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Para uma teologia do acolhimento e do diálogo

A teologia (…) é chamada a ser uma teologia do acolhimento, e a desenvolver um diálogo sincero com as instituições sociais e civis, com os centros universitários e de investigação, com os líderes religiosos e com todas as mulheres e homens de boa vontade, pela construção na paz de uma sociedade inclusiva e fraterna, e também para a proteção da criação.

Quando no proémio da [constituição do papa Francisco] “Veritatis gaudium” [sobre as universidades e faculdades eclesiásticas] se menciona o aprofundamento do “kerygma” [anúncio/testemunho das verdades essenciais da fé cristã] e o diálogo com critérios para renovar os estudos, quer dizer-se que eles estão ao serviço do caminho de uma Igreja que cada vez mais coloca no centro a evangelização. Não a apologética, não os manuais (…): evangelizar. No centro está a evangelização, que não quer dizer proselitismo. No diálogo com as culturas e as religiões, a Igreja anuncia a Boa Notícia de Jesus e a prática do amor evangélico que Ele pregava como uma síntese de todo o ensinamento da Lei, das visões dos Profetas e da vontade do Pai.

O diálogo é antes de tudo um método de discernimento e de anúncio da Palavra de amor que é dirigida a cada pessoa, e que no coração de cada um quer fixar morada. Só na escuta desta Palavra, e na experiência do amor que ela comunica, se pode discernir a atualidade do “kerygma”. O diálogo, assim entendido, é uma forma de acolhimento.

Gostaria de sublinhar que «o discernimento espiritual não exclui as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais; mas transcende-as. Não bastam sequer as normas sábias da Igreja. Lembremo-nos sempre de que o discernimento é uma graça. (…) Em suma, o discernimento leva à própria fonte da vida que não morre, isto é, conhecer o Pai, o único Deus verdadeiro, e a quem Ele enviou, Jesus Cristo» (exortação “Gaudete et exsultate”, 170).



O modo de proceder dialógico é a via para chegar aonde se formam os paradigmas, os modos de sentir, os símbolos, as representações das pessoas e dos povos. Chegar até lá – como “etnógrafos espirituais” da alma do povo, digamos assim – para poder dialogar em profundidade e, se possível, contribuir para o seu desenvolvimento



As escolas de teologia renovam-se com a prática do discernimento, e com um modo de proceder dialógico capaz de criar um correspondente clima espiritual e de prática intelectual. Trata-se de um diálogo tanto na posição dos problemas, quanto na procura conjunta das vias de solução. Um diálogo capaz de integrar o critério vivo da Páscoa de Jesus com o movimento da analogia, que lê na realidade, na criação e na história nexos, sinais e referências teologais.

Isto comporta a assunção hermenêutica do mistério do caminho de Jesus que o conduz à cruz e à ressurreição, e ao dom do Espírito. Assumir esta lógica de Jesus e pascal é indispensável para compreender como a realidade histórica e criada é interrogada pela revelação do mistério do amor de Deus. Daquele Deus que na história de Jesus se manifesta – de cada vez e dentro de cada contradição – maior no amor e na capacidade de recuperar do mal.

Ambos os movimentos são necessários, complementares: um movimento de baixo para o alto, que pode dialogar, com sentido de escuta e discernimento, com cada instância humana e histórica, tendo conta de toda a espessura do humano; e um movimento do alto para baixo – onde “o alto” é aquele de Jesus elevado na cruz –, que permite, ao mesmo tempo, discernir os sinais do Reino de Deus na história e compreender de maneira profética os sinais do anti-Reino que desfiguram a alma e a história humana.

É um método que permite – numa dinâmica constante – confrontar-se com cada instância humana e colher que luz cristã ilumina as dobras da realidade, e quais energias o Espírito do Crucificado Ressuscitado está a suscitar, de tempos a tempos, aqui e agora.



A verdadeira “síndrome de Babel” é a de não escutar aquilo que o outro diz, e de acreditar que eu sei aquilo que o outro pensa e aquilo que o outro dirá



O modo de proceder dialógico é a via para chegar aonde se formam os paradigmas, os modos de sentir, os símbolos, as representações das pessoas e dos povos. Chegar até lá – como “etnógrafos espirituais” da alma do povo, digamos assim – para poder dialogar em profundidade e, se possível, contribuir para o seu desenvolvimento com o anúncio do Evangelho do Reino de Deus, cujo fruto é o amadurecimento de uma fraternidade cada vez mais dilatada e inclusiva.

Diálogo e anúncio do Evangelho que podem ocorrer nos modos traçados por Francisco de Assis na “Regra não bulada”, precisamente no dia a seguir à sua viagem ao oriente do Mediterrâneo. Para Franciswco, há um primeiro modo em que, simplesmente, se vive como cristãos: «Um modo é que não façam litígios ou disputas, mas se sujeitem a toda a criatura humana por amor de Deus, e confessem ser cristãos». Há depois um segundo modo, em que, sempre dóceis aos sinais e à ação do Senhor Ressuscitado e ao seu Espírito de paz, se anuncia a fé cristã como manifestação em Jesus do amor de Deus por todos os seres humanos. Sensibiliza-me muito aquele conselho de Francisco aos frades: «Pregai o Evangelho; se necessário também com as palavras». É o testemunho!

Esta docilidade ao Espírito implica um estilo de vida e de anúncio sem espírito de conquista, sem vontade de proselitismo – esta é a peste! – e sem um propósito agressivo de refutação. Uma modalidade que entra em diálogo “desde dentro” com os seres humanos e com as suas culturas, as suas histórias, as suas diferentes tradições religiosas; uma modalidade que, coerentemente com o Evangelho, compreende também o testemunho até ao sacrifício da vida, como demonstram os luminosos exemplos de Charles de Foucauld, dos monges de Tibhirine, do bispo de Oran Pierre Claverie, e de muitos irmãos e irmãs que, com a graça de Cristo, foram fiéis com mansidão e humildade, e morreram com o nome de Jesus nos lábios e a misericórdia no coração.

E aqui penso na não-violência como horizonte e sabedoria sobre o mundo, à qual a teologia deve olhar como seu elemento constitutivo. Ajudam-nos aqui os escritos e as práticas de Martin Luther King, Lanza del Vasto e de outros “artesãos” da paz. Ajuda-nos e encoraja a memória do Beato Giustino Russolillo, que foi estudante desta faculdade [de Teologia de Nápoles], e do P. Peppino Diana, o jovem pároco morto pela Camorra, que também estudou aqui. E aqui gostaria de mencionar uma síndrome perigosa, que é a “síndrome de Babel”. Nós pensamos que a “síndrome de Babel” é a confusão que se origina no não compreender aquilo que o outro diz. Este é o primeiro passo. Mas a verdadeira “síndrome de Babel” é a de não escutar aquilo que o outro diz, e de acreditar que eu sei aquilo que o outro pensa e aquilo que o outro dirá. Esta é a peste!


 

Papa Francisco
Pontifícia Faculdade de Teologia da Itália Meridional, Nápoles, 21.6.2019
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Vatican Media | D.R.
Publicado em 21.06.2019

 

 
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