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Não temos pensado um catolicismo que acompanhe os questionamentos ao longo da vida

Vivemos um tempo de reconfiguração do religioso. Em grande medida, a crise que vivemos não é tanto de fé, do crer, quanto de pertença.

Isto obriga-nos a perguntar se as formas de pertença continuam a ser todas oportunas, eficazes. Penso, por exemplo, na organização territorial que vigorou durante séculos; a base da Igreja eram as paróquias, e estas comunidades estavam inscritas em determinado território. Hoje, a noção de habitação, de territorialidade, tornou-se fluida, porque a modernidade, como explicou Bauman, é líquida. Já deixámos de estar num só lugar. Tudo é fluxo.

Por isso, não podemos imaginar as comunidades com as tinas, com a arquitetura que serviu durante séculos. Isto obriga-nos a uma pergunta: o que é que hoje corporiza a identidade cristã? Como é que o sujeito se reconhece cristão? E como é que é reconhecido pela comunidade eclesial e pela sociedade onde está inscrito?

Hoje fala-se muito dos cristãos culturais, que são, talvez aqueles que não têm uma prática sacramental mas que continuam a manter uma ligação cultural, ou ética, de valores com o cristianismo. É muito importante não os descartar imediatamente, dizendo que não são cristãos, que o que vivem não é cristianismo.

Temos de perceber a complexidade da contemporaneidade e, ao mesmo tempo, valorizar, purificar, adensar, ir ao encontro. A evangelização não pode desconhecer este grande número de pessoas que se dizem crentes mas têm uma frágil pertença ao cristianismo institucional.

E um desafio muito grande, de escuta, de encontro, de criação e adoção de novas linguagens. É necessária uma criatividade pastoral grande para perceber que tipo de evangelização podemos fazer e quais são os seus destinatários.

Durante muitos séculos, como é que se chegava a ser cristão? Por transmissão geracional, familiar, por pertença a determinado território, e por iniciação num tempo determinado da vida, que muitas vezes era a infância.

Todos fomos batizados quando éramos bebés, recebemos a catequese nos primeiros anos, com a escolaridade obrigatória. Depois… os cristãos são muitas vezes deixados à sua sorte, e não há mais formação, não há catequese de adultos, não há o pensar de um catolicismo que acompanha o questionamento das várias etapas da vida: a juventude, a primeira idade adulta, a segunda, a terceira. Isto são tudo desafios para pensar.

É muito importante ser sensível à complexidade e ter a sabedoria que Jesus fala na parábola: Tu plantaste trigo, mas também cresceu joio; queres que arranquemos tudo? E Ele diz: não, deixa crescer, e depois veremos.

Esta confiança em deixar maturar uma experiência, trabalhando e acompanhando esse amadurecimento – que hoje acontece de maneira muito heterogénea, diversificada, já não é como era – lembra a confiança que Deus deposita no ser humano. Como dizia o teólogo Urs von Balthazar, Deus sabe esperar por todos.


 

Card. José Tolentino Mendonça
Fonte: Jesuítas Brasil
Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Mihailo K/Bigstock.com
Publicado em 02.08.2021

 

 
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