

«A bondade como uma lucidez, mas uma lucidez com compaixão», são algumas das particularidades da escrita de António Lobo Antunes nos últimos anos da sua vida, considerou a diretora do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), Isabel Maria Alçada Cardoso.
Em declarações à Renascença, que solicitou um comentário à obra do escritor falecido a 5 de março, a responsável referiu-se à transformação ocorrida entre os primeiros livros e os mais recentes, nos quais, «apesar da dor, do sofrimento, da violência, há sempre uma resistência à desumanização».
As narrativas dos primeiros tempos apresentam «um mundo sem ilusões» e, até, com «desconfiança das ilusões», mas a «bondade» vai emergir «na própria fragilidade de algumas das suas personagens», afirmou.
Depois de classificar António Lobo Antunes como «uma das vozes mais marcantes na literatura contemporânea em Portugal», Isabel Maria Alçada Cardoso realçou três características que marcam a escrita do autor: «paciência, solidão e orgulho», notas «absolutamente fundamentais e muito provocadoras para os dias de hoje».
A vivência de António Lobo Antunes, por exemplo enquanto militar envolvido na guerra no Ultramar e como psiquiatra, configurou a sua obra, habitada por personagens «violentas», de onde sobressai «o melhor e o pior que há na condição humana», muitas vezes transfigurada pelo «horror da guerra».
«Ele parte sempre da realidade, não especula a partir de uma ideia, mas a partir, por um lado da sua experiência pessoal, mas também das pessoas que encontra, das circunstâncias que observa da história que vamos viver no dia a dia», apontou a diretora do SNPC.