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Graham Greene: O catolicismo de um nómada

Graham Greene, nascido a 2 de outubro de 1904 e falecido há trinta anos, a 3 de abril de 1991, não foi um romancista sedentário. Antes, foi testemunha direta de muitas das crises políticas e militares que ocorreram na segunda metade do século XX, depois de ter participado na segunda guerra mundial ao serviço dos serviços secretos ingleses – nunca se esclareceu se e quando os deixou definitivamente, até porque, diz-se, em certos contextos, quando se entra nunca mais se pode sair. De resto, é tradição britânica misturar atividade científica e turismo exótico com uma discreta prática de “intelligence” ao serviço do país, que em caso de conflito se torna participação decisiva na guerra.

De origem britânica, Greene passou pela Ásia, África e América, do Vietname ao Congo, de Israel ao Haiti, quase sempre em situações de tensão e violência, a recolher informações sobre o que estava a acontecer, para as utilizar como material de base para romances e artigos.

Não que a vida quotidiana de Greene, muitas vezes apoiada em fármacos que lhe permitiam permanecer acordado ou adormecer quando queria, se desenrolasse com pacatez quando não escrevia. Movimentava-se com frequência entre as suas residências na ilha de Capri, Paris, Londres e Costa Azul, ou em viagem com uma das suas numerosas noivas, protagonistas de relações longas, intensas e muitas vezes simultâneas, num novelo afetivo do qual emerge de vez em quando a família: o filho, a filha ou a mulher, que na juventude se diz que esteve ligada à origem da decisão de aderir ao catolicismo.



«Tinha esta anomalia de ser católico, por si uma coisa habitual, mas não entre os escritores ingleses, e, como antes dele Chesterton, teve-a sempre bem estampada no rosto, como uma forma de patente estrabismo»



Em relação à espiritualidade daquele que é comummente considerado o maior romancista católico do século XX, são-lhe atribuídas frases e gestos que o enquadram num retrato de homem consciente dos limites da condição humana e das dúvidas que ela comporta; respeitoso da piedade popular e quase invejoso da capacidade de acreditar em Deus dos sofredores; ligado de maneira estreita a formas diversas de manifestação religiosa, sem recusas preconceituosas e em busca constante.

Em Itália participa numa missa presidida pelo Padre Pio e fica impressionado; aprecia a liturgia em latim, porque lhe permite frequentar as celebrações em qualquer lugar do mundo onde se encontre; pelo contrário, permanece frio durante a sua experiência na Terra Santa; em Salamanca insiste em visitar o túmulo do escritor Miguel de Unamuno, de quem era grande admirador; quando, em 1987, lhe pedem para proferir um discurso durante uma cerimónia que acontece no Kremlin, deseja a retoma das relações diplomáticas entre Moscovo e a Santa Sé, o que vem a verificar-se três anos depois.

O traço característico da religiosidade de Graham Greene parece encontrar-se na capacidade de aceitar a dúvida, de a acolher como elemento necessário da condição humana e de reconhecer que a fé é um dom ao qual é preciso agarrar-se com todas as forças, com a consciência de que se trata do tesouro mais precioso que uma pessoa pode possuir. Que a sua capacidade de acreditar era luminosa é demonstrada pelo facto de muitos daqueles que viveram em torno a ele abraçaram o catolicismo.

«Tinha esta anomalia de ser católico, por si uma coisa habitual, mas não entre os escritores ingleses, e, como antes dele Chesterton, teve-a sempre bem estampada no rosto, como uma forma de patente estrabismo», observou o escritor Alessandro Barico em nota que acompanha a reedição italiana de “O cônsul honorário”.

A Greene são atribuídas declarações, que remontam a 1968, vinte e três anos antes do seu desaparecimento, relativas ao que se pode esperar para além da morte: «Creio decididamente no Purgatório. O Purgatório, para mim, faz sentido, enquanto o Inferno não». A fé na imensa misericórdia de Deus.


 

A partir de texto de Sergio Valzania, com Silvia Guidi
In L'Osservatore Romano
Trad./edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Graham Greene | D.R.
Publicado em 05.05.2021

 

 
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