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«No monólogo, todos perdemos»: A teologia da escuta no contexto multicultural e religioso do Mediterrâneo

O diálogo como hermenêutica teológica pressupõe e comporta a escuta consciente. Isto significa também escutar a história e a vivência dos povos em torno do espaço mediterrânico para lhes poder decifrar os acontecimentos que ligam o passado ao hoje, e para poder deles colher as feridas juntamente com as potencialidades. Trata-se, em particular, de colher o modo em que as comunidades cristãs e as singulares existências proféticas souberam – inclusive recentemente – incarnar a fé cristã em contextos por vezes de conflito, de minoria e de convivência plural com outras tradições religiosas.

Essa escuta deve ser profundamente interna às culturas e aos povos, também por outro motivo. O Mediterrâneo é precisamente o mar da miscigenação – se não compreendemos a miscigenação, nunca compreenderemos o Mediterrâneo –, um mar geograficamente fechado em relação aos oceanos, mas culturalmente sempre aberto ao encontro, ao diálogo e à inculturação recíproca. Todavia, há necessidade de narrações renovadas e partilhas que – a partir da escuta das raízes e do presente – falem ao coração das pessoas, narrações em que seja possível reconhecer-se de maneira construtiva, pacífica e geradora de esperança.

A realidade multicultural e plurirreligiosa do novo Mediterrâneo forma-se com essas narrações, no diálogo que nasce da escuta das pessoas e dos textos das grandes religiões monoteístas, e sobretudo na escuta dos jovens. Penso nos estudantes das nossas faculdades de teologia, nos das universidades “laicas” ou de outras inspirações religiosas. «Quando a Igreja – e, podemos acrescentar, a teologia – abandona esquemas rígidos e se abre à escuta pronta e atenta dos jovens, esta empatia enriquece-a, porque “permite que os jovens deem a sua colaboração à comunidade, ajudando-a a individuar novas sensibilidades e colocar-se perguntas inéditas”» (exortação “Christus vivit”, 65). Colher sensibilidades novas: este é o desafio.

O aprofundamento do “kerygma” [anúncio/testemunho das verdades essenciais da fé cristã] faz-se com a experiência do diálogo que nasce da escuta e que gera comunhão. O próprio Jesus anunciou o Reino de Deus dialogando com todo o género e categoria de pessoas do judaísmo do seu tempo: com o s escribas, os fariseus, os doutores da lei, os publicanos, os doutos, os simples, os pecadores. A uma mulher samaritana Ele revelou, na escuta e no diálogo, o dom de Deus e a sua própria identidade: abre-lhe o mistério da sua comunhão com o Pai e da superabundante plenitude que brota dessa comunhão. A sua divina escuta do coração humano abre este coração a acolher por sua vez a plenitude do Amor e a alegria da vida. Não se perde nada com o dialogar. Ganha-se sempre. No monólogo todos perdemos, todos.

 

Exemplos de diálogo para uma teologia do acolhimento

“Diálogo” não é uma fórmula mágica, mas certamente a teologia é ajudada na sua renovação quando o assume seriamente, quando ele é encorajado e favorecido entre docentes e estudantes, como também com as outras formas do saber e com as outras religiões, sobretudo o judaísmo e o islão. Os estudantes de teologia deverão ser educados para o diálogo com o judaísmo e o islão, para compreender as raízes comuns e as diferenças das nossas identidades religiosas, e contribuir assim mais eficazmente para a edificação de uma sociedade que estima a diversidade e favorece o respeito, a fraternidade e a convivência pacífica.

Educar os estudantes nisto. Eu estudei no tempo da teologia decadente, da escolástica decadente, no tempo dos manuais. Entre nós circulava uma anedota, todas as teses teológicas se provam com este esquema, um silogismo: primeiro, as coisas parecem ser assim; segundo, o catolicismo tem sempre razão; terceiro, logo… Ou seja, uma teologia de tipo defensivo, apologético, fechada num manual. Nós brincávamos com isso, mas eram as coisas que nos eram apresentadas naquele tempo da escolástica decadente.

Procurar uma convivência pacífica dialógica. Com os muçulmanos somos chamados a dialogar para construir o futuro das nossas sociedades e das nossas cidades; somos chamados a considera-los parceiros para construir uma convivência pacífica, mesmo quando se verificam episódios perturbadores pela mão de grupos fanáticos inimigos do diálogo, como a tragédia da passada Páscoa no Sri Lanka. Ontem o cardeal de Colombo disse-me isto: «Depois de ter feito aquilo que devia fazer, dei-me conta que um grupo de pessoas, cristãos, queria ir ao bairro dos muçulmanos para os matar. Convidei o imã para ir comigo, de automóvel, e juntos fomos lá para convencer os cristãos de que somos amigos, que aqueles são extremistas, que não são dos nossos». Esta é uma atitude de proximidade e de diálogo. Formar os estudantes para o diálogo com os judeus implica educá-los para o conhecimento da sua cultura, do seu modo de pensar, da sua língua, para compreender e viver melhor a nossa relação no plano religioso. Nas faculdades de teologia e nas universidades eclesiásticas são de encorajar os cursos de língua e cultura árabe e hebraica, e o conhecimento recíproco entre estudantes cristãos, judeus e muçulmanos.

Queria dar dois exemplos concretos de como o diálogo que caracteriza uma teologia do acolhimento pode ser aplicada aos estudos eclesiásticos. Antes de tudo, o diálogo pode ser um método de estudo, além de ensinamento. Quando lemos um texto, dialogamos com ele e com o “mundo” de que é expressão; e isto vale também para os textos sagrados, como a Bíblia, o Talmude e o Corão. Muitas vezes, depois, interpretamos um determinado texto em diálogo com outros da mesma época ou de épocas diferentes. Os textos das grandes tradições monoteístas, em alguns casos, são o resultado de um diálogo. Podem dar-se casos de textos que são escritos para responder a perguntas sobre questões importantes da vida colocadas por textos que os precederam. Também esta é uma forma de diálogo.

O segundo exemplo é que o diálogo pode realizar-se como hermenêutica teológica num tempo e num lugar específico. No nosso caso: o Mediterrâneo no início do terceiro milénio. Não é possível ler realisticamente esse espaço a não ser em diálogo e como uma ponte – histórica, geográfica, humana – entre a Europa, a África e a Ásia. Trata-se de um espaço em que a ausência de paz produziu múltiplos desequilíbrios regionais, mundiais, e cuja pacificação, através da prática do diálogo, poderia contribuir grandemente para desencadear processos de reconciliação e de paz. Giorgio La Pira dir-nos-ia que se trata, para a teologia, de contribuir para construir em toda a bacia mediterrânica uma «grande tenda de paz», onde possam conviver no respeito recíproco os diferentes filhos do comum pai Abraão. Não esquecer o pai comum.


 

Papa Francisco
Pontifícia Faculdade de Teologia da Itália Meridional, Nápoles, 21.6.2019
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 21.06.2019

 

 
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