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Basílica de Nice: Pároco espera que atacante «encontre um lugar onde se converter à vida»

Encontramo-nos com Franklin Parmentier, pároco da basílica de Nossa Senhora da Assunção, numa sala paroquial contigua a uma igreja de Nice, a 31 de outubro. O espaço está cercado por forças da ordem. O sacerdote não sabe para onde se virar, constantemente solicitado por paroquianos e outros padres. Além disso, está mergulhado nos preparativos da missa de reparação pelo ataque cometido na quinta-feira, 29 de outubro – que causou a morte de duas mulheres, uma delas brasileira, e do sacristão –, marcada para este domingo. Os tempos são de paranoia. No mesmo dia da entrevista, um padre ortodoxo foi atingido a tiro à porta de uma igreja grega em Lyon. Um agente da polícia vem à porta para recomendar fechar as portas à chave, porque um «indivíduo suspeito» foi observado numa rua próxima. O P. Parmentier consegue, finalmente, isolar-se quarenta minutos para esta conversa, tecida de palavras que têm maturado nele desde há alguns dias.

 

O primeiro de novembro devia ser o dia da vossa missa de instalação enquanto novo pároco da basílica de Nossa Senhora da Assunção [Notre-Dame de l’Assomption]; que não vai acontecer…

Sim. Celebraremos uma missa de reparação no local, seguida missa da solenidade de Todos os Santos. Confiaremos esta reparação às mãos de Deus, e pedir-lhe-emos perdão, para que nos ajude a reencontrar o porquê da igreja ter sido feita. Que ela aconteça a 1 de novembro não é um acaso, penso eu. Deus dá-nos a ocasião de responder a um ato de ódio e de morte com um ato de comunhão e de amor, pela restauração de um lugar onde Deus dá a vida. Vejo-o como um sinal muito simbólico.

 

A basílica vai, portanto, reabrir?

Sim, a partir de segunda feira [hoje, 2 de novembro], aquando da oração pelos defuntos.

 

Alguns cristãos aterrorizados apelam à Igreja, pelo contrário, para fechar os seus lugares de culto, para não haver qualquer risco neste contexto explosivo. Por que não encerrá-las?

Porque é só o que os terroristas esperam. Recusamo-nos a submetermo-nos à violência, ao medo, à barbárie. Não os deixarei vencer. Nós, cristãos, já fizemos a experiência de Cristo morto na cruz, como um cordeiro conduzido ao matadouro. «Por tua causa, arriscamos incessantemente a morte. Tratam-nos como ovelhas para a matança» (Romanos 8,36). Jesus abriu o túmulo, não o fechou. Por isso, os cristãos não fecham as igrejas, que são locais de ressurreição. Eu sei que alguns consideram-no perigoso ou irresponsável. Mas se se pensa que viver é não correr riscos, então não se vive. Suporta-se.

A Madre Teresa dizia uma belíssima oração: «A vida é um combate, aceita-o. A vida é uma tragédia, luta com ela. A vida é a vida, defende-a. A vida é felicidade, merece-a». No canto “Veni creator” pedimos ao Espírito Santo para nos consolar. Não é apenas um lindo cântico; é nesses momentos, mais que nunca, que devemos pedir a força do Espírito Santo.

 

Permanecerão traços físicos do ataque na igreja?

As equipas da polícia e do antiterrorismo selaram tudo o que era necessário para as suas investigações. A basílica foi depois limpa várias vezes. Dei-me conta disso hoje. Tudo estava limpo, os espaços cheiravam bem. Mas isso não lava a emoção que está em nós.

 

Conhecia bem Vincent Loquès, o sacristão da basílica assassinado?

Conheci-o há 19 anos. Era então sacristão na paróquia de Santa Joana d’Arc de Nice, onde fui seminarista. Tinha o seu carácter. Mas era, antes de tudo, alguém generoso, com muito talento. Fazia belíssimos presépios; na terça-feira falou-me das futuras instalações aquando de um pequeno-almoço. Acolhia muito bem as pessoas. Suprimiu parte dos bancos para que os fiéis tivessem mais espaço para rezar na basílica. Quando se tem ideias como esta, é porque se ama o lugar de que se ocupa.

 

A função de sacristão vai permanecer na basílica?

(Silêncio.) É preciso viver o momento que Deus nos pede para viver. Há um tempo para chorar, fazer memória, e depois pensar no funcionamento. À força de estar sempre em modo de previsão, já não se vive o tempo presente. Um momento, é preciso saber parar. Por agora, os nossos pensamentos são Vincent, Nadine, Simone.

 

Vem muitas vezes à basílica?

Duas vezes por dia. Sou pároco de três paróquias, esta é uma delas. Parava aqui quase todos os dias para saudar o Vincent, reunir o correio, ver a economia diocesana. Na véspera do ataque presidi à missa às 18h00. Devia fazê-lo à mesma hora no dia 29 de outubro.

 

Disse que poderia ter estado na basílica quando do atentado?

Sim. Mas tento não pensar nisso. O que me mantém são os testemunhos de afeto, as orações dos crentes, da comunidade, da minha família. Dizendo de outra forma, o poder do amor e da amizade, que é a experiência do que é o verdadeiro Deus. Ontem, recebi uma mensagem das religiosas do Carmelo de Lyon. Rezam por nós. Tocou-me. Não é de negligenciar, a comunhão da oração.

 

Acredita que há significado no facto de este ato ter ocorrido alguns dias antes da sua missa de instalação?

(Longo silêncio.) É uma questão que me coloco há vários dias. Em 2015, as inundações mataram 20 pessoas na minha paróquia, Saint Vincent de Lérins, próximo de Mandelieu-la-Napoule. Foi muito doloroso. O ano passado, voltou, com sete mortos. Há dois anos tive um acidente terrível, que me abrandou. Não acho que trago azar. Mas não é possível impedir perguntar porque é que se vivem estas experiências.

Ora, «quando se procura a resposta ao porquê, procura-se um responsável, um culpado. Quando se procura a resposta ao como, encontram-se aliados». Esta frase da escritora Anne-Dauphine Julliand marcou-me profundamente. Trago-a comigo há anos. É preciso viver com aliados, não com inimigos. S. Paulo dizia: «Deus não permitirá que sejais tentados para além das vossas forças». Se Deus deseja que eu esteja lá nesse momento, talvez seja por me estar a pedir para ser uma testemunha. A nossa fé obriga-nos a levar a sério o que é a ressurreição, a violência, a questão do mal, o poder do Espírito Santo. Não são só textos recitados. Acredito num Deus que venceu o mal. Aquele que quer ser todo-poderoso através da violência é o diabo, a omnipotência mágica, que ordena a Jesus para se lançar do templo. Deus não quer fazer nada por sadismo. O amor de Deus é maior que todos os poderes.

 

Apesar de tudo, sentiu cólera?

Sim, tive muita cólera. Mas há dois tipos de cóleras. Aquela que se sente quando o mundo não é como se desejaria que fosse. E aquela experimentada quando a realidade do mundo nos ultrapassa.

A primeira cólera é o orgulho. Quer-se que o mundo seja à nossa imagem. Ora, o mundo é à imagem de Deus. A segunda cólera, que eu senti, é contra alguma coisa que nos ultrapassa infinitamente. É uma revolta contra o mal. Mas não se pode responder ao mal com o mal. Isso quereria dizer que se deixa Satanás vencer. A nossa cólera não nos deve assemelhar a Satanás, mas a Deus. Deus, por vezes, na Bíblia, encoleriza-se. Mas é uma cólera de amor: Ele quer que vivamos no amor. A nossa cólera deve suscitar em nós uma força de amor, e não de destruição, de vingança, de ódio.

 

Como consegui-lo, neste mundo que sofre tanto atualmente?

É justamente agora que começa a nossa fé. A realidade faz-nos tocar com o dedo o que professamos. A fé não é apenas uma crença, uma doutrina, um sistema, mas uma relação com Deus. A Palavra de Deus não foi feita só para os homens que viveram há dois mil anos, mas para hoje. Veja o texto da liturgia diária no dia do ataque: «Revesti-vos da armadura de Deus, para terdes a capacidade de vos manterdes de pé contra as maquinações do diabo. (…) Mantende-vos, portanto, firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade, vestido a couraça da justiça, e calçado os pés com a prontidão para anunciar o Evangelho da paz, acima de tudo, tomai o escudo da fé» (de Efésios 6,10-20).

 

Tem medo?

Não é uma questão de medo, mas de avaliar o que se passou. Quando se faz face a um tal abismo de violência… (interrompe, enxuga os olhos). Sabe, o tempo parou nesse dia. Cheguei às 9h30 à basílica, rodeado de sirenes, de polícias, de políticos. Muitos foram admiráveis. Não estamos sós; no exterior há pessoas maravilhosas, e no interior há o coração a coração com Deus.

 

O terrorista, ferido, está agora tratado. Pensa nele?

Quando o papa João Paulo II foi atacado, a 13 de maio de 1981 [em Fátima], o seu atacante não foi morto. Muitos o desejariam. Mas alguma coisa transformou esse homem na prisão. Bento XVI dizia que é preciso «esperar contra toda a esperança». Espero que este homem que atacou a basílica encontre um lugar onde se converter à vida. Onde renuncie à morte, à violência, aos seus falsos deuses, pelo Deus que ama. Tenho esta esperança. Não me pertence, nem a João Paulo II quando se encontrou com o seu agressor. Não é utópico. A Igreja é contra a pena de morte porque acredita que um homem pode realizar algo de maior que os seus atos.


 

Pierre Wolf-Mandroux
In Le Pèlerin
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: © Laurent Carré/Le Pèlerin
Publicado em 02.11.2020

 

 
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