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A teologia da libertação e o papa que trabalha para mudar o sistema

Ocupados com os trágicos acontecimentos da pandemia e a perspetiva pouco alegre de um Natal sem festejos, ou mais reduzidos do que o habitual, os jornais reservaram escassa atenção à iniciativa “A Economia de Francisco”, e que reuniu cerca de dois mil jovens economistas e empreendedores de 120 países, todos abaixo dos 35 anos, 56% homens e 44% mulheres.

Desde março, o encontro, fortemente desejado pelo papa Francisco, foi ativamente preparado por centenas destes jovens, que deram vida, já no período anterior ao congresso, a um verdadeiro movimento de que os três dias de sessões, concluídos no sábado, foram o coroamento. Este, disse o coordenador científico, Luigino Bruni, «é já o primeiro grande e importante resultado de “A Economia de Francisco”.

 

Não foi um encontro académico

Um resultado que está destinado a dilatar-se e reforçar-se porque, nos países dos participantes, nasceram redes, estruturas para seguir o evento, com o propósito de envolver os jovens e toda a comunidade, para possibilitar uma experiência partilhada de debate e aprofundamento inclusive para além do horário do programa.

Não estamos perante um acontecimento académico. Os nomes dos relatores são famosos – por exemplo, um prémio Nobel –, mas aquilo que se criou é um grande laboratório no qual é decisiva a contribuição dos participantes e a aplicação nos seus ambientes de trabalho e de vida. Não foi por acaso que se colocou como limite de idade os 35 anos: quis-se apostar na criatividade e capacidade inventiva dos jovens, desafiando lugares comuns e esquemas pré-concebidos sobre a economia neocapitalista que hoje impera.

O objetivo da iniciativa é, com efeito, projetar e construir um mundo mais humano, portanto mais equitativo e sustentável, do que o existente. Os textos de referência são as duas últimas encíclicas do papa Francisco, “Laudato si’” e “Fratelli tutti”.

 

O núcleo doutrinal: a «ecologia integral»

Está em jogo a crise ecológica, mas não no sentido restrito em que muitas vezes é entendida por muitos movimentos de “verdes”, que olham quase exclusivamente para o respeito do ambiente natural. Como se diz na “Laudato si’”, «não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma só e complexa crise socio-ambiental. As diretrizes para a solução requerem uma aproximação integral para combater a pobreza, para restituir a dignidade aos excluídos, e, ao mesmo tempo, cuidar da natureza» (n. 39). É isto que o papa denomina «ecologia integral».

O grande escândalo do mundo contemporâneo não é só a poluição e o aquecimento global, mas – incindivelmente ligado com estes fenómenos – o facto de que «enquanto uma parte da humanidade vive na opulência, outra parte vê a sua dignidade desconhecida, desprezada ou pisada, e os seus direitos fundamentais ignorados ou violados» (FT, n. 22).

«Para poder falar de autêntico desenvolvimento, é preciso verificar que se produz uma melhoria integral na qualidade da vida humana» (LS, n. 147). Mas tal não acontece, porque a garantir esta qualidade, através da prossecução do bem comum, deveria estar a política, e no sistema atual a política está submetida a uma economia que «assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro», porque, por sua vez, é dominada por uma finança que «sufoca a economia real» (LS, n. 109).

 

A acusação de Francisco ao neocapitalismo

O pontífice, neste ponto, não usa perífrases, e chama as coisas pelo seu nome: «A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois duma longa, custosa e aparente cura. A crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da atividade financeira especulativa e da riqueza virtual. Mas não houve uma reação que fizesse repensar os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo» (LS, n. 189).

Daqui as manobras de diversão que fazem crer ao grande público que o problema é uma excessiva natalidade: «Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e seletivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas» (LS, n. 50).

Sob acusação está também a globalização, cujo resultado, nas formas atuais, é «impor um modelo cultural único. Tal cultura unifica o mundo mas divide as pessoas e as nações, porque a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos próximos, mas não nos torna irmãos» (LS, n. 12).

«Alguns países economicamente bem-sucedidos são apresentados como modelos culturais para os países pouco desenvolvidos, em vez de procurar que cada um cresça com o seu estilo peculiar, desenvolvendo as suas capacidades de inovar a partir dos valores da sua própria cultura» (FT, n. 51).

 

O discurso de abertura do card. Turkson

No discurso com que inaugurou os trabalhos, o cardeal Turkson, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, partiu destas premissas para sublinhar a absoluta necessidade de «gerar uma nova economia», e, mais precisamente, de «passar de uma economia líquida para uma economia social», ou seja, de uma economia «dirigida ao lucro que deriva da especulação e dos empréstimos a altos juros», a uma economia «social que invista nas pessoas, criando postos de trabalho e garantindo formação».

O facto de que para o simpósio tenham sido convidados e participado com entusiasmo jovens estudantes e operadores económicos exclui que estas palavras se fiquem por nobres exortações. Estamos, antes, diante de linhas orientadoras para a elaboração de uma perspetiva irredutível àquele que hoje é considerada óbvia.

 

O magistério da Igreja e o capitalismo

O magistério da Igreja nunca avalizou o capitalismo, e, mesmo quando a queda do marxismo deu a impressão de que não tinha alternativas, João Paulo II teve o cuidado de sublinhar as diferença entre uma economia de mercado – que os factos confirmavam ser a única possível – e a interpretação que dela dá o neocapitalismo, absolutizando a lógica do lucro.

Porém, tratou-se, até agora, à parte os predecessores de Francisco, de tomadas de posição doutrinais – importantes no plano teórico, mas pouco incisivas no prático. Ora, ao contrário, o papa já não se limita a escrever encíclicas, mas empenha-se em traduzi-las numa linguagem que permite aos princípios incarnarem-se em formulações precisas operacionais.

Mais: dá vida a um movimento de pensamento capaz de envolver o mundo académico e o da produção, que, partindo das evidentes contradições do sistema dominante, não o ataca – como em 1968 – com golpes de “slogans” e ruidosas contestações na praça pública, mas através da elaboração construtiva de soluções alternativas.

 

Duas “teologias da libertação”

Muitos notaram, nestes anos, o influxo que a teologia da libertação teve na formação do papa Bergoglio. Alguns fizeram disso uma acusação, definindo-a até como «comunista».

Na base está a convicção de que a teologia da libertação é um desvio doutrinal condenado pela Congregação para a Doutrina da Fé, na “Instrução sobre a liberdade cristã e a libertação”, de 1986. Poucos sabem que, noutro documento da mesma Congregação, “Libertatis nuntius” (6 de agosto de 1984), depois de ter criticado algumas interpretações distorcidas desta corrente teológica, diz-se: «Esta chamada de atenção não deve, de maneira alguma, ser interpretada como uma condenação de todos aqueles que querem responder com generosidade e com autêntico espírito evangélico à “opção preferencial pelos pobres”. Ela não deve, com efeito, servir de pretexto a todos aqueles que se entrincheiram numa atitude de neutralidade e de indiferença diante dos trágicos e prementes problemas da miséria e da injustiça».

«O escândalo das evidentes desigualdades entre ricos e pobres – quer se trate de desigualdades entre países ricos e países pobres ou de desigualdades entre classes sociais no âmbito do mesmo território nacional – já não é tolerado.»

Deste ponto de vista, diz o documento, «a expressão “teologia da libertação” designa, antes de tudo, uma preocupação privilegiada, geradora de compromisso pela justiça, dirigida aos pobre e às vítimas da opressão».

 

O papa Francisco e a teologia da libertação

Não é Bergoglio a falar, mas o ex-Santo Ofício, e à cabeça dele estava o cardeal Joseph Ratzinger. Há, portanto, uma teologia da libertação plenamente na linha da tradição da Igreja, mesmo se os projetores foram mais vezes apontados pra os filões daquela que não o são.

Escusado será dizer que o papa Francisco faz-se coerente porta-voz das instâncias que estão na base da primeira, e que não só são compatíveis com o Evangelho, mas dele exprimem o apelo a não trocar o cristianismo com «uma atitude de neutralidade e indiferença perante os trágicos e prementes problemas da miséria e da injustiça».

Não sabemos quais serão os resultados a longo prazo de “A Economia de Francisco”. Podemos prever que os ataques contra o papa da parte de Viganò, de Bannon, de outros mais ou menos manifestamente ligados à direita norte-americano, multiplicar-se-ão. Mas, pessoalmente, estou orgulhoso de que a Igreja de que faço parte seja, finalmente, atacada não porque está do lado dos ricos, mas porque se alinhou com os pobres.


 

Giuseppe Savagnone
Responsável pela página da Pastoral da Cultura da arquidiocese de Palermo, Itális
In Tuttavia
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Papa Francisco | D.R.
Publicado em 24.11.2020

 

 
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