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Um tríptico à Imaculada Conceição a partir da Bíblia

A um pintor, as três leituras bíblicas da liturgia católica da Imaculada Conceição de Maria poderiam inspirar um quadro tríptico: no painel da esquerda pintaria a criação do Homem primordial, protótipo de toda a humanidade; no da direita gravaria a Salvação do ser humano pela graça de Jesus, filho de Maria Imaculada; ao centro estamparia os Homens, hoje beneficiários dessa graça salvífica. Aproximemo-nos dos pormenores de cada painel.

No da esquerda, na leitura do livro do Génesis, emergem os dois protótipos da humanidade: o ’Adam, o Homem, e a Hæwah, Geradora de vida. São representantes do regime da vida humana física, cujo sentido último a narração de criação em Génesis 2-3 interpreta com imagens e exalta pela intuição da fé. Para sublimar a existência de toda a humanidade, o narrador pôs o homem a dar à sua mulher o título honorífico e simbólico de Geradora de vida, justificando-o: “porque ela foi a mãe de todos os vivos” (Génesis 3,20). Com este jogo de palavras, a fé contemplava a humanidade como descendente da Mãe prototípica. O texto não descreve um pecado ou o «pecado original»: a transgressão da mulher e do homem está ao serviço da sublimação das penas da vida e da morte humanas. S. Paulo, relendo-o em função de uma teologia nova, dirá que nesse regime de vida física, “todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Romanos (Rm) 3,23; 5,12) e são incapazes de se salvar por si próprios (Rm 1,18-3,20). Este painel ilustra a universalidade do pecado: “reinava o pecado dando a morte” (Rm 5,21).



O dogma ‘diz’ a distinção de Maria por parte de Deus e a sua “felicitação” por parte de todas as gerações da Igreja, pelas “maravilhas” realizadas por Deus graças a ela



Mas o painel da direita (Lucas (Lc) 1,26-38) vem colmatar essa incapacidade. O próprio Filho de Deus faz-se homem na pessoa de Jesus, o qual disponibiliza a salvação gratuita para todos os que pela fé se abrem a ela, aderindo ao seu projeto de vida nova. É o regime da vida da graça, que tem como representante o Homem novo, Jesus. “Onde proliferou o pecado, superabundou a graça… por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 5,20-21). Este painel afirma a universalidade da salvação. Jesus, protótipo da nova humanidade ou da “nova criação”, “justifica” agora todos os que o acolhem pela fé.

Ora, a profusão de tanta graça e riqueza espiritual passou decisivamente pelo sim dado a Deus por Maria, mãe de Jesus. A festa da sua Imaculada Conceição no seio da mãe (por tradição, S. Ana) é uma profunda intuição da fé da Igreja e da teologia sobre a acção de Maria no mistério da redenção do ser humano pela graça do Filho de Deus, filho dela. A Grande Tradição aprofundou-a, proclamando-a solenemente dogma por iniciativa de Pio IX em 8.12.1854. Bento XVI, antes de recitar o Angelus a 8.12.2006 e retomando a linha de exposição da bula Ineffabilis Deus, que definia o dogma, declarou que o melhor suporte bíblico para essa expressão da fé “se encontra nas palavras que o anjo dirigiu à jovem de Nazaré: «alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo» (Lc 1,28)”. “Cheia de graça” – continuou Bento XVI – “é o nome mais belo de Maria, nome que lhe deu o próprio Deus, para indicar que ela é desde sempre e para sempre a amada, a eleita, a predileta para acolher o dom mais precioso, Jesus, «o amor incarnado de Deus»”. Esse fundamento bíblico do dogma continua a ver-se na Palavra de Deus, representada na figura do anjo que anuncia a Maria a conceção virginal de Jesus: “achaste graça diante de Deus; conceberás e darás à luz um filho a quem porás o nome de Jesus...; o Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso, o que é concebido santo será chamado Filho de Deus” (Lc 1,28-35.42). O dogma funda-se ainda na resposta de Maria a Isabel: “a minha alma proclama grande o Senhor e o meu espírito alegra-se em Deus, meu salvador…; por isso, desde agora me felicitarão todas as gerações, porque o Todo-poderoso fez em mim maravilhas” (Lc 1,46-49). Com este apoio bíblico, já explícito na bula de Pio IX, o dogma significa que Maria, por ter sido entre todas as mulheres a única privilegiada a ser escolhida para mãe do Filho de Deus, teve de estar em perfeita comunhão com Ele desde a sua conceção: teve de ser imaculada entre todos os humanos. Significa a distinção de Maria por cima de todos, sublimada como “bendita entre as mulheres”, por “Deus ter posto os olhos na humildade da sua serva”. O dogma ‘diz’ a distinção de Maria por parte de Deus e a sua “felicitação” por parte de todas as gerações da Igreja, pelas “maravilhas” realizadas por Deus graças a ela.



Ao contemplar hoje a «Toda bela», «Esposa, Filha e Madre», a Igreja sente atração para a sua pureza, beleza e amor – o que afinal nos salva! – e é estimulada a aproximar-se dela



O primeiro painel pinta o Homem primordial, protótipo da humanidade anterior a Jesus; o segundo pinta o Homem novo, filho de Maria Imaculada. O primeiro painel aponta para a vida de pecado atual que todos cometeram; o segundo, para a vida da graça, a todos acessível. A fé que vê “a Mãe de todos os vivos” como origem da vida humana física também vê em Maria a origem da vida da graça e a Mãe de todos os redimidos. A “Geradora de vida” é a Mulher primordial, imaginada para sublimar a existência humana, vista como criada por Deus; Maria é a imagem sublime da Mulher nova que deu à humanidade o seu Salvador.

Finalmente, no painel central do tríptico de leituras bíblicas estão os beneficiários de tanta graça, os salvados. Paulo diz aos Efésios (1,3-12) que “antes da fundação do mundo Deus nos escolheu para sermos santos e imaculados diante d’Ele, no amor; elegeu-nos de antemão adotando-nos como filhos por meio de Jesus Cristo”. Nem este nem qualquer outro texto bíblico nos diz concebidos e nascidos em pecado original. Em conformidade com a fé bíblica, nascemos criaturas de Deus criador, “à imagem e semelhança” d’Ele (Génesis 1); o batismo torna-nos filhos de Deus Pai, «filhos no Filho», participantes da graça do Filho pelo Espírito de ambos. Esse é o valor acrescentado pelo batismo ao nascido que a fé vê entrar para a existência em estado de relação com Deus, criado por Ele: renasce para Jesus (João 3,5), reorienta decisivamente a própria vida para o seu Salvador. Este painel ilustra a vocação universal à santidade, alcançada por Maria.

Ao contemplar hoje a «Toda bela», «Esposa, Filha e Madre», a Igreja sente atração para a sua pureza, beleza e amor – o que afinal nos salva! – e é estimulada a aproximar-se dela: “enquanto a Igreja alcançou na santíssima Virgem a perfeição, em virtude da qual não tem mancha nem ruga (Efésios 5,27), os fiéis lutam ainda por crescer em santidade, vencendo inteiramente o pecado; por isso, levantam os olhos para Maria, que resplandece como modelo de virtudes para toda a comunidade dos eleitos” (Lumen Gentium, 65).


 

Armindo dos Santos Vaz
Biblista, Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Teologia
Imagem: "Imaculada Conceição" (det.) | El Greco, Jorge Manuel Theotokópoulos
Publicado em 08.12.2020

 

 
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