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Igrejas e museus em tempos de indigência (I)

Primeira estância

Há cerca de um ano, no âmbito dos estudos que tenho desenvolvido sobre o diálogo entre poesia e transcendência, pensei na possibilidade de «topografar» os lugares de Deus na literatura: dispus-me a conceber os rudimentos dos rudimentos daquilo a que chamei «teotopologia literária» (1).

Se a teotopologia literária existisse, não seria apenas uma espécie de topografia de teologemas. Nem teria a pretensão de resultar num estudo sobre a colocação ou disposição, num texto, de teologemas ou de semantemas análogos ao semantema «Deus». Se existisse a teotopologia literária – e se alguma pragmática lhe assistisse – serviria certamente para estabelecer sistemas de coordenadas multidimensionais que, nos vastos territórios da literatura, permitissem situar a «teoliterária», analisar a sua organicidade paradoxalmente eutópica e distópica, e documentar a diversidade topológica de «teotopias», esses lugares que Deus habita, mesmo quando parece habitar apenas o sentimento da sua ausência. Mais do que a afirmação de Deus numa obra, interessa-me a expressão embaçada do mistério, a nostalgia ou mesmo a aflição do autor: Deus como interrogação, portanto.

Escrevi, então, que se a teotopologia literária existisse, o teologismo seria a sua primeira e mais perigosa tentação; outras tentações – benevolamente mais ingénuas – seriam inevitáveis, como a de sobrepor simplisticamente teotopia e teofania, ou a de supor uma relação de inerência entre teoliterária e teopneustia. Se a teotopologia literária existisse, não poderia prescindir de ferramentas como a comoção estésica e a intuição [enquanto pressentimento da verdade]. Tratar-se-ia de uma heurística e tornar-se-ia uma importante ferramenta para perscrutar Deus como interrogação na literatura. Na literatura em geral e concretamente na poesia, sendo que a poesia não é apenas um género literário, mas – mais profundamente – uma condição essencial que perpassa e qualifica todas as formas de arte. E, aqui, importa esclarecer que o deslocamento do objeto não diminui o alcance dessa teotopologia que, em última análise, não prescindiria dos seus pressupostos nem da sua metodologia quando incidisse sobre sistemas mais vastos, galáxias como a da «teoestética».

E pode bem este ser o ponto de partida para esta reflexão.

 

Segunda estância

Comecemos por admitir – mesmo que se trate de um exercício inútil – que desejamos estabelecer os rudimentos não apenas de uma teotopologia literária, mas – em lato sensu – de uma teotopologia estética, que abarcasse outras [ou mesmo todas as] formas de expressão artística.

Não basta, com efeito, resistir à tentação do teologismo, é preciso evitar uma certa tendência reducionista que enferma o modo como nos acercamos tradicionalmente destas questões. Referindo-se concretamente à literatura, María Negroni denuncia essa atitude que se empenha em classificar as obras em categorias, géneros, escolas, ali onde, sem sentido estrito, não há mais do que autores, ou seja: aventuras espirituais, expedições dificílimas que se dirigem a um núcleo imperioso e sempre elusivo (2).

Isto permite-nos a afirmação de um primeiro pressuposto: no âmbito da teotopologia estética, o lugar não é um compartimento e nenhuma categoria geral se sobrepõe à experiência dialógica e comunial – idiossincraticamente considerada – que ocorre na obra de arte: o encontro entre a pessoa que cria e a pessoa que se situa diante da obra. A teotopologia não pode enfermar da tendência para a compartimentação e catalogação obsessivas, causa e efeito do exercício academista de esquadrinhar, redutoramente, até ao limite da exaltação do catálogo e da ininteligibilidade [ilegibilidade] do conteúdo catalogado.

Prescindindo a hermenêutica da comoção estésica e da intuição [enquanto pressentimento da verdade], a obra será pouco mais do que um cadáver, pronto para ser dissecado ou autopsiado; e o compartimento e o catálogo tornar-se-ão fins em si mesmos, tendo já perdido o seu importante múnus instrumental.

Com efeito, o maior dano que uma certa hermenêutica academista e escolar pode infligir à arte é precisamente a pretensão de ser autossuficiente: a pretensão de deixar no leitor a consciência de que a hermenêutica pode substituir-se à arte.

Nesse sentido, o ponto de partida do exegeta deveria ser a consciência de que, com o tempo, ninguém trocará a leitura hermenêutica, por muita acuidade e pertinência que lhe assistam, pela obra em si (3).

Afirma-se, assim, um segundo pressuposto: no âmbito da teotopologia, os conceitos não se sobrepõem às formas e a exegese não se sobrepõe nem se substitui à obra. O mistério íntimo que habita cada teotopia – enquanto lugar de encontro, mas também de desencontro – não se esquadrinha desde o exterior, ao modo da dissecação de um cadáver. No âmbito da teotopologia, o exegeta tem de adentrar-se no mistério e só alumiará na medida em que se deixar alumiar, sendo o seu ofício, tantas vezes, apenas o de perscrutar essa lâmpada apagada «cujo ouro brilha no escuro pela memória da extinta luz» (4), como escreveu Fernando Pessoa.

Importa, finalmente, para a afirmação de um terceiro pressuposto, convocar Walter Benjamin: «“A verdade não há de escapar-nos”, lê-se numa passagem do epigrama de Keller. Fica assim formulado o conceito de verdade com que se rompe nestas exposições» (5). O terceiro pressuposto pode bem ser este: no âmbito da teotopologia, é muito provável que a verdade nos escape. Mais: na teotopologia a verdade é tanto mais referencial, quanto mais despossuída. Aí se escora a intuição como pressentimento da verdade. Fernando Pessoa escreveu que «não há verdade senão no supô-la» (6); seria o mesmo que dizer que não há verdade senão no pressenti-la: verdade que se pressente e que, por isso, ocasionalmente escapa.

 

Terceira estância

Há aqui muitas questões que precisavam ser formuladas: uma igreja é uma teotopia estética? Ou seja: todas as igrejas, porquanto têm subjacente uma arquitetura, podem ser consideradas obras de arte? E serão arte sacra apenas por serem um espaço arquitetónico de culto? Seria o mesmo que afirmar que uma homilia, por ter uma mínima inerência literária, é uma obra de literatura sacra. Na verdade, teremos de admitir que é irrelevante medir a distância que separa uma escultura dessas que se vendem nas lojas de produtos religiosos de um milagre como o que se materializou n’O Êxtase de Santa Teresa [1647-1652], de Bernini – «escultura» não se aplica aqui, por certo, do mesmo modo.

Estou em Roma. Com o intuito de escrever e de fugir ao calor, entrei na Chiesa Nuova. Só ocasionalmente o espaço interior é invadido pelo bulício do Corso Vittorio Emanuele II. Filipe Néri dorme ali, sossegado, entretecendo sobre a eternidade impercetíveis rumores. Turistas entram e saem, talvez escapando ao sol que ameaça reincendiar a Cidade Eterna. Diante de mim a Madonna della Vallicella, pintada por Rubens sobre ardósia.

No passado domingo assisti [a palavra pode bem ser esta: «assisti»] a uma celebração eucarística da catequese de uma paróquia do Porto. Ocorreu-me o filme de Alice Rohrwacher: Corpo celeste (7), com a consciência de que, por vezes, a realidade consegue ser uma caricatura da ficção que se imaginara uma caricatura da realidade. Confesso: não me habituo à feiura daquela igreja, ao adorno kitsch, ao injustificável pretensiosismo da organização do espaço. Não consigo habituar-me à mediocridade constrangedora da liturgia, nem à evidente impreparação do presbítero. Os catequistas pareciam cabotinos nervosos cuja incompetência só pode ser tolerada por não serem remunerados e revelarem uma certa generosidade bem-intencionada. Chegados ao ofertório [dito «solene», o que poderia ser uma expressão de ironia], as crianças entregaram ao presbítero, diante do altar, uma série de objetos. Em teoria seriam símbolos, mas não… eram apenas objetos, porque se alguma intensidade simbólica lhes restasse logo uma catequista, ao microfone, se encarregou de os esvaziar de qualquer funcionalidade simbólica, com a explicação daquilo que, nos objetos em questão, não era mais do que uma evidência. O kitsch assumiu as proporções do paroxismo quando um cartaz de cartolina amarela, feito de improviso, ombreou com o pão e o vinho, e mesmo o pão e o vinho não escaparam às palavras com que a catequista inconscientemente menorizou os dons e a assembleia. No final, depois de uma série de peripécias e amadorismos de todo o tipo, um grupo de crianças cantou uma dessas canções pop-pastiche em que a letra original foi substituída por uma composição piedosa escrita por um catequista com pretensões de poetastro. Tudo terminou com uma entusiástica ovação e rasgados elogios por parte do presbítero. Saí dali profundamente amesquinhado.

Como chegamos aqui?

Parece que não temos por onde escapar: se não denunciamos estas situações, tornamo-nos cúmplices deste generalizado elogio da mediocridade; se as denunciamos, facilmente somos rotulados de snobs e pretensiosos.

Quem me dera estar a falar da tradição popular na liturgia; quem me dera estar a falar de um colorido etnográfico, da expressão de folk-motives. Mas não. Estamos hoje tão preocupantemente distantes das pequenas tradições, como da grande tradição de uma estética teológica que nunca se restringiu aos manuais, nem mesmo ao discurso dos teólogos, mas que ousou consubstanciar-se em arte e literatura.

Urge uma consequente pastoral da cultura; urge denunciar o modo como a «banalidade intranscendente» (8) não só infestou os nossos espaços e as nossas liturgias, como depauperou desoladoramente o nosso imaginário.

 

(1) José Rui Teixeira, Vestigia Dei. Uma leitura teotopológica da literatura portuguesa, Maia, Cosmorama Edições, 2019.
(2) Cf. María Negroni, El arte del error, Madrid, Vaso Roto Ediciones, 2016, p. 9.
(3) Cf. Julio Ramón Ribeyro, Prosas apátridas, Porto, Edições Ahab, 2011, p. 99.
(4) Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 156.
(5) Walter Benjamin, Libro de los pasajes (N 3 a, 1), Madrid, Ediciones Akal, 2017, p. 466.
(6) Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, p. 239.
(7) Filme de Alice Rohrwacher, de 2011, que retrata o contexto de uma catequese paroquial italiana, em Reggio Calabria.
(8) Conceito de Pedro Castelao: cf. La visión de lo invisible. Contra la banalidad intrascendente, Moliaño, Sal Terrae, 2015.

 

 

José Rui Teixeira
Imagem: Chiesa Nuova, Roma | Tupungato/Bigstock.com
Publicado em 23.09.2019

 

 
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