestra espiritual”, “A alma precisa de um parto”, “Revisitar os pontos de partida dolorosos”, “Ensaiar o recomeço”, “Passar da cabeça ao coração” e “Agradecer o que somos” são as etapas propostas pelo poeta e teólogo no seu itinerário espiritual.

«Olhemos para a emergência da questão espiritual em Etty Hillesum… Sirvamo-nos da biografia dela, mas olhando em transparência para a nossa… que não tem de ser igual à sua! Podemos ter tido uma infância e uma adolescência, uma relação parental, uma aparição a nós mesmos, completamente diferentes das de Etty… ou encontrar traços comuns. O importante não é isso. Essencial mesmo é compreender como é que ela se confronta com o aberto da vida e floresce e como é que nós o fazemos. Essencial mesmo, como ela escreve, “é que alguma coisa de ‘Deus’ penetre em ti, tal como existe algo de ‘Deus’ na Nona de Beethoven”».

D. Tolentino Mendonça convida o leitor a valorizar a «consciência de que a pessoa tem de ser trabalhada». E acrescenta: «Esta é uma descoberta equivalente à invenção do fogo ou da roda. Porque no nosso percurso espiritual, o real problema não são as nossas misérias, os embaraços ou as armadilhas que nos prendem persistentemente. O nosso grande e único obstáculo é não percebermos a necessidade de trabalharmos espiritualmente a vida para que nos tornemos adultos também ao nível espiritual».

Filipe Condado, assinala o bibliotecário e arquivista do Vaticano, «é o primeiro autor a concretizar aquilo que está mais perto de ser um projecto de fotobiografia» de Etty Hillesum, tentando «ver por dentro» e obstinando-se «em reconstruir o puzzle do movimento interior de uma vida».



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«Ora vamos a isto! Vai ser um momento doloroso e difícil de ultrapassar para mim: confiar o meu ânimo reprimido a um insignificante pedaço de papel quadriculado. Os pensamentos são por vezes muito nítidos e claros na minha mente, os sentimentos extremamente profundos, é porém difícil conseguir escrevê-los.» (Etty Hillesum)



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«Queria ser muito simples como a lua esta noite, por exemplo, ou como um relvado.» (Etty Hillesum)



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«Faz aquilo que a tua mão acha que deve fazer e não penses demasiado antecipadamente. Portanto, agora fazemos a cama e levamos as chávenas para a cozinha, e depois logo vemos. […] mergulha na hora que passa e não te ponhas a remexer as próximas horas com o teu pensamento, os teus me dos e as tuas preocupações.» (Etty Hillesum)



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«“[…] Hei de acompanhar-te sempre guiada pela Tua mão e tentarei não ter medo. Hei-de tentar irradiar algo do amor, do verdadeiro amor ao próximo, que tenho dentro de mim, onde quer que eu esteja.” Contudo também não deves andar a exibir-te com esse “amor ao próximo”. Não sabes se o tens. Não quero ser especial, somente quero tentar ser aquela que em mim ainda procura o desenvolvimento total. Às vezes penso que desejo a reclusão de um convento. Porém, é com as pessoas e o mundo que terei de lidar. E hei de fazê-lo, apesar da aversão e do cansaço, por vezes. Mas prometo que hei de viver a vida em pleno e até ao fim.» (Etty Hillesum)



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«E no final de cada dia, sinto a necessidade de dizer: “A vida é muito bela, apesar de tudo é muito bela”.» (Etty Hillesum)



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«Já não podemos mais passear no Passeio e qual quer grupinho infeliz de duas ou três árvores foi declarado bosque e tem lá uma tabuleta pregada: “Proibido a judeus.” Essas tabuletas surgem cada vez mais, por toda a parte. E isso, apesar de ainda haver tanto espaço onde as pessoas podem estar e viver e ser alegres e tocar música e amar-se.» (Etty Hillesum)



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«Quase não me atrevo a escrever mais, não sei o que é, é como se eu fosse longe de mais na minha libertação de tudo aquilo que, nos outros, quase conduz ao transtorno mental. Quando eu souber, com toda a certeza, que irei morrer na próxima semana, ainda conseguirei estar sentada à minha secretária e estudar, em toda a paz de espírito, sem que isso seja um escape, e agora sei que a vida e a morte estão ligadas uma à outra com sentido profundo, que será um deslizar, mesmo que o fim, na sua forma exterior, seja triste ou horrível.» (Etty Hillesum)



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«Vou ver se consigo arranjar uma “mochila” e levar as coisas mais essenciais, mas tem de ser tudo de boa qualidade. Vou levar uma Bíblia, e para os dois livros fininhos Cartas a um Jovem Poeta e o Livro de Horas com certeza que hei de conseguir arranjar um cantinho qualquer na mochila. Não levo retratos de entes queridos, mas ao longo das paredes extensas do meu íntimo penduro os muitos rostos e os gestos que colecionei, e eles hão de ficar para sempre comigo.» (Etty Hillesum)



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«[…] aqueles que dizem “vives com demasiada intensidade” não sabem que uma pessoa se pode recolher numa oração como se fosse a cela de um convento, e que em seguida continua em frente com a energia renovada e a tranquilidade recuperada.
Creio que é justamente o medo que as pessoas têm de se esforçarem demais que lhes retira as suas melhores forças. Quando uma pessoa, ao fim de um processo longo e difícil que prossegue diariamente, atingiu as fontes primárias dentro de si, a que eu agora desejo chamar Deus, e quando uma pessoa trata de manter esse caminho até Deus aberto e livre de obstáculos — o que acontece “trabalhando-se a si própria” —, essa pessoa renova-se na fonte e então não necessita de ter medo de oferecer forças a mais.» (Etty Hillesum)



Imagem © Filipe Condado, ed. Doumenta | "Nos passos de Etty Hillesum"


«Christine, abro a Bíblia ao acaso e eis o que encontro: O Senhor é o meu alto refúgio. Estou sentada em cima da minha mochila, no meio de um vagão cheio. O pai, a mãe e o Mischa estão uns vagões mais à frente. A partida acabou por chegar inesperadamente. De ordens repentinas de Haia, especialmente para nós. Deixámos o campo a cantar, o pai e a mãe firmes e calmos, tal como o Mischa. Viajaremos durante três dias. Obrigada pelos vossos cuidados. Amigos que ficaram para trás hão de escrever para Amesterdão; talvez venhas a receber notícias por eles. E pela minha última carta longa. Até à vista, de nós os quatro.» (Etty Hillesum)









 

Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 20.05.2019

 

 

 
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