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Cardeal Tolentino é «património cultural imaterial português», considera presidente da República

O presidente da República considera que D. Tolentino Mendonça é «património cultural imaterial português», e recordou a alocução que o cardeal proferiu por ocasião do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a 10 de junho, que «tocou tanta gente» e demonstrou «a união incindível entre memória e quotidiano».

As palavras, em mensagem vídeo, foram proferidas a concluir a sessão de atribuição do prémio europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2020, que foi entregue na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, ao bibliotecário e arquivista da Santa Sé, distinção que, para Marcelo Rebelo de Sousa, «é uma evidência».

Para o secretário-geral da ONU, «o que mais impressiona em Tolentino de Mendonça é a conjugação das facetas do homem da fé, do homem da cultura e do conhecedor da realidade humana. A sua palavra é uma voz singular escutada por uma audiência ampla e composta por sensibilidades muito distintas».

D. Tolentino «faz com que cultura transponha fronteiras e universos e inspire quem o ouve e lê, independentemente do grau de instrução que possui ou das convicções que defende», contribuindo para cumprir um desígnio que é também o lema de uma destacada entidade das Nações Unidas, a UNESCO: criar a paz no espírito dos homens e das mulheres», afirmou António Guterres, também em video.

A concluir o depoimento, o responsável perguntou ao distinguido «como pode a cultura contribuir para a amizade social, de que fala o papa Francisco na encíclica “Fratelli tutti”».



O «alto cargo» que D. Tolentino exerce no Vaticano é «a eloquente feliz confirmação de uma existência dedicada aos livros e de uma vida vivida para as pessoas»



Na sua alocução, o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura centrou-se na importância do livro, na sua progressiva substituição pelo ecrãs, e ao qual é reservado um papel cada vez mais minoritário, tendo concluído com um apelo: «Protejamos o património cultural que os livros representam», eles que são como «telescópios» e «sondas».

Antes, o cardeal Tolentino respondeu à questão colocada por António Guterres, tendo sinalizado «três palavras que são como que a arquitetura da presença no mundo da cultura, e que a ligam à amizade».

Em primeiro lugar, a «curiosidade», concretizada no «interesse pelos outros, a disponibilidade por perceber o que ainda não alcançámos, ainda não conhecemos», e que o outro «oferece». Na curiosidade «conhecemo-nos a nós próprios»

A seguir, destacou o «encontro», e nele o «inesperado», o «diverso», «necessariamente dialógico», a «capacidade do espanto, da escuta, o tempo necessário para tornar preciosos o próprio encontro, o respeito mútuo», tendo acentuado que «a alteridade do outro não é uma ameaça, não é hostilidade, mas desafio à hospitalidade».

Por fim, a palavra «futuro», «indissociável da relação com o outro», pois, como refere o papa Francisco, «estamos no mesmo barco»; «esta consciência profunda na amizade civil, social, cultural, fazemos como a experiência que mais nos enriquece».



«O cardeal Tolentino tem demonstrado, na sua vida e na sua obra, ser um homem de alianças, de diálogo e de comunicação. Liga ou religa o antigo e o novo, o sagrado e o profano, o local e o universal, o certo e o incerto, o real e o imaginário, o solitário e o solidário, o próximo e o distante»



Entre os intervenientes na cerimónia esteve a ministra da Cultura: «Este prémio é uma oportunidade de ouro para homenagearmos figuras ímpares da cultura europeia, como Helena Vaz da Silva, que pela vida e pela obra, por aquilo que são, representam e fazem, se constituem como referências e exemplos na defesa da cultura e do património. Entre essas está, por direito próprio, e amplamente reconhecido, a figura ilustre do cardeal D. José Tolentino Mendonça, madeirense, português, europeu e cidadão universal, cumprindo assim o sentido essencial da palavra “católico”».

«Ao distinguirmos o cardeal D. José Tolentino, homenageamos o poeta, o erudito, o homem da cultura, o mensageiro de valores. Na sua voz falada ou escrita, em Lisboa ou em Roma, na cátedra ou no púlpito, no mundo eclesial ou n o mundo civil, nas palavras ou nos gestos, há uma continuidade que advém do entendimento da cultura como revelação do homem a si mesmo», acrescentou Graça Fonseca.

No entender da responsável, o «alto cargo» que D. Tolentino exerce no Vaticano é «a eloquente feliz confirmação de uma existência dedicada aos livros e de uma vida vivida para as pessoas».

«O cardeal Tolentino tem demonstrado, na sua vida e na sua obra, ser um homem de alianças, de diálogo e de comunicação. Liga ou religa o antigo e o novo, o sagrado e o profano, o local e o universal, o certo e o incerto, o real e o imaginário, o solitário e o solidário, o próximo e o distante. Podemos, então, perguntar, se a cultura não for isto, então o que é a cultura?», questionou.



«A melhor arte de viver é inseparável de uma arte de lembrar o passado, a criar presente e de acreditar no futuro. Isso mesmo não tem cessado de nos dizer José Tolentino Mendonça»



Depois de, em nome próprio e do Governo, «saudar calorosamente» o premiado, «e agradecer-lhe o que fez, o que faz e continuará a fazer pela cultura portuguesa, esteja onde estiver», a ministra frisou que o tempo atual «precisa de poetas» que «devolvam a raiz do que somos e da utopia que sonhamos ser».

«Por isso, a melhor maneira de homenagear José Tolentino Mendonça é trazer até ele, e até nós, o que dele é, sendo também já nosso, os seus versos: “Nascemos e vivemos só algum tempo/ não temos nada/ não podemos mesmo na penumbra/ decidir a atenção ou o esquecimento” [de “O último dia de verão”]». E é por isso que a melhor arte de viver é inseparável de uma arte de lembrar o passado, a criar presente e de acreditar no futuro. Isso mesmo não tem cessado de nos dizer José Tolentino Mendonça», declarou Graça Fonseca.

No início da sessão, a presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Isabel Mota, anunciou que em 2021, ano em que se assinalam os 700 anos da morte de Dante, a instituição vai acolher uma exposição com obras emprestadas pela Biblioteca Apostólica do Vaticano, nomeadamente dois desenhos alusivos à "Divina Comédia", de Botticelli.









 

Rui Jorge Martins
Imagem: Card. José Tolentino Mendonça | D.R.
Publicado em 23.10.2020

 

 
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