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O blasfemo homicida, os justos crentes: Nice fala à Europa

Os três homicídios na Nossa Senhora da Assunção em Nice são uma loucura cruel, um ato de injúria, uma blasfémia. Quem se demora numa igreja é um manso que se apresenta ao Senhor e procura proteção na casa dedicada à Virgem. Assim eram as duas mulheres (uma dos seus 70 anos) e aquele homem. Era o sacristão da basílica oitocentista, construída a partir do modelo da Notre Dame de Paris. O assassino não viu nelas seres humanos, mas, cego pelo ódio, delas fez o símbolo de gente ímpia, inimigos do islão, porque cristãos. Gritou «Deus é grande», louvor reduzido a slogan dos terroristas islâmicos, blasfémia manchada de sangue também para os muçulmanos. A Igreja tinha feito alguma coisa contra ele? Não, seguramente.

Mas os cristãos são atingidos como símbolo da Europa inimiga. E no entanto, o assassino tinha chegado recentemente à Europa. Todavia, odiava-a. Odeia-se a si mesmo e não sabe quem é. Assim, com um gesto insano, fez-se “combatente” contra os inermes, esperando sair do anonimato e aureolar-se de heroísmo e, talvez, de martírio. Mas mártires são as suas vítimas. Ontem, outros em França tentaram fazer-se “heróis”, tentando matar vilmente, mas foram travados. Estão em guerra contra a França e a Europa, que os acolheram. Não é a primeira vez que os terroristas atingem a Igreja. Em 2016 mataram no altar, em Rouen, o padre Jacques Hamel, de 85 anos, sequestrado com alguns fiéis. Sem piedade.

As três vítimas de Nice são filhas de um povo humilde que, em silêncio e com tenacidade, repõe em Deus a sua confiança: vai à igreja e reza por si e por todos. Não participa apenas na missa, mas passa na igreja um momento, buscando no silêncio a presença do Deus da paz e do amor. Aí está a fonte da fé que acompanha todo o dia os mansos visitadores da casa do Senhor. A oração de um punhado de justos sustenta e salva o mundo, ensina um santo do Oriente. Não é necessário incomodar os ascetas. Os justos são os três mortos na igreja que, com a oração de quem visita a igreja, sustenta o mundo.



Nada justifica a violência, mas é preciso lutar contra os maus mestres, os fomentadores do ódio, abrindo alternativas para os jovens e desesperados. Os cristãos europeus, em dificuldade como todos devido à pandemia, tocados por vários problemas, atingidos por atos de violência, têm de reencontrar a audácia evangélica



Durante o incêndio de Notre Dame de Paris, em 2018, muitos tiveram uma dúvida: o fogo da catedral não simbolizaria, talvez, uma Igreja que se extingue? A Igreja pode ser hoje atingida por problemas, por vezes fatigantes. Mas um povo humilde, nas pregas do quotidiano, confia no Senhor. Os três caídos em Nice não são restos do passado, mas premissas do futuro. Da fidelidade à oração por parte dos justos, não tanto dos projetos, nasce a Igreja de amanhã.

As reações da Igreja francesa foram dolorosas e pacatas: a gritaria serve para atiçar os fanatismos.

A Igreja, humildemente, poderá ajudar a Europa a encontrar o caminho num tempo difícil por causa da pandemia e a complexa convivência entre diferentes. Não é de hoje que o papa e a Igreja mostram como não pode haver fechamento aos refugiados, e é preciso concretizar vias legais, as únicas a dar segurança.

Ao contrário, demasiadas vezes, fechou-se a porta e deixou-se prosperar a ilegalidade, “investiu-se” politicamente nela, enquanto tantos morriam no Mediterrâneo. E depois há as periferias anónimas sem comunidade, onde escola e professores são a única presença educativa (e a que preço!). É necessário investir em refazer o tecido humano das periferias, para que sejam capazes de integrar.

Nada justifica a violência, mas é preciso lutar contra os maus mestres, os fomentadores do ódio, abrindo alternativas para os jovens e desesperados. Os cristãos europeus, em dificuldade como todos devido à pandemia, tocados por vários problemas, atingidos por atos de violência, têm de reencontrar a audácia evangélica.

Nice fala à França, mas também a vários países europeus. Está voltada pra o Mediterrâneo, é banhada pelas contradições deste mar: as graves tensões políticas especialmente na margem sul, as migrações. O sangue derramado de três cristãos, humildes e desarmados, é uma semente de paz. Faz-nos esperar por um despertar das consciências por uma sociedade mais fraterna, no momento em que a França entra no confinamento. Faz-nos acreditar que sejam possíveis novas relações neste Mediterrâneo atormentado.


 

Andrea Riccardi
Historiador
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Maartins
Imagem: D.R.
Publicado em 30.10.2020

 

 
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