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Imaculada Conceição: Cultura e Teologia

O dogma da Conceção Imaculada da Virgem Maria – pelo manto de beleza com que a reveste, pelo encanto que suscita na fé e no engenho poético, pelas verdades da fé que implica, por ornar a imagem de Maria com uma das mais belas flores que compõem o ramalhete a ela oferecido pela piedade popular – é uma constante fonte inspiradora de reflexão e de diálogo intenso. É aí que nos situamos.

Essa verdade da fé da Igreja formula-se idealmente com a linguagem poética, figurada, imagética, simbólica. Se o mistério que ela exprime é tangível, só o é como o orvalho toca as flores durante o silêncio da noite e a frescura da madrugada; só o é como a melodia celestial atinge os sentimentos humanos sem instrumentos musicais. A persistente opção pela poesia para cantar Maria como Imaculada desde a sua conceção justifica-se pelo facto de a candura e a leveza da linguagem poética se apropriarem mais para “dizer” esse atributo da mãe de Jesus.

Foi realmente na poesia que a celebração festiva da Imaculada Conceição de Maria se deixou cantar na cultura ocidental, de Francisco de Assis à escola franciscana, de Dante a Petrarca e a Boccaccio, de Gil Vicente a Camões. Os poetas chamaram-na «alta Senhora», «claridade do sol nunca turbada…, virgem toda sem mágoa, inteira e pura», «mais fermosa que o sol ao meio dia», «de perfeições e graças esmaltada».

A poesia “diz” a realidade de forma velada, porque escuta e revela a significação ativa escondida debaixo do significado corrente das palavras que usa. Foi também por isso que a Bíblia recorreu prevalecentemente à linguagem imagética, ao querer exprimir o mistério de Deus e da sua relação com os humanos. Foi através da poesia e das artes que a confissão da Imaculada Conceição de Maria – mesmo antes de se tornar dogma e até aumentando o caudal do rio que desaguaria no mar do dogma – fez cultura: na pintura, na escultura e na literatura, escola onde escutamos lições de grandes pensadores da fé.



Porque a Teologia sempre se sentiu atraída para o novo, onde se situa a santidade de Maria desde a sua origem, esta pede o exercício difícil de pensar o dogma sem excluir o prazer de se deliciar com a poesia e a literatura. Ao lado do que a piedade dos fiéis quer ou gosta de ouvir, há questões que é preciso pôr



A poesia “confessa” por intuição e procura além da razão, não se contentando com conhecer: voa, sublima. Dadas as dificuldades de penetrar no mistério pela linguagem conceptual, deixa-se encantar e encanta contemplando: «Onde não chega o fraco entendimento chegue a fé» – concluía Sá de Miranda. A Teologia propunha o mesmo: “crede ut intellegas” – aconselhava Santo Agostinho (Sermão 43,7,9: «crê para compreenderes»), ligando a razão à fé.

Mas, no desejo e na instância de compreender a fé na Conceção Imaculada de Maria, a poesia – como a liturgia – pode ser coadjuvada pela Teologia, pois até se exprimiu herdando e reinterpretando ao longo de séculos o que ela lhe oferecia. Por isso, a Teologia também propõe a procura recíproca, complementar, ligando a fé à razão: «compreende para creres», pois nunca compreendes totalmente o mistério em que crês nem sempre crês bem o que compreendes. Porque a Teologia sempre se sentiu atraída para o novo, onde se situa a santidade de Maria desde a sua origem, esta pede o exercício difícil de pensar o dogma sem excluir o prazer de se deliciar com a poesia e a literatura. Ao lado do que a piedade dos fiéis quer ou gosta de ouvir, há questões que é preciso pôr.

Querendo aprofundar o dogma da Imaculada Conceição nas suas cores, remissões, potencialidades e desafios, a Teologia enfrenta logo a interpretação dos textos da Sagrada Escritura em que foi fundamentado.

Primeiramente, a tradição teológica, como a poética e a litúrgica, constantemente associou o dogma ao relato bíblico de Génesis 2 e 3 (onde via cometido um «pecado original»), tornando o dogma subsidiário dessa interpretação: ligava-o diretamente à «triste ruína de todo o género humano que derivaria do pecado de Adão…»: «a queda da natureza do primeiro Adão devia ser reparada com melhor fortuna no segundo» (bula da proclamação do dogma, Ineffabilis Deus, n.º 1 e n.º 3).



O que lá se descreve não tem nada a ver com um pecado cometido por pessoas históricas com responsabilidade moral



O Catecismo da Igreja Católica (Città del Vaticano 1993) vê em Gn 2 e 3 «um facto que teve lugar no princípio da história do homem», de modo que «toda a história humana está marcada pela falta original, livremente cometida pelos nossos primeiros pais» (n.º 390). Entendia-os como «Adão e Eva», pessoas históricas. Em consequência do pecado original, teriam sido punidos com as penas da vida e com a morte, que teriam sido transmitidas de geração em geração. “Adão” ter-nos-ia «transmitido um pecado de que todos nascemos infetados» (n.º 403).

Como essa interpretação alegórica de Gn 2 e 3 não tinha minimamente em conta o contexto cultural, literário e religioso da narração nem o género de linguagem com que ela transmite a sua mensagem, o mesmo catecismo – lendo nela o que ela não queria dizer – confessa as dificuldades de compreensão com que essa leitura se depara: «A permissão divina da atividade diabólica é um grande mistério… A transmissão do pecado original é um mistério que nós não podemos compreender plenamente. Mas sabemos pela Revelação que… Adão e Eva cometeram um pecado pessoal, mas ele afeta a natureza humana que eles vão transmitir num estado de decadência» (n.º 404).

Realmente, essa interpretação, problemática, via/vê «um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo» (fundindo e confundindo imagens diferentes!) na figura da serpente. A bula definitória do dogma por Pio IX em 1854 acentua a referência especial à sua punição com as palavras que Gn 2 e 3 põe na boca de Deus: «Porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua descendência e a descendência dela; ela te pisará a cabeça e tu atentarás ao seu calcanhar». A mulher seria a Virgem Maria, cuja descendência, Jesus, viria a derrotar definitivamente o antigo tentador. Por isso, constantemente nas imagens artísticas da Imaculada Conceição a serpente é representada no ato de ser esmagada sob o seu pé. Esses dois versículos do Génesis seriam uma profecia divina, a promessa salvífica do Redentor (Ineffabilis Deus, n.º 22 e 29). Um prefácio das «Missas da Virgem Santa Maria» (1997) proclama: «Pela natureza, filha de Adão, ela reparou com a sua inocência a culpa da primeira mãe».



«O fundamento bíblico deste dogma encontra-se nas palavras que o anjo dirigiu à jovem de Nazaré: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). “Cheia de graça” é o nome mais belo de Maria, nome que lhe deu o próprio Deus, para indicar que ela é desde sempre e para sempre a amada, a eleita, a predileta para acolher o dom mais precioso, Jesus, “o amor incarnado de Deus”»



Esse entendimento, porém, não tem fundamento no texto, porque o contexto é de castigo da serpente, da mulher e do homem e porque uma promessa de salvação não faria sentido num relato que é de criação e não de redenção. E essa interpretação tradicional de Gn 2 e 3 não a “sabemos pela Revelação”. Resulta da falta de contextualização da narração, a contextualização insistentemente recomendada pelo recente magistério da Igreja, já desde Pio XII, em 1943, que também nota, para a leitura apropriada de cada relato bíblico, a necessidade de ter em conta o seu género literário.

Quanto ao relato de Gn 2 e 3, a exegese bíblica hoje – levando em linha de conta a sua linguagem figurada, os seus temas, símbolos e imagens, o contexto das origens absolutas de tudo antes da história propriamente dita, a estrutura narrativa e a finalidade – conclui tranquilamente que esse relato é uma narrativa de criação ou das origens: para dar o sentido último à história humana e à de cada ser humano, fá-la remontar a um ato criador de Deus. E compreende-o desligado de qualquer pecado, especialmente de um «pecado original» e dos conteúdos com que se carregou essa expressão. Aliás, ver na sua trama narrativa um pecado moral traz problemas intransponíveis à sua compreensão e à Teologia. O que lá se descreve não tem nada a ver com um pecado cometido por pessoas históricas com responsabilidade moral (veja o livro Criação divina sem pecado humano, Paulinas Editora, Prior Velho, 2019).

Portanto, a ligação do dogma da Imaculada Conceição ao do «pecado original» não tem fundamento textual em Gn 2 e 3. Essa ligação era feita ainda através da carta de Paulo aos Romanos 5,12-21, onde se via reafirmada a doutrina dogmática do «pecado original»: «Como por um só homem entrou o pecado no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte atingiu todos os homens, uma vez que todos pecaram…».



O dogma define que a plenitude da graça nela é privilégio único dela. Mas o essencial do privilégio não parece consistir na diferença em relação aos outros humanos enquanto concebidos em pecado. Estaria mais no facto de só ela e nenhuma outra mulher ter sido eleita por Deus para ser a Mãe de Jesus, Filho de Deus, privilégio que implica que ela tinha de estar em perfeita comunhão com Ele desde a sua conceção



Mas também essa ligação é insustentável. De facto, também desse texto se fazia uma leitura descontextualizada, subsidiária da interpretação tradicional de Gn 2 e 3. Se o enquadrarmos no seu contexto próximo, o do midráš judaico contemporâneo, e se o fizermos participar da nova interpretação da narração de Gn 2 e 3, à qual está intrinsecamente ligado, a sua leitura tradicional não se mantém em pé. Em Rm 5,12-21 Paulo não faz doutrina do «pecado original» ou do pecado do primeiro homem nas origens. Recorre a motivos de Gn 2 e 3 (as origens da humanidade, uma transgressão, a morte…) e à figura de «um só homem», o ’ādām ou Homem primordial, representante de toda a humanidade antes de Jesus, para declarar (o que Gn 2 e 3 não significava) que ela é pecadora («todos pecaram»), mas que a obra salvífica de «um só homem», o Homem novo Jesus Cristo, inaugurou uma humanidade nova e deu a vida definitiva a todos os que quisessem aderir a ele por um intenso ato existencial de fé (veja páginas 227-254 do livro Criação divina sem pecado humano).

Por conseguinte, a ligação do dogma da Imaculada Conceição a um pecado original não tem suporte em textos bíblicos e é desnecessária para manter intacto o dogma. A sua afirmação, desligada «daquela culpa herdada por todos nós» (como se exprime a poesia tradicional) e sem dizer que «até os inocentes estavam marcados pelo pecado de origem», ganha mais força e beleza, ficando o dogma mais limpo. A exaltação da Mãe universal não precisa de ser feita à custa de rebaixar ou desfigurar todos os seus filhos, criados por Deus. Pode-se afirmar a suma “pureza e santidade, a inefável abundância e grandeza de todas as graças, virtudes e privilégios” de Maria (Ineffabilis Deus, n.º 24) sem ser preciso dizer que foi imune de um pecado que teria manchado todos os humanos. O que importa é perceber onde assenta o específico essencial do dogma.



A proposta de releitura e atualização do dogma da Imaculada Conceição, no diálogo da Escritura com a Teologia, não belisca o mistério. Aclara à razão a afirmação da fé, facilita a sua confissão pelos fiéis e oferece pábulo à meditação, à poesia e à literatura, enriquecendo a cultura



O seu enunciado central, ligado ao suposto «pecado original», exprime-se linguisticamente em negativo: «A Virgem Maria no primeiro instante da sua conceção foi… preservada imune de qualquer mancha de culpa original». E assim não diz expressamente a sua imensa riqueza interior, antropológica e espiritual. Esta é acentuada positivamente pela bula da definição, ao fundamentar teologicamente o dogma noutros textos bíblicos, entre os quais o da anunciação do anjo, que «chama cheia de graça» a Maria, e o da visitação de Maria, em que Isabel a declara movida pelo Espírito de Deus, «bendita entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre»”.

O Papa Bento XVI continua essa argumentação na recitação do Angelus a 8.12.2006: «O fundamento bíblico deste dogma encontra-se nas palavras que o anjo dirigiu à jovem de Nazaré: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). “Cheia de graça” é o nome mais belo de Maria, nome que lhe deu o próprio Deus, para indicar que ela é desde sempre e para sempre a amada, a eleita, a predileta para acolher o dom mais precioso, Jesus, “o amor incarnado de Deus” (Encíclica Deus caritas est, 12)».

E no Angelus de 8.12.2011 voltou ao tema: «Hoje a Igreja celebra solenemente a conceção imaculada de Maria». E, citando o pronunciamento do dogma por Pio IX, continuou: «Essa verdade de fé está contida nas palavras da saudação que a Maria dirigiu o arcanjo Gabriel: “Alegra-te, ó cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). A expressão “cheia de graça” indica a obra maravilhosa do amor de Deus, que quis dar-nos de novo a vida e a liberdade... Por isso, desde o séc. II, no Oriente e no Ocidente a Igreja invoca e celebra a Virgem que com o seu sim aproximou o céu da terra, tornando-se “mãe de Deus e ama da nossa vida”, como se exprime S. Romano, o Melódico, num cântico antigo (Canticum XXV in Nativitatem B. Mariae Virginis, in J.B. Pitra, Analecta Sacra t. I, Paris 1876, 198). No séc. VII, S. Sofrónio de Jerusalém elogia a grandeza de Maria porque nela veio habitar o Espírito Santo: “Tu superas todos os dons que a magnificência de Deus alguma vez tenha derramado numa pessoa humana. Mais do que todos és rica da posse de Deus que habita em ti” (Oratio II, 25 in SS. Deiparæ Annuntiationem: PG 87, 3, 3248 AB)».



«A ela foi dada uma graça superior à que se concede aos outros, a fim de vencer totalmente toda a espécie de pecado»; «de preferência a qualquer outra criatura, [Deus] fê-la alvo de tanto amor…, toda bela e perfeita». O dogma distingue Maria por cima de todos os humanos como «bendita entre as mulheres»



Enunciando assim a riqueza imensa da presença do Espírito de Deus que enche o espírito de Maria desde a sua conceção, torna-se desnecessário dissociá-la de um pecado que tivesse maculado todos os outros humanos. O dogma define que a plenitude da graça nela é privilégio único dela. Mas o essencial do privilégio não parece consistir na diferença em relação aos outros humanos enquanto concebidos em pecado. Estaria mais no facto de só ela e nenhuma outra mulher ter sido eleita por Deus para ser a Mãe de Jesus, Filho de Deus, privilégio que implica que ela tinha de estar em perfeita comunhão com Ele desde a sua conceção.

No dizer da Ineffabilis Deus (n.º 29), «a ela foi dada uma graça superior à que se concede aos outros, a fim de vencer totalmente toda a espécie de pecado»; «de preferência a qualquer outra criatura, [Deus] fê-la alvo de tanto amor…, toda bela e perfeita» (n.º 2). O dogma distingue Maria por cima de todos os humanos como «bendita entre as mulheres». “Diz” a sua distinção por parte de Deus e acrescenta a “felicitação” por parte de “todas as gerações”: «todas as gerações me proclamarão feliz/bem-aventurada [me felicitarão, me darão os parabéns]». Parabéns, porque Deus realizou nela proezas maiores do que ela própria («grandes coisas fez em mim o Poderoso»: Lc 1,49), enchendo até ao nível máximo a sua vida: vivendo-a no mistério e com a vontade de participar nele.

A proposta de releitura e atualização do dogma da Imaculada Conceição, no diálogo da Escritura com a Teologia, não belisca o mistério. Aclara à razão a afirmação da fé, facilita a sua confissão pelos fiéis e oferece pábulo à meditação, à poesia e à literatura, enriquecendo a cultura. Também torna coerente a “analogia da fé” entre o dogma e a verdade bíblica: «Deus, em Cristo, elegeu-nos antes da fundação do mundo para sermos santos e imaculados na sua presença» (Ef 1,4). E brota da necessidade e da urgência de renovação da Igreja e das suas expressões da fé e contribui para essa renovação, sempre aventada por teólogos e pastores: «A Igreja é sempre uma Igreja do tempo presente. Não olha para a sua herança como para o tesouro de um passado já realizado, mas como para uma poderosa inspiração que estimula a avançar na peregrinação da fé ao longo de caminhos sempre novos» (João Paulo II, 22.9.1996, no aeroporto de Reims).



Imagem "A Imaculada Conceição" | Martino Altomonte

 

Armindo dos Santos Vaz
Biblista, professor catedrático emérito da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Imagem: "A Imaculada Conceição" (det.) | Martino Altomonte
Publicado em 07.12.2021

 

 
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