Vemos, ouvimos e lemos
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Leitura

"A ilha e o verbo": Palavra e comunicação nos 50 anos de padre do cón. António Rego

«A nossa aproximação a Deus – a Jesus Cristo em concreto – dá-se mais pela via do afeto que pelas vias legais ou legalistas. Perdemos tempo de mais à procura dele, no labirinto das leis (…) Há grandes monumentos ao divino no pátio dos gentios.»

«O jornalismo que exerço é direcionado, está ao serviço de uma comunicação específica: sobre Deus, o transcendente, os mistérios, o Cristianismo, a Igreja, o homem no seu todo.»

Palavras do cón. António Pereira Rego, 73 anos, anterior diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais e conhecida figura do panorama audiovisual da Igreja católica em Portugal, no ar todos os domingos, na TVI, a seguir à missa, com o programa “Oitavo dia”.

Os 50 anos de ordenação presbiteral que assinala em 2014 estão na base do livro “A ilha e o verbo” (ed. Paulinas), constituído por uma grande entrevista conduzida pelo diretor da Agência Ecclesia, Paulo Rocha, bem como por textos da autoria do sacerdote açoriano e, ainda, algumas fotografias.

O volume, que vai ser lançado este sábado, às 19h00, na Feira do Livro de Lisboa (Praça Verde), com a presença dos autores e apresentação de Mário Mesquita, professor de jornalismo, é prefaciado pelo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente.

FotoSeminário de Angra, 1953

«Em António Rego tudo dá bem com tudo, da terra ao mar, da família à sociedade, da escrita à fala, da Igreja ao mundo. Reparemos na consonância geral do tom, quando versa os mais variados assuntos; reparemos nas palavras que usa, em como as distribui com igual generosidade por pessoas e temas. Porque nunca lhe falta o afeto, que harmoniza profundamente as coisas», sublinha o patriarca.

O cónego António Rego, que regularmente escreve no Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, «gosta do que faz, do que pastoralmente faz. E gosta tanto que desde cedo procurou partilhar, do perto ao longe, a Palavra que saboreia, a ideia que ela lhe sugere, o gesto que a concretiza. Daqui a sua fundamental propensão mediática e o papel pioneiro que teve e continua a ter no mundo e nos meios da comunicação social», assinala D. Manuel Clemente.

«Não há ninguém que o veja, oiça ou leia que não fique tocado pela simpatia que ressuma. Simpatia, isto é, “afinidade de espírito que aproxima duas ou mais pessoas”. Simpatia, como “atitude de amabilidade, ou cordialidade, boa
disposição para atender as solicitações de alguém”. Assim comigo, há mais de quarenta anos. Assim com tantos outros, há mais ou menos tempo», acrescenta.

Foto1958

Para D. Manuel Clemente, a obra proporciona aos leitores «o encontro com uma dos mais convincentes personagens do catolicismo português contemporâneo».

«Incuravelmente um ilhéu», «O ser padre», «Lisboa no horizonte», «Comunicar o sagrado», «O padre “70X7”», «TVI – “Não tinha o direito de recusar”» e «Pastoral das Comunicações» são os capítulos em que Paulo Rocha divide as cerca de 200 páginas de conversa, histórias, testemunhos e perspetivas.

Sete são os «grandes temas», a segunda parte do volume, com textos do cónego Rego: «Mar – O Espírito sobre as águas», «Liberdade – Vencidos do catolicismo ou visita breve aos anos sessenta», «Concílio Vaticano II – Um Concílio presente na vida da Igreja», «Meios de comunicação social – Média – Santuários virtuais», «Arte – Aqui mora Deus! A Igreja na cidade», «Açores – Um hino ao Espírito Santo» e «Oração – Ao Senhor Santo Cristo».

FotoOrdenação, 1964

 

Um padre que faz jornalismo
Cón. António Rego; jornalista: Paulo Rocha
In "A ilha e o verbo", ed. Paulinas

Após 50 anos a transmitir o religioso pelas ferramentas audiovisuais, que estratégia toma por essencial? Como é possível dizer Deus pelos media?

Ouvi e retenho uma frase numa entrevista com Hans Urs von Balthasar: «Deus é mais estético do que ético.» O papa Francisco tem insistido nisso por outras palavras. A nossa aproximação a Deus – a Jesus Cristo em concreto – dá-se mais pela via do afeto que pelas vias legais ou legalistas. Perdemos tempo de mais à procura dele, no labirinto das leis. Presto por isso homenagem aos grandes profetas de todos os tempos e do nosso tempo: os artífices do belo, na palavra, na escrita, na cor, no desenho da cidade, nas mil formas de dizer o corpo e o espírito, a fé, a procura e a própria dúvida. Há grandes monumentos ao divino no pátio dos gentios. E em todo o espaço virtual.

Quando atravesso uma cidade, leio nela uma época, uma história traduzida na forma como está pensada e construída, decorada nas estátuas, nas arquiteturas, nas casas pequenas e grandes, nos estilos, nas igrejas.

FotoRádio Renascença, 1968

Alguém me contou uma história sem ter dito ou escrito uma palavra. Foi uma construção. O religioso está sob este teto. Mas não apenas o do passado. Também se narra com as linhas e formas do nosso tempo. O novo também sabe dizer Deus, como a poesia de hoje, as representações das páginas maravilhosas de espírito que continuam a escrever-se.

Não sendo um perito em arte (sou obrigado a ser, em cada semana, especialista numa coisa diferente), gosto de procurar, encontrar e dizer Deus, por vezes perdido por esses recantos em formas aparentemente pagãs e instalações absurdas. Um Deus desconhecido, como diria Paulo. Por isso, no trabalho de todos os dias, tento explorar quanto posso o que de novo vai surgindo nas páginas por vezes cinzentas do nosso tempo. O que é do nosso tempo: a forma como Deus se procura, como se celebra nos nossos espaços, como se dá com a luz e as sombras que criamos e como a escultura e a pintura o exprimem. Geralmente impomos formatos e códigos estabelecidos ontem, para lermos a construção de hoje, como se fôssemos procurar em Camões a chave de leitura de Fernando Pessoa (apesar de O Mostrengo ter um pouco de ambos).

FotoBodas de prata sacerdotais, Ponta Delgada, 1989

Como estamos muito fixados em estilos e noções do âmbito artístico sobre o divino, os nossos olhos estranham quando entramos num espaço ou numa comunicação que não está relacionada com os arquétipos tradicionais. Como que precisamos reiniciar uma viagem interior para ler o sagrado nas entrelinhas de muitas expressões de hoje. No meu trabalho, sem recusa da beleza da grande arte visual e musical, tenho tentado descobrir e comunicar também nas transmissões litúrgicas as expressões do nosso tempo. O belo não tem pátria nem escolas exclusivas, nem formas fechadas. Os artistas de todos os tempos souberam e sabem disso. Ou melhor: eles é que sabem. Que se entendem com os santos e que desenvolvem artes semelhantes.

 

Que espaço é necessário dar a essas novas formas de arte?

É necessário dignificá-las, expô-las e dialogar com os artistas e com o povo, sobre o templo, o altar, o ambão, as imagens, os lugares celebrativos, a comunidade, a luz, as cores, os sacramentos. Fugir a um mero pragmatismo. E nunca abandonar a comunicação do sagrado e do expressamente cristão em qualquer arte.

FotoEgito, 1994

 

Essa arte precisa da amplificação dos media?

Não tanto. Os media é que precisam dela, não podem dar-se ao luxo de a ignorar, porque faz parte do nosso tempo!

Há, no entanto, uma pedagogia a desenvolver, propondo novas expressões, mesmo que um artista construa a sua arte a partir de preconceitos e dados utilitários do sagrado. Quem tem o dom autêntico da arte sabe distinguir os elementos essenciais que tecem o sagrado.

 

Celebrar 50 anos de sacerdócio que memórias traz e que emoções provoca?

Há um ano pensava que iria fazer uma celebração simplicíssima da Eucaristia, na Igreja Nossa Senhora de Fátima e mesmo nas Capelas, com um grupo de amigos e nada me interessava uma festa social (e ainda hoje não me interessa quase nada).

Foto

Foi-se gerando um movimento, oriundo de familiares, sobrinhos e sobrinhos-netos, que me convocaram e exigiram que se fizesse uma celebração, como também aconteceu na paróquia de Nossa Senhora de Fátima. Essa intenção obrigou-me a revisitar todos os momentos que antecederam a minha ordenação, refrescando todos os passos dados até ser ordenado. Este dom tornou-se, assim, mais agradecido!

O melhor desta celebração não é o grupo de festas exteriores que se possam fazer, que são interessantes, mas a oportunidade de ter mergulhado no historial da minha vocação e no seu ponto culminante que foi a Ordenação.

Lembro o meu pai, que muitas vezes me dizia para pensar na responsabilidade que era de ser padre. Não o afirmava para me demover, mas para me fazer melhor pensar sobre o jugo suave que caiu sobre os meus ombros. De que me não sinto cansado.

FotoMacau, 1997

 

Que estrutura foi sustentando essa determinação de fazer da sua missão o jornalismo?

Sempre senti que os bispos que se cruzaram com a minha missão confiavam em mim. Também senti por parte da comunidade das «ondas» um grande apoio. Os leitores, os ouvintes e telespectadores manifestavam interesse pelo trabalho que fazia. A voz que vem do outro lado estimula-nos!

Senti muitas vezes a mão de Deus, sustentando-me dos inúmeros mundos que percorri: andei pela fronteira, no pátio dos gentios, agarrando temas complicadíssimos e situações difíceis. Nessas ocasiões senti a mão protetora de Deus.

 

Vivia sozinho?

Nunca vivi sozinho. E acho que não teria jeito para isso. Após a ordenação estive algum tempo com as minhas irmãs (pouco, com pena minha) e, depois, sempre estive com outros sacerdotes e integrado numa comunidade paroquial. Estive ligado a movimentos, grupos musicais, à Juventude Operária Católica e à Juventude Universitária Católica, Cursilhos, Vicentinos, presos, e por aí adiante. Todos me deram grande entusiasmo no meu sacerdócio e com todos tive partilhas interessantíssimas de vida. Eles traziam-me muita sensibilidade desses universos, e muita exigência de verdade, sendo a Ação Católica que me deu muito estímulo e entusiasmo.

FotoMedalha da cidade de Ponta Delgada, 2010

 

Disse várias vezes nesta confissão pública que é um padre que faz jornalismo. É essa a marca de 50 anos de sacerdócio?

É! Mas se quiserem tirar a palavra jornalismo não me ofendo, apesar de ter a carteira profissional e não repudiar de nenhuma forma o jornalismo. A minha vida foi mais uma missão de comunicação. O instrumento mais visível e público era o jornalismo, de forma alargada e aberta, e não apenas um informador de notícias diárias. Tentei contar um dia mais longo, mais celebrado, mais alargado do que a simples narrativa de um qualquer noticiário...

 

O Oitavo Dia...?

O Oitavo Dia, exatamente! Porque significa o dia da ressurreição e o dia eterno, que não acaba. O dia desejado por todos os seres humanos, mesmo os não crentes.

 

FotoPontifício Conselho das Comunicações Sociais, 2010

 

Rui Jorge Martins
© SNPC | 06.06.14

Redes sociais, e-mail, imprimir

Capa

 

Ligações e contactos

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página