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As novas fronteiras da teologia, serva de todas as ciências

A teologia (católica) empenhou-se desde sempre em mediar culturalmente o verdadeiro rosto de Deus revelado por Jesus Cristo, e deve continuar a fazê-lo com competência crítica, com um exercício sapiente da razão crítica, perante o contínuo surgimento de possíveis deformações idolátricas do conceito de Deus e das suas imagens plurais.

Se, todavia, se fala de “refundação”, é possível que se tema o risco para a teologia que se baseie demasiadamente noutros fundamentos que não sejam diretamente a revelação cristã e o seu desenvolvimento dogmático na tradição da Igreja, devido à necessidade – obviamente incontestável – de “filosofar em teologia”. Assim aconteceu, felizmente, nos séculos de ouro da integração do neoplatonismo (com Agostinho) e do aristotelismo (com Tomás de Aquino).

Este esquema (precioso) tem como produto um “fantasma inconsciente” (…), que “heterodirige” o desejo de todo o bom teólogo: o de procurar uma filosofia satisfatória a “utilizar” como infraestrutura concetual para o brilhante trabalho teológico. Por outro lado, não é a filosofia “serva” da teologia?



Se a teologia é «obediente serva da fé e da revelação cristã», então – enquanto «saber crítico da revelação e da fé cristã» - pode, por si, entrar em diálogo com todos os saberes humanos, na busca comum da verdade: dando e recebendo de todos os saberes, inclusive os das plurais filosofias, hoje em campo



Eis, então, a pergunta colocada com franqueza e simplicidade: a refundação desejada não deveria passar se (e só se) a teologia se tornar “serva” da filosofia e de todos os outros saberes?

A “teologia serva” é uma imagem totalmente tradicional, se pensarmos bem. Para a compreender, é preciso, no entanto, ver com “olhos novos”, em direção ao encontro histórico da teologia com a filosofia.

Acreditamos firmemente que a “Fides et ratio”, de S. João Paulo II, descerra perspetivas de futuro naquela direção, que aguardam para ser desenvolvidas e vividas em ordem a uma concretizável refundação da teologia, hoje. É preciso, por tanto, refundar a filosofia, “utilizando” o saber da fé católica, para que esta filosofia possa depois ser útil não tanto na explicação do mistério cristão, mas sobretudo para remover “os absurdos” que a linguagem da fé muitas vezes representa para a razão crítica dos interlocutores. (…)

Se a teologia é «obediente serva da fé e da revelação cristã», então – enquanto «saber crítico da revelação e da fé cristã» - pode, por si, entrar em diálogo com todos os saberes humanos, na busca comum da verdade: dando e recebendo de todos os saberes, inclusive os das plurais filosofias, hoje em campo. Dignamente poderá também interagir com todas as ciências, sem necessárias (e por vezes embaraçantes) mediações concetuais do passado e do presente, mostrando saber usar a “ratio” intrínseca à fé para comunicar a sua visão do mundo e da realidade (a sua “Weltanschauung”, diria Romano Guardini). Além de Rosmini, a “Fides et ratio” menciona Pavel Florenskij como modelo de “pensador” capaz de fazer funcionar o dado da fé para abrir horizontes de compreensão e de busca da razão, mais que contrastá-la ou limitá-la: a fé potencia a razão. Trata-se aqui d eum filósofo, teólogo, mas também de um cientista do eletromagnetismo, com descobertas científicas originais ao seu tempo, nos inícios do século XX.



A teologia fundamental, sobretudo no seu perfil apologético, concentrou os seus esforços (a partir do surgimento das filosofias materialistas) na argumentada refutação do pensamento não crente: privilegiou, no debate, o campo filosófico, descurando ou subordinando excessivamente o literário, artístico e científico



Novos horizontes de compreensão da realidade são descerrados hoje pelas ciências, em particular pela nova física das partículas elementares, entrelaçada (“entangled”) com a astrofísica, que urge um repensamento da velha cosmologia. São ganhos cognitivos que a teologia não pode não escutar para dizer hoje Deus e para o anúncio do Evangelho, à altura dos desafios humanos contemporâneos.

Neste contexto, o pensamento teológico seria inteiramente repensado. A teologia fundamental, sobretudo no seu perfil apologético, concentrou os seus esforços (a partir do surgimento das filosofias materialistas) na argumentada refutação do pensamento não crente: privilegiou, no debate, o campo filosófico, descurando ou subordinando excessivamente o literário, artístico e científico. Mesmo nos tempos mais recentes, com o declinar das ideologias dos séculos XIX e XX, a produção teológica empenhou-se em rejeitar o pensamento pós-moderno e relativista. Sempre filosofias. O século XX, com o seu legado de ideologias falhadas, pertence agora à história, e o pensamento débil é tão débil que é impercetível.

A frente hoje aberta é, antes, outra: a da ciência. E não o é apenas em relação aos círculos intelectuais não-crentes, mas também a um sentir comum, por causa da divulgação científica praticada em abundância. Das neurociências, como da astrofísica, e ainda mais hoje da mecânica quântica vêm oposições consistentes ao pensamento crente, mas também oportunidades inesperadas. As neurociências desafiam o conceito de psique e de alma, a astrofísica problematiza a antropologia teológica, a quântica interroga-nos sobre a matéria, tempo e real. Não pensamos com Stephen Hawking que a filosofia está morta, e que a verdadeira metafísica resida na quântica. Mas está fora de dúvida que uma investigação teológica irredutível a mera especulação abstrata deve necessariamente medir-se com estes variados planos de confronto.


 

Roberto Cetera, Antonio Staglianò
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Casanowe/Bigstock.com
Publicado em 22.02.2022 | Atualizado em 24.02.2022

 

 
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